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Histórias de Trabalho em Bagé

Texto de apresentação da Revista Histórias de Trabalho em Bagé, intitulado Escritas do mundo do trabalho.

Capa baixa resolução

Capa da revista. Arte: Hiago Faria. Foto de capa: Diego Lameira

por Lisandro Moura

As histórias aqui reunidas resultam de um trabalho de sala de aula realizado com estudantes do IFSul Campus Bagé, na área de Sociologia e no contexto do projeto Narradores de Bagé[1]. Os alunos e alunas do 6º semestre dos cursos de Agropecuária e Informática, integrados ao Ensino Médio, tiveram como tarefa a elaboração de narrativas literárias baseadas em histórias reais do cotidiano de quem vive do e para o trabalho. Os protagonistas são pessoas da cidade de Bagé e região, muitas delas próximas do convívio familiar dos estudantes-autores, o que faz da escrita um gesto de afeto ao próximo.

Os textos selecionados comportam imagens e personagens do mundo do trabalho, que em meio às adversidades da vida conseguem evocar um horizonte de possibilidades para quem busca uma vida com sentido. Captando com sensibilidade as minúcias laboriosas do cotidiano de cada personagem, os(as) jovens autores(as) nos convidam a visitar as memórias pessoais e coletivas que dão o tom das mais diversas profissões e ofícios. Vidas narradas de personagens profundamente humanos, que nos ensinam valores e atitudes indispensáveis pelo modo como vivenciam as contradições sociais do trabalho e as condições de suas próprias limitações.

O dilema das prostitutas e transexuais que vivem e sobrevivem nas calçadas e becos noturnos da cidade; a valsa imaginada pelo autor do texto, que dá ritmo às batidas repetitivas do antigo ferreiro; as resignações e relações afetivas do coveiro com o cemitério onde trabalha há anos; o solitário escritor-inventor que cria cenários a partir do alto da sua janela; o cotidiano arriscado de um trabalhador quileiro da região de Aceguá; a emoção remota que a parteira deixa transparecer ao realizar o milagre do seu trabalho; a fé e a generosidade da benzedeira Doninha; a dimensão trágica e heroica que se manifesta no trabalho de um bombeiro… São tantas histórias e lições de vida que não cabem neste texto. Todas elas falam da vida como trabalho e do trabalho como vida. Falam, sobretudo, do trabalho que não se deixa capturar pelo emprego formal, pois está associado à manifestação de um valor pessoal e afetivo. O trabalho com sentido em meio a uma vida de incertezas. O trabalho como espaço do devir e não apenas como produto de uma relação alienante, mesmo que ele esteja, quase sempre, situado numa estrutura de exploração e expropriação. A vivência subjetiva do trabalho ganha aqui um destaque superior ao modo como o trabalho se realiza no plano objetivo das relações sociais.

A cidade de Bagé é o palco onde as ações do enredo se desenvolvem. No entanto, apesar do cenário ser local, as narrativas sugerem também indícios do drama universal vivido pelos sujeitos do trabalho. A universalidade das histórias ganha relevância porque a forma de contá-las é figurativa, o que pode levar o leitor a se identificar com cada uma delas e, ao mesmo tempo, indagar se são histórias reais ou imaginadas, suprimindo assim os limites entre a realidade e a ficção. A escrita assume dimensões subjetivas importantes de modo que a imaginação passa a orientar o processo narrativo. A imaginação como matriz do ato criativo, como faculdade que permite revelar a veracidade do irreal ao transpor a objetividade desencantada dos “fatos sociais”.

O sentido pedagógico pensado nesse projeto está situado justamente nesse limiar entre o real e o imaginário. Estamos trabalhando com uma sociologia que se preocupa mais em mostrar as minúcias do labor diário do que explicar, julgando, suas causas e contradições. É o olhar que descreve os acontecimentos habituais em torno do trabalho para amplificar nossa percepção sobre os mesmos. Uma perspectiva, portanto, que investe com prioridade nas figurações do trabalho e nas formas sensíveis da vida cotidiana. Podemos falar, assim, de uma experiência de ensino que tem como finalidade a aprendizagem de um olhar fértil sobre os fenômenos sociais, um olhar atento aos pequenos gestos que são quase imperceptíveis ao observador apressado. Essa atenção imaginante está fundamentada na aproximação intuitiva entre o sujeito que narra e o objeto narrado, devido ao envolvimento dos estudantes que, em alguns momentos, se colocam também como participantes das histórias contadas.

