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Cosmologia guarani

por Lisandro Moura

Texto publicado na Revista Colabore: articulando saberes, n. 2. Bagé: Universidade Federal do Pampa, set 2016. p. 22 – 24.

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Itacoatiara, pintura rupestre astronômica Tupi-Guarani, no Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil – Créditos Wikimedia Commons

A palavra “cosmologia” tem sido usada com frequência no campo das Ciências Humanas, notadamente na Antropologia, para designar o estudo da visão de mundo como totalidade existencial de um povo, sua relação com o universo, com o cosmo. Denota, assim, uma relação diferenciada que a cultura de um povo, enquanto sistema simbólico de organização social, estabelece com a organização material e espiritual da vida, uma ética planetária que remete ao sentimento de unidade com o universo. Talvez seja difícil pensar o conhecimento da vida humana em termos cosmológicos, tendo em vista o longo processo de racionalização das ações humanas a que estamos submetidos desde o Iluminismo. A aposta no progresso linear e inconsequente se expressa naquilo que Max Weber (2004) chamou de desencantamento do mundo, ou seja, o momento da modernidade marcado pela separação entre cultura e natureza, entre corpo e espírito, momento em que as pessoas são desenraizadas do seu passado primordial, no qual a imagem do mundo era predominantemente mágica e mitológica, e os sentimentos acerca do universo não separavam o ser humano do seu chão e do seu cosmos.

Falar em cosmovisão implica levar em conta as narrativas míticas que justificam a existência de uma ordem social (cosmo) contra os efeitos da incerteza (caos), sendo a principal delas os mitos cosmogônicos, ou seja, os mitos de criação do universo. A mitologia, enquanto pensamento simbólico, não é uma prerrogativa somente de povos e comunidades tradicionais, como as populações indígenas. Nós, modernos e ocidentais, também temos os nossos mitos, que ora justificam nosso modo de vida e ora nos impulsionam para mudanças no nosso modo de existência. A diferença é que muitos de nós acreditamos no discurso de que a ciência representa a única forma válida de conhecimento, e todo o tipo de saber popular não passa de uma falsa consciência do mundo. O mito para nós está frequentemente associado à mentira ou à superstição. É assim que o programa do desencantamento tentou reduzir a ordem cósmica e mitológica à ordem histórica e política.  Entretanto, a História, a Ciência e a Tecnologia, que equivalem ao totem das sociedades modernas, não passam de um microcosmo de uma cosmologia maior que é o mito. É o mito que explica a ciência e não o contrário, como nos lembra a narrativa mitológica de Prometeu, por exemplo.

A cultura dos povos ameríndios da nação Guarani, que habitam as regiões da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil (RS, SC e PR), exemplificam muito bem a indissociabilidade entre natureza e cultura, corpo e ama, terra e céu. É possível afirmar que todo o universo guarani é conduzido pelos céus e todo sistema de crenças, enquanto cosmovisão de mundo, segue as intimações celestes, como evidenciam os estudos de Cadogan, (1992), Fonseca (2007), Afonso (2006). Essa afirmação é válida também para a comunidade mbyá-guarani da Tekoá Koenju (Aldeia Alvorecer), localizada em São Miguel das Missões. Nas saídas de campo que realizo todo o ano, desde 2011, com meus alunos do IFSul, observo o quanto as ações cotidianas estão relacionadas a uma ordem cosmológica diversa da nossa, pois os mbyá dão muita importância aos fenômenos celestes antes de tomar qualquer decisão que envolva o coletivo. Isso porque o ethos do guarani, denominado de Nandereko ou Teko, equivale à máxima “viver como os antigos”, que para eles pode ser traduzida como “modo de ser verdadeiro” (CADOGAN, 1992). As plantações, as colheitas, as decisões políticas (cosmopolítica) o trabalho com artesanato, a organização social e os os ensinamentos dos karaí obedecem aos eventos míticos estruturados como mediação simbólica entre a terra e o céu. Dentre os principais eventos míticos está a busca da Terra sem Males ou Terra Celestial (Yvy Marãey), motivação vital de todo Guarani. Desse modo, podemos dizer que as mensagens vindas do céu se entrelaçam com as vivências do cotidiano. Por exemplo, o nome que as crianças Guarani recebem do xamã (Karaí), através da mediação dos deuses, e que representa a sua “alma-palavra”, está associado aos quatro pontos cardeais e aos ancestrais (clãs) associados ao sol (kuaray), ao relâmpago (werá), ao mar e oceano (Pará), às flores (Poty), ao universo (Yva) etc. Assim também funciona a construção da casa de rezas, denominada de Opy, cuja porta de entrada precisa estar posicionada na direção leste, exatamente onde cai o primeiro raio de sol do dia.

