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Flash Mob de Leitores: um recreio inusitado

por Lisandro Moura

No dia 22 de junho de 2012 aconteceu o primeiro Flash mob no IFSul-Campus Bagé! Assim que se ouviu o sinal para o intervalo, os alunos da tarde foram surpreendidos por leitores espalhados pelo pátio da escola. O recreio se transformou num palco para uma encenação lúdica e educativa promovida pelos alunos do 2º semestre de Informática e previamente planejada durante as aulas de Sociologia. A atividade contou também com a colaboração e participação do prof. Nei, da Filosofia. Todos com um livro em mãos, lendo concentradamente, como se tudo fosse normal. Quem dera. Não é natural encontrar vários alunos e alunas sentados ou deitados na grama do pátio, imersos na leitura. Simplesmente o espaço foi modificado pela ação coletiva inusitada, aparentemente espontânea, que deu um novo significado para a vivência do recreio. Quando os demais alunos saíram de suas salas perceberam algo de estranho, uns comentaram “Olha, que bonito, todos estão lendo! Temos que tirar foto!” Outros, sem entender direito, perguntavam: é aula de que? Aula de leitura? O que ta acontecendo?!” Outros mais chegados, foram logo pegando o seu livrinho pra se juntar a comunidade de leitores, sem perguntar o motivo de tudo aquilo. Simplesmente porque era bonito de ver e, melhor ainda, bonito de fazer. A presença do sol fez com que a leitura-performance ficasse mais prazerosa e a cena ainda mais bela. Como é bonito ver alguém lendo, e mais bonito ainda é ler coletivamente, mesmo que por um curto período de tempo. É assim que funcionam os flash mobs pelo mundo todo. As pessoas se reúnem num determinado local e hora marcada com o intuito de causar espanto no público, mediante encenação ligeira sem objetivos explícitos. Depois todos se dispersam como se nada tivesse acontecido. Nonsense.

 Como todos os flash mobs, este também não surgiu do nada. O flash mob de leitores faz parte de uma proposta de ensino que venho desenvolvendo nos últimos anos. Trata-se de exercitar uma nova forma de aprender sociologia através de vivências coletivas, sempre pensando no objetivo final de produzir o estranhamento e a desnaturalização de fenômenos sociais – que segundo as Orientações Curriculares Nacionais, correspondem à finalidade principal da Sociologia no Ensino Médio. Isso pode ser feito de várias formas: saídas de campo, aulas em formato de assembleia, caminhadas pela cidade, etnografias em comunidades tradicionais ou em ambientes urbanos, rituais imersivos (ou experimentações imersivas: aulas em ambientes específicos, regada a comida, bebida e música) e, sobretudo, na forma de performances coletivas, ao estilo dos flash mobs e smart mobs, que nada mais são do que ações espontâneas, efêmeras e previamente combinadas que visam provocar o estranhamento e a desintitucionalização de práticas cotidianas.

Antes do flash mob de leitores, os alunos foram estimulados a pensar sobre as formas de se ocupar lugares, a pensar sobre as nossas instituições que, muitas vezes, orientam condutas e definem padrões de comportamento. A sociologia nos ajuda a entender o quanto nossas vidas são regidas por “forças invisíveis”, por normas previamente enraizadas no inconsciente coletivo. Essas normas, ao mesmo tempo que são fatores de coesão social e protegem a sociedade contra estados de “anomia”, são também coercitivas e reduzem nossa capacidade de intervenção, limitam a nossa autonomia. Pensar sobre elas já é um convite à transgressão e à subversão de valores socialmente aceitos. Uma vida, para ser vivida em sua plenitude, depende dessa capacidade de transformação dos nossos hábitos rotineiros, de nossa percepção subjetiva e objetiva do espaço, enfim, de nossa maneira de estar presente no presente. Trata-se de pensar sobre nossos ritos.

Os flash mobs produzem deslocamentos de olhar e deslocamentos do corpo, pois os espaços passam a ser imaginados e ocupados de forma pouco convencional. Na verdade, os espaços passam a ser desorganizados e redefinidos. Se nada disso aconteceu, pois muitos alunos sequer notaram a presença estranha de leitores, o que é extremamente preocupante(!), ao menos o flash mob de leitores nos proporcionou um rico momento de leitura ao sol. Estudantes, aguardem as cenas do próximo capítulo!

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Ensino de Sociologia na escola – O que é etnocentrismo

Nas minhas aulas de Sociologia costumo trabalhar com os estudantes o pequeno texto abaixo para fazer-lhes compreender o significado do conceito de Etnocentrismo. Os exemplos são muitos, porém acredito que este textinho, extraído do livro introdutório “O que é Etnocentrismo”, de Evandro Guimarães Rocha – da Colação Primeiros Passos – é fundamental e exemplar para se trabalhar em sala de aula, pois nos traz o verdadeiro sentido do conceito. O etnocentrismo, visão de mundo onde nossa própria sociedade é tomada como centro de tudo, passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da nossa própria cultura.

“Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc.; modesto, comprou para si mesmo apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as burocracias inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio.

A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.

Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Levantou-se, deu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez. Era hora de ir. Como que buscando inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio.”

O que não pensaria o índio se visse seus objetos pendurados na parede do escritório do nosso pastor??

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