Por fim, antes de mergulharmos nas figurações, memórias e afetos do mundo do trabalho, é imprescindível dizer que a organização desta revista surgiu de uma parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB) e foi acompanhada e sustentada por pessoas valiosas que, de uma forma ou de outra, foram corresponsáveis pela inspiração e finalização deste material. Menciono, em primeiro lugar, a Prof.ª Clara Dornelles, coordenadora do LAB, que gentilmente abraçou a ideia de publicar este trabalho realizado por alunos do IFSul, com recursos do projeto de extensão da Unipampa, Escrita colaborativa e experimental no Jornal Universitário do Pampa (PROEXT-MEC). Em segundo lugar, meus agradecimentos especiais à jornalista Giuliana Bruni por espalhar a magia do jornalismo literário em oficinas realizadas no LAB e em outros espaços da cidade, como no IFSul, universidades e escolas. Graças ao trabalho que ela realiza, em colaboração com o jornalista Felipe Laud, em projetos como o Pessoas de Bagé (Facebook) e nas oficinas voltadas para a escrita criativa de não-ficção, é possível pensar na literatura como substrato rico para o aprendizado e o exercício do olhar sociológico na escola.

[1] Projeto de ensino com o qual viemos desenvolvendo, desde 2011, trabalhos que apresentam em textos e imagens a diversidade das manifestações sociais e culturais da cidade de Bagé.

Fotos do lançamento, na Livraria Café & Prosa

Figura 2 - Autores e organizador da revista durante lançamento - Foto Giuliana Bruni

Autores e organizador da revista durante lançamento

Figura 3- Coordenadora do LAB, professora Clara Dornelles ao lado do coordenador e organizador da revista, professor Lisandro Moura - Foto Giuliana Bruni

Coordenadora do LAB, prof. Clara Dornelles e Lisandro Moura.

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A pedagogia simbólica dos Narradores de Bagé

Texto de Lisandro Moura,

professor de Sociologia do IFSul

Narramos quando vemos. Porque ver é complexo como tudo.

– Fernando Pessoa –

O que aprendi do cinema foi desfocar o universo

– Manoel de Barros –

 O vídeo-documentário Narradores de Bagé (uma referência ao filme Narradores de Javé, de 2003) é um breve resumo de dois anos de trabalho realizado no âmbito das disciplinas de Sociologia e História do IFSul Câmpus Bagé, a partir de uma metodologia compartilhada com jovens estudantes do ensino médio e técnico. Os cinco episódios que compõem o curta nos falam do encontro da instituição escolar com os saberes e crenças populares de comunidades tradicionais do município: apostadores de carreiras de cavalo, quilombolas, ciganas, benzedeiras e comunidades de terreiro. As imagens evocam paisagens culturais que são redundantes da nossa experiência de (auto)formação. São fabulações sobre o ato de ensinar e pesquisar a vida comunitária da cidade, em que a invenção da imagem não é somente meio para obter informações, mas é também o grande tema do processo de ensino.

A experiência dos narradores situa-se no contexto de reformulação dos meus fundamentos pedagógicos e das formas de produção do conhecimento em Sociologia. Essas formas de fazer e ensinar sociologia nos convidam a adentrar nas imagens poéticas dos espaços comunitários para praticar, assim, uma sociologia da imaginação poética, profundamente enraizada ao solo da tradição. Um ensino que implica numa religação dos sujeitos com o espaço referente, o que faz do professor de Sociologia um verdadeiro iniciador de cultura.

A palavra cultura, nesta prática, denota as raízes do solo, da terra: o húmus. As forças telúricas e o cultivo da tradição mediante o ensino da Sociologia. Não a tradição marcada pelas ideologias regionalistas, mas a tradição de uma ordem interna que subsiste, apesar dos tempos, nas nossas representações imaginárias e que é anterior à formação do “espírito científico”. Isso não significa um retorno ao passado, mas uma tentativa modesta de romper com os anacronismos e revelar o que tem de tradicional na própria contemporaneidade.