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As crianças mbyá-guarani recebem nomes associados a elementos da natureza. Foto: Gabriela Avello. Aldeia Koenju.

Um fato curioso desse aspecto da cultura Mbyá-Guarani foi narrado pelo documentário Bicicletas de Nhanderú, dirigido pelos cineastas indígenas Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, moradores de Koenju. O filme mostra o cotidiano dos Mbya-Guarani da aldeia Koenju, em São Miguel das Missões. Na primeira cena do filme, um raio cai próximo às moradias e atinge parte de uma árvore. Algo que poderia ser visto como um fenômeno natural, uma simples descarga elétrica, é visto pela comunidade como algo mais, como prenúncio dos deuses, que dará sentido ao desenrolar da trama fílmica dali em diante. O fato mostra o quanto a comunidade orienta suas práticas a partir de referenciais mais amplos. Na ocasião, os moradores da aldeia explicam o acontecimento como sendo um gesto de descontentamento de Tupã, deus mensageiro dos Guarani, que se manifesta na forma de trovão. Assim que a chuva passa, os moradores se dirigem ao local do raio e apanham o galho espesso que caiu da árvore devido à força do relâmpago. Observam o galho demoradamente, com muita atenção, querendo encontrar ali algum tipo de resposta. “Será que matou o espírito dela?”, pergunta o cinegrafista indígena. “Não sei”, responde o companheiro, “acho que ele [Tupã] só quis dar um susto. Não foi um espírito ruim, ele só estava bravo.” Após, o rapaz que está filmando pega o pedaço da árvore e leva até a anciã (cuña karaí) para que ela faça um colocar para seu filho. “Quando caiu aquele raio, eu senti uma dor nas costas”, diz ela, demonstrando o quanto seu corpo funciona também como força cósmica, pois está conectado ao universo. O Karaí, liderança espiritual da comunidade, professa suas belas-palavras sobre o ocorrido: “Os Tupã são assim… Eles não vêm só para trazer chuva, vêm também para nos proteger. Eles não caminham em vão… Pois nós não vemos os seres que nos fazem mal. Somente eles podem ver.”

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Imagem de Bicicletas de Nhanderú. (Fonte: videonasaldeias.org.br)

Esse breve relato demonstra, portanto, o quanto o pensamento Guarani possui uma concepção unitária do cosmo, não separando, portanto, o mito da realidade, o real do imaginário, uma vez que o mito opera justamente como modelo exemplar da conduta humana (ELIADE, 2010). A cultura guarani contem em si o saber que caracteriza o universo cosmológico de praticamente todas as sociedades tradicionais, cuja característica foi bem compreendida por Gilbert Durand (2008, p. 49): “Para o pensamento tradicional, não existe nada indiferente na natureza: cada situação na dimensão remete a um aviso no tempo; cada lugar e cada tempo são os sinais de um destino.”

Referências

AFONSO, G.B., Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil. (Edição Especial: Etnoastronomia), v. 14, p. 46-55, 2006.

CADOGAN, Leon. Ayvu rapita: textos míticos de los mbyá-guarani del Guairá. Biblioteca Paraguaya de Antropologia, 1992.

DURAND, Gilbert. Ciência do homem e tradição: novo espírito antropológico. São Paulo: TRIOM, 2008.

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Coleção Debates. São Paulo: Perspectiva, 2013.

FONSECA, O.; PINTO, S.; JURBERG, C. Mitos e constelações indígenas, confeccionando um planetário de mão. X Reunión de la Red de Popularización de la Ciencia y la Tecnología en América Latina y el Caribe (RED POP – UNESCO) y IV Taller “Ciencia, Comunicación y Sociedad” San José, Costa Rica, 9 al 11 de mayo, 2007.

WEBER, Max. A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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Pampa: metáfora visual

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Foto: Lisandro Moura

Pampa sem fronteiras: metáfora visual e liminaridade cultural

Dia 21/01/17 – às 19h30 – no Clube de Cultura – Porto Alegre.