Em outras palavras, trata-se de revelar os componentes atuais do arcaísmo, de voltar as atenções ao ser humano, na sua dimensão sacralizada. É justamente isso que observamos na nossa convivência fraternal com o Alcíbio, Onélia e Nidinho, moradores do Rincão do Inferno, ou nas lições dionisíacas da cigana Anita, ou nas palavras mágicas das benzedeiras da cidade, bem como nos rituais festivos da Umbanda e Kimbanda. Em Bagé, todo ato, por mais cotidiano que seja, torna-se uma comunhão com o sagrado. Cada gesto revela uma cidade mítica e reencantada.

Narradores de Bagé - capa2

Ao mesmo tempo em que há, por parte dos alunos, um percurso em direção ao redescobrimento de Bagé, por meio da interlocução com novos atores da cultura popular, há também, no vídeo, uma dinâmica ficcional que narra os narradores no momento espontâneo da narração. É a narração do ato de narrar. A câmera trêmula, a imagem por vezes desfocada (não por gosto, mas por erro mesmo), e os enquadramentos amadores revelam uma estética dos Narradores bastante característica desta experiência de ensino com pesquisa. Nela, os estudantes não filmam de maneira planejada e recomendada pelos manuais do cinema. Eles vivem enquanto filmam. Há, portanto, uma correspondência entre viver e filmar. A câmera é uma extensão do espanto do olhar, da tremedeira das mãos. A máquina filmadora é um apêndice do nosso corpo e está a serviço da nossa imaginação. Na dinâmica da vivência, o tripé ficou pra trás, pois a estabilidade que ele propõe não condiz com a aventura narrativa.

O cinema, assim como toda narrativa visual, nos auxiliou a exercitar uma sociologia do instante, que marca a presença do sujeito no momento da imagem. O olhar participa do instante, ou melhor, ele intensifica o instante. Assim, não estamos apenas no cotidiano, contemplando-o. Estamos com o cotidiano, vivendo-o e recriando-o através da imagem.

É nesse sentido que o vídeo, editado pelos alunos Marcelo Fróes, Luciana Gonçalves e Maurício Barañano, tem a função de interrogar-nos sobre o “fazer-se” do ensino da Sociologia na escola para além da escola. Em alguns episódios, ficam evidentes os nossos procedimentos de aproximação às pessoas e ao universo da cidade, com o auxílio das câmeras digitais. As câmeras mostram a intimidade do ato de observar e de conviver com o outro. Elas alargam nossas fronteiras em direção ao tema da cultura popular de Bagé. O que se denota é a tendência cada vez mais acentuada do caráter concreto e virtual do trabalho de campo.

De alguns anos pra cá, a presença das câmeras na minha atividade docente vem cumprindo um papel fundamental na construção do conhecimento, do ensino e da aprendizagem. Além de elas nos forçarem a ver com atenção, também nos dão autoridade para narrar. Sobre esse ponto, estou amparado nos trabalhos desenvolvidos por Luciana Hartmann (2012; 2009), que sugerem múltiplas reflexões sobre as implicações do uso da filmadora e da fotografia nas pesquisas acadêmicas, especialmente na área da Antropologia. Segundo a autora, a utilização do audiovisual em trabalhos de campo facilita a comunicação com os sujeitos, mediante o fortalecimento dos laços com a comunidade.

Da mesma forma, acredito que a simples presença dos aparelhos audiovisuais não só estimulou os meus alunos a saírem a campo como também permitiu o contato mais seguro com os seus interlocutores. Eles conversaram com pessoas, observaram comportamentos, ouviram histórias, enfim, protagonizaram situações diversas com o pretexto de filmar e fotografar. Pois, quando se está com a câmera fotográfica em mãos, tem-se o dever de estar atento, de não perder sequer o movimento das mãos, a expressão do olhar, o suspiro do silêncio.

A importância das câmeras digitais (fotográficas e filmadoras) na pesquisa sociológica de rua está na possibilidade de deslocarmos o olhar e transformarmos as minúcias do cotidiano e dos gestos aparentemente banais em experiências formadoras significativas. Pois as relações sociais de um determinado espaço são compostas por situações imperceptíveis, aparentemente triviais, mas sem as quais não se pode compreendê-las adequadamente. A linguagem visual nos permite compor quadros figurativos do espaço, revelando sua dimensão estética e poética, que nem sempre se pode observar com acuidade.

A forma com que interagimos com o espaço e como traduzimos a vivência em um documentário de 18 minutos, deixa a entender que algum tipo de aprendizagem emergiu. Uma aprendizagem mais formativa do que propriamente informativa, e impossível de ser quantificada e classificada. No episódio do Rincão, por exemplo, as imagens sugerem que bastou as alunas sentirem o sabor do churrasco feito pelo Seu Alcíbio e o arroz com feijão feito com carinho pela Dona Onélia, disputado até pelos cachorros da volta, para apreender os acontecimentos na forma de sentimentos. Isso tem muito mais a ver com educação do que a simples transmissão de conteúdos em sala de aula.

Contudo, há que se levar em conta que, no vídeo, os episódios não foram muito bem explorados em suas nuanças e contradições. Nossa opção foi fazer um apanhado geral da nossa imersão junto às comunidades, não ultrapassando os 18 minutos. Temos a intenção de explorar os detalhes das entrevistas mais adiante, na publicação de um livreto de textos e fotografias, que reunirá os diários de campo escrito pelos estudantes.

Penso que essa aprendizagem tem a ver com uma postura de admiração e adesão ao território da tradição. Uma aventura narrativa de entrega afetiva, em contraposição à postura de desconfiança, de separação entre sujeito e objeto, que comumente caracteriza os estudos do campo da Sociologia. A espontaneidade do ato de pesquisar e filmar traduz a alegria do ato educativo na sua perspectiva simbólica. E o símbolo, como nos lembra Jung (2008, p.64), é tudo aquilo que implica algo a mais do que o seu significado manifesto.

Assim, para além da aparência visível das imagens, e sob a perspectiva de uma pedagogia simbólica (PERES, 1999), vemos que o vídeo contém também um dado oculto que expressa o desejo de ligação com o espaço, uma vontade de viver o instante, criando-o, de misturar-se com ele de forma alegre e espontânea. Viver o espaço com felicidade é reconhecer a alma do lugar. Viver a experiência é também uma forma de conhecer e aprender.

A lição que aprendi na companhia dos narradores de Bagé é de que a prática de ensino em sociologia adquire mais valor se nos entregarmos ao espaço com a cordialidade das experiências oníricas, estimuladas pela linguagem audiovisual. Para que o(a) estudante possa experimentar a atmosfera íntima de um determinado lugar, para que possa compreender o mundo das crenças, é necessário uma dose de distração e divertimento, uma entrega ingênua e apaixonada ao espaço.

 

Referências

HARTMANN, Luciana. Revelando Histórias: os usos do audiovisual na pesquisa com narradores da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai. Campos – Revista de Antropologia Social, América do Norte, 5, jul. 2004.

HARTMANN, Luciana. Do vídeo etnográfico, ou de como contar histórias com imagens. In: Sociais e Humanas, v. 22, p. 55-63, 2009.

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. 2ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2008.

PERES, Lúcia Maria Vaz. Dos saberes pessoais à visibilidade de uma pedagogia simbólica. Porto Alegre: FACED/UFRGS, (tese de doutorado), 1999.

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Nós, ruínas. Vós, terra.

Tava Miri - espiritualizada aldeia de pedra

Tava Miri – espiritualizada aldeia de pedra. Foto: Lisandro Moura

Lisandro Moura

Nos dias 18 e 19 de abril de 2013, os alunos do IFSul Campus Bagé visitaram a Aldeia Alvorecer (Tekoá Koenju) e o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, denominado pelos Mbyá Guarani de Tava Miri (Espiritualizada Aldeia de Pedra). A atividade foi coordenada por mim, prof Lisandro Moura, e pela professora Laura Ferrazza, e constitui-se como momento fundamental do Plano Curricular das disciplinas de Sociologia e História para os alunos(as) do 2º semestre dos cursos de Informática e Agropecuária. Para esta etapa, os alunos estudam noções de cultura e diversidade cultural brasileira, tendo como um dos enfoques a cultura ameríndia no Brasil e, especificamente, no Rio Grande do Sul. Em sala de aula, foram abordados assuntos e conceitos importantes para a formação dos jovens no que diz respeito à predisposição para o diálogo intercultural com os povos nativos: etnocentrismo, relativismo cultural, multiculturalismo, mitologia e cosmovisão indígenas, além do estudo sobre a história dos povos missioneiros. Sendo assim, as saídas de campo à Aldeia Koenju e à Tava Miri são oportunidades únicas de vivenciarmos na prática a história das Reduções Jesuíticas, bem como conhecer de perto o modo de vida das comunidades indígenas, da etnia Mbyá Guarani, cuja história está profundamente vinculada à formação do estado do Rio Grande do Sul.

Esta é a segunda viagem a São Miguel das Missões realizada pelo Campus Bagé, e a nossa intenção é que ela aconteça uma vez ao ano, como ação integrada ao NEABI (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do IFSul Campus Bagé). A justificativa diz respeito a necessidade, cada vez maior, de se fazer cumprir a Lei nº 11.645, de 2008, que alterou o Art. 26A da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira) para estabelecer a obrigatoriedade da inserção da temática da história e cultura dos povos indígenas nos currículos oficiais das redes de ensino públicas e privadas. Deste modo, é papel das Ciências Humanas e áreas afins desconstruir a predominância da visão eurocêntrica e etnocêntrica sobre os povos nativos do sul do Brasil, produtora de preconceitos e discriminações, e trabalhar, assim, a cultura ameríndia na sua complexidade, valorizando a sabedoria popular destes povos e sua importância para a autoformação humana e para a formação da identidade cultural nacional.

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju. Foto: Millena Rodriguez

Mais do que um simples projeto curricular, a viagem foi uma forma de participarmos do drama antigo (e sempre atual) que destruiu toda uma civilização inspirada na justiça, na solidariedade e na vida comunitária. Fomos em busca da Terra sem Mal (Yvy Mara ey), da reconexão com a nossa ancestralidade indígena. Fomos invocar a sabedoria daqueles homens, mulheres e crianças que continuam a pelear em nome da liberdade. Nos juntamos a eles e sentamos à beira do Rio Inhacapetum, bebemos a água da fonte missioneira e pisamos o chão daqueles que nos ensinam a amar e a conviver com a natureza.  A Tekoá, lugar por excelência do viver guarani, não é somente espaço físico, mas é também um território simbólico que nos causou encantamento. O imaginário que envolve a Tekoá Koenju tem poder de influência nas pessoas que lá chegam. “Afetam” nosso estado de espírito e nos fazem ver o mundo por outro ângulo. Por isso, a permanência das populações ameríndias nos seus espaços de origem é de suma importância para a continuidade da vida, para a manutenção dos costumes tradicionais, pois trata-se de uma “terra mítica”, algo que os depositários da fé econômica e desenvolvimentista não podem compreender e nem aceitar.

Foto de Lisandro Moura

Foto: Lisandro Moura

A Tekoá vai muito além da simples tradução de “Aldeia”, pois esta se refere unicamente à noção fundiária, ou seja, áreas reservadas e demarcadas pelo Estado. Quando os juruás (não indígenas) reindicam a terra, é para transformá-la em mercadoria; já para as comunidades tradicionais, sobretudo as indígenas, reivindicar a terra é transformá-la num lugar espiritualmente relevante. A Tekoá é muito mais do que Aldeia, é o espaço da vida, o lugar que permite o modo guarani de estar no mundo.

Percebemos isso logo que chegamos em Koenju. Já pela janela do ônibus avistamos a imagem que poderia ser muito bem representada pela ideia de “paraíso”. A imagem que se formava era a da vida comunitária em harmonia com a natureza. Obviamente que a noção comunitária não está desprovida de conflitos. Dentro do território, há sub-territórios, sub-regiões não tão harmoniosas e de difícil compreensão. Mas o que ficou mesmo foi a imagem das crianças brincando descalças, sorrindo e rolando pelo chão. Em frente às casas, as famílias nos olhavam de longe, com o chimarrão em mãos e o fogo aceso no chão. A música cantada e dançada pelos(as) jovens do Coral Guarani (coordenado pelo indígena Floriano Romeu), o artesanato esculpido por mãos obreiras, as histórias contadas pela Kerexu Rete (Patricia Ferreira), cineasta indígena e professora bilíngue da Escola Estadual Indígena Igíneo Romeu Koenju, ficarão pra sempre guardadas na nossa memória como verdadeiras lições de vida.

Crianças mbyá brincando

Crianças mbyá brincando. Foto: Diovanna da Luz

Não há dúvidas: retornamos da viagem com a força daquelas pessoas e daquele chão. Agora, temos em nós a melodia arquitetônica da Tava Miri e o espírito guerreiro de Sepé Tiaraju, que sobrevive na memória dos vivos. Somos brasileiros, gaúchos, com sangue índio nas veias.

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Flash Mob de Leitores: um recreio inusitado

por Lisandro Moura

No dia 22 de junho de 2012 aconteceu o primeiro Flash mob no IFSul-Campus Bagé! Assim que se ouviu o sinal para o intervalo, os alunos da tarde foram surpreendidos por leitores espalhados pelo pátio da escola. O recreio se transformou num palco para uma encenação lúdica e educativa promovida pelos alunos do 2º semestre de Informática e previamente planejada durante as aulas de Sociologia. A atividade contou também com a colaboração e participação do prof. Nei, da Filosofia. Todos com um livro em mãos, lendo concentradamente, como se tudo fosse normal. Quem dera. Não é natural encontrar vários alunos e alunas sentados ou deitados na grama do pátio, imersos na leitura. Simplesmente o espaço foi modificado pela ação coletiva inusitada, aparentemente espontânea, que deu um novo significado para a vivência do recreio. Quando os demais alunos saíram de suas salas perceberam algo de estranho, uns comentaram “Olha, que bonito, todos estão lendo! Temos que tirar foto!” Outros, sem entender direito, perguntavam: é aula de que? Aula de leitura? O que ta acontecendo?!” Outros mais chegados, foram logo pegando o seu livrinho pra se juntar a comunidade de leitores, sem perguntar o motivo de tudo aquilo. Simplesmente porque era bonito de ver e, melhor ainda, bonito de fazer. A presença do sol fez com que a leitura-performance ficasse mais prazerosa e a cena ainda mais bela. Como é bonito ver alguém lendo, e mais bonito ainda é ler coletivamente, mesmo que por um curto período de tempo. É assim que funcionam os flash mobs pelo mundo todo. As pessoas se reúnem num determinado local e hora marcada com o intuito de causar espanto no público, mediante encenação ligeira sem objetivos explícitos. Depois todos se dispersam como se nada tivesse acontecido. Nonsense.

 Como todos os flash mobs, este também não surgiu do nada. O flash mob de leitores faz parte de uma proposta de ensino que venho desenvolvendo nos últimos anos. Trata-se de exercitar uma nova forma de aprender sociologia através de vivências coletivas, sempre pensando no objetivo final de produzir o estranhamento e a desnaturalização de fenômenos sociais – que segundo as Orientações Curriculares Nacionais, correspondem à finalidade principal da Sociologia no Ensino Médio. Isso pode ser feito de várias formas: saídas de campo, aulas em formato de assembleia, caminhadas pela cidade, etnografias em comunidades tradicionais ou em ambientes urbanos, rituais imersivos (ou experimentações imersivas: aulas em ambientes específicos, regada a comida, bebida e música) e, sobretudo, na forma de performances coletivas, ao estilo dos flash mobs e smart mobs, que nada mais são do que ações espontâneas, efêmeras e previamente combinadas que visam provocar o estranhamento e a desintitucionalização de práticas cotidianas.

Antes do flash mob de leitores, os alunos foram estimulados a pensar sobre as formas de se ocupar lugares, a pensar sobre as nossas instituições que, muitas vezes, orientam condutas e definem padrões de comportamento. A sociologia nos ajuda a entender o quanto nossas vidas são regidas por “forças invisíveis”, por normas previamente enraizadas no inconsciente coletivo. Essas normas, ao mesmo tempo que são fatores de coesão social e protegem a sociedade contra estados de “anomia”, são também coercitivas e reduzem nossa capacidade de intervenção, limitam a nossa autonomia. Pensar sobre elas já é um convite à transgressão e à subversão de valores socialmente aceitos. Uma vida, para ser vivida em sua plenitude, depende dessa capacidade de transformação dos nossos hábitos rotineiros, de nossa percepção subjetiva e objetiva do espaço, enfim, de nossa maneira de estar presente no presente. Trata-se de pensar sobre nossos ritos.

Os flash mobs produzem deslocamentos de olhar e deslocamentos do corpo, pois os espaços passam a ser imaginados e ocupados de forma pouco convencional. Na verdade, os espaços passam a ser desorganizados e redefinidos. Se nada disso aconteceu, pois muitos alunos sequer notaram a presença estranha de leitores, o que é extremamente preocupante(!), ao menos o flash mob de leitores nos proporcionou um rico momento de leitura ao sol. Estudantes, aguardem as cenas do próximo capítulo!

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Banca de Qualificação – Imaginário e Ensino de Sociologia

Banca de qualificação de mestrado – UFPel/FaE

As horas se alternam entre a responsabilidade de saber e a liberdade das fantasias, esta liberdade fácil demais do homem solitário.  (Gaston Bachelard)

A escrita da minha pesquisa de mestrado vem acompanhada por um dilema saudável que, inclusive, foi ressaltado pela banca de qualificação nesta manhã do dia 11 de junho de 2012. De um lado, deixo a escrita ser guiada pela liberdade das fantasias e dos sonhos que me fazem voar alto. Busco a autonomia do pesquisador-escritor-artista que sabe que a ciência e a docência devem, ao invés de convencer, seduzir. Ser professor é , ao mesmo tempo, ser pesquisador e mágico-feiticeiro. De outro, a certeza de que quanto mais alto o vôo maior é o tombo e que, portanto, devo ter um pé no chão, alicerçado no saber acadêmico – o porto seguro. No equilíbrio entre um e outro, saio da banca acreditando ainda mais de que a subversão acadêmica, tanto pela escrita quanto pelas idéias e propostas metodológicas, é condição necessária para a sobrevivência da inteligência humana e sobrevivência da própria ciência. Digo isso porque a parte do meu trabalho que mais foi elogiada pela competente banca é aquela em que o meu texto corre livre das censuras. Nesta parte, imerso no imaginário do pampa, eu discorro sobre os processos autoformativos que me levaram a pesquisar o que eu estou pesquisando. O cientista é um escritor disfarçado. Portanto, aqueles que querem dar alguma contribuição ao processo de construção do conhecimento precisam buscar referências não só nos manuais do trabalho científico mas na própria vida, muitas vezes ignorada pela ciência. O cientista hoje é apenas um administrador do pensamento enquanto que o escritor é o criador, potencializador de utopias. O cientista enquadra, o escritor desata e desorganiza os dados. O cientista é o eliminador de ruídos. O escritor sabe que são os ruídos que movem a ciência e o pensamento em direção a novos mundos. Eu tenho os dois em mim.

Projeto de mestrado aprovado pela Banca de Qualificação do PPGE-UFPel, às 11h15min do dia 11 de junho de 2012.

Título: Imaginário e Ensino de Sociologia: a “atenção imaginante” nas narrativas visuais sobre a cidade de Bagé

Autor: Lisandro Lucas de Lima Moura

Orintadora: Profª Drª Lúcia Maria Vaz Peres (UFPel/GEPIEM)

Professores(as) componentes da banca:

Prof. Dr. Alexandre Virgínio Assunção (IFSul-Campus Pelotas)

Profª. Drª. Denise Marcos Bussoletti (UFPel/RS)

Profª. Drª. Luciana Hartmann (UnB/DF)

Profª. Drª. Marta Nörnberg (UFPel/RS)

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Identidade de Fronteira

Teve início no último sábado, 3 de junho,  o projeto de ensino Identidade de Fronteira: práticas sociais e culturais no território bageense, coordenado pelos professores Lisandro Lucas de Lima Moura (Sociologia) e Ariel Salvador Roja Fagúndez (História). A proposta faz parte do Projeto Integrador do Departamento de Ensino, cujo tema geral deste semestre é a Gestão Territorial. O Projeto Integrador é uma atividade de caráter interdisciplinar promovida semestralmente pelo IFSul, do qual participam todos os professores e alunos, em diferentes projetos.

A gestão do território refere-se à forma com que atores sociais e econômicos ocupam um determinado espaço geográfico, imprimindo nele sua cultura, usos e costumes diversos, enfim, o seu modo de produzir, de pensar e de agir.

A proposta do Grupo de Trabalho Identidade de Fronteira: práticas sociais e culturais no território bageense, é identificar, na simplicidade da vida cotidiana, os aspectos sociais, históricos e culturais do território bageense. Esse território compreende um espaço fronteiriço, onde se misturam as práticas culturais de brasileiros e uruguaios, formando uma identidade própria que pode ser visualizada nos ritos, nos mitos, na fala, nas festas populares, na religiosidade, etc. Essas manifestações culturais devem ser levadas em conta quando se pensa em formas alternativas de desenvolvimento econômico, baseadas numa cultura solidária, participativa e coletiva.

O primeiro encontro do Grupo aconteceu no Parque do Gaúcho, lugar onde se pode apreciar os costumes e a simplicidade do povo do sul. A primeira palavra que parece se ouvir destes campos é imensidão. Dizem que o homem e a mulher do pampa enxergam mais longe.. É verdade. E que coisa mais sem graça é não sentir o pé no chão.. A sabedoria indígena nos ensina isso. Nestes pagos é impossível não perceber a força telúrica que liga o ser humano ao seu contexto, ao seu chão, a sua terra.

http://nasombradoumbu.blogspot.com/

http://www.ifsul.edu.br


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Os usos da imagem nas aulas de sociologia

O campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) recebe nos dias 5, 6 e 7 de maio acadêmicos e pesquisadores de diferentes países para o I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur (ECHTEC). Vinte e seis simpósios e 535 propostas de trabalhos para apresentação já foram inscritos no evento, que integra várias instituições acadêmicas associadas à Internacional del Conocimiento, grupo de pesquisa do Instituto de Estudos Avançados – IDEA, da Universidade de Santiago do Chile (USACH).

Na acasião, vou apresentar minha pesquisa realizada em 2010 sobre o uso imagem no ensino da Sociologia:  fotografias, vídeos, filmes, documentários, etc.

Título do Trabalho: Os usos de recuros didáticos visuais no ensino da Sociologia

Autor: Lisandro Lucas de Lima Moura

Resumo do trabalho:

O trabalho é resultado de uma pesquisa qualitativa realizada com professores(as) de Sociologia de escolas de nível médio do Brasil sobre os usos de recursos didáticos visuais na sala de aula (filmes, vídeos, fotografias etc..) O objetivo é compreender de que forma as linguagens visuais podem contribuir para a compreensão da vida social e enriquecer a prática pedagógica de professores(as) de Sociologia, para além da simples informação sobre temas e conteúdos curriculares. Através de um trabalho pedagógico com imagens, busca-se ampliar as possibilidades de uma prática interdisciplinar, de modo a privilegiar a dimensão do estético, do poético e do imaginário nas Ciências Sociais. A busca por uma metodologia de ensino inovadora no uso de imagens em sala de aula precisa levar em conta o conhecimento produzido pelo campo da Sociologia Visual (ou Sociologia da Imagem) como forma de possibilitar o exercício da imaginação sociológica mediante a educação do olhar.

Dia: quinta-feira, 5 de maio de 2011

Horário: 9h

Local: IFSul – Campus Pelotas

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Ensino de Sociologia na escola – O que é etnocentrismo

Nas minhas aulas de Sociologia costumo trabalhar com os estudantes o pequeno texto abaixo para fazer-lhes compreender o significado do conceito de Etnocentrismo. Os exemplos são muitos, porém acredito que este textinho, extraído do livro introdutório “O que é Etnocentrismo”, de Evandro Guimarães Rocha – da Colação Primeiros Passos – é fundamental e exemplar para se trabalhar em sala de aula, pois nos traz o verdadeiro sentido do conceito. O etnocentrismo, visão de mundo onde nossa própria sociedade é tomada como centro de tudo, passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da nossa própria cultura.

“Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc.; modesto, comprou para si mesmo apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as burocracias inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio.

A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.

Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Levantou-se, deu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez. Era hora de ir. Como que buscando inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio.”

O que não pensaria o índio se visse seus objetos pendurados na parede do escritório do nosso pastor??

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