Programação do Fronteiras Culturais/Fronteras Culturales – Fórum Social das Resistências

A força que a imagem do pampa exprime orienta o fazer cultural na região fronteiriça, criando um vínculo fundamental entre as pessoas e o seu contexto de referência. Nas minhas errâncias por este pago, tenho buscado transformar a imensidão horizontal do pampa, que caracteriza a fronteira com o Uruguai, em metáfora visual e matriz epistemológica do meu trabalho como professor-pesquisador e como agente (inter)cultural. Pensar a fronteira como espaço metafórico pressupõe dar a ela um conteúdo político imaginado fora dos parâmetros da racionalidade usual que associa os lugares unicamente à ordem do controle e do instituído. Com as produções audiovisuais e musicais do Ponto de Cultura Pampa sem Fronteiras, localizado no município de Bagé-RS, procuramos evidenciar essa qualidade imaginária e metafórica das relações na fronteira e pensar até que ponto ela pode ser aceita como legítima pela gestão estatal na formulação de políticas públicas na região. A fronteira nos afeta por ser um espaço simbólico desterritorializado, que escapa às tentativas de colonização devido à sua condição liminar. É o ‘entre-lugar” dos saberes compartilhados e das possibilidades culturais criativas associadas às diferentes formas de viver a vida. O simbolismo do pampa é, portanto, um convite à reflexão sobre a vastidão que existe neste canto do mundo.

Lisandro Moura
Prof. de Sociologia do IFSul – Campus Bagé
Doutorando em Antropologia (UFPel-Leppais Lab)
Ponto de Cultura Pampa sem Fronteiras

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A inadequação do palhaço

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Desenho de Gabriela Weber

Por Lisandro Moura

Publicado originalmente em Junipampa

Você tem coragem de viver alegremente a sua vida, mesmo que ela não seja um produto da sua vontade? Dificilmente, não é? Grande parte de nós hesitaríamos em reafirmar nossa vida tal como ela tem sido vivida atualmente. Somos seres fugidios, por isso recusamos a atitude de entrega e optamos pela segurança dos valores moralizantes, que sugerem alguma promessa de salvação. Negamos o mundo porque gostaríamos que ele fosse diferente, e assim deixamos de viver. Criamos uma imensa carcaça de proteção, máscaras e ideologias para agir conforme as expectativas que julgamos necessárias e corretas, pelo simples fato de que elas nos confortam.

O palhaço é uma das poucas figuras capazes de afirmar a existência diante de uma situação trágica, sem os dogmas do politicamente correto e seu avesso. Ele está sujeito a retaliações por assumir sua carência a tal ponto de abraçar o ridículo que há em si, fazendo dele uma grande piada. O palhaço corresponde a nossa sombra, tal como descrita na psicologia profunda de Carl Jung, ou seja, corresponde aos aspectos reprimidos pela nossa consciência. A máscara do palhaço revela aquilo que rejeitamos em nós mesmos, aquilo que não se encaixa em nossos princípios, sejam eles bons ou maus. Aliás, o palhaço só existe para embaralhar nossas certezas sobre o bem e o mal. Ele não age pela lógica unilateral do isso ou aquilo, do justo ou injusto, ele é um ser completo e complexo que abriga em si todas as virtudes e imperfeições. Daí nosso desconforto diante das suas brincadeiras um tanto perversas. A ação do palhaço provoca em nós uma vergonha alheia, um choque perceptivo, porque ele traz à tona o que em nós já está domesticado. Ao agir com o corpo e não com a razão, ele exterioriza os impulsos selvagens da natureza humana, que podem chocar as pessoas de bons sentimentos.

É insuportável demais reconhecer que nada podemos fazer contra nós mesmos e contra o mundo. Nada pode causar mais desconforto do que a descoberta da nossa própria imperfeição. Para driblar nossa impotência erigimos um mundo agressivamente artificial, em contraste com o ciclo natural das coisas, só com a força da nossa espada que a tudo transforma. E assim pousamos de deuses ou heróis, por não admitirmos nossa pobreza, mesmo sabendo que ela é, em realidade, a nossa maior riqueza, conforme revela a sabedoria contida nas leis herméticas: “O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima“.

Por isso, a arte do palhaço não é a da ação que transforma, mas a do ato que instaura. O ato é uma decisão instantânea dotada de originalidade, enquanto que a ação é sempre uma decisão objetiva e esquemática, como nos lembra Roupnel (citado por Bachelard, em A intuição do instante). Ao atuar sob a lógica orgânica do corpo e dos gestos pulsionais, o palhaço está contestando a supremacia da consciência e dando vazão aos fatores que ele mesmo não controla, e que provêm da potência do seu inconsciente, não só pessoal, mas, sobretudo, coletivo e transpessoal. É aí que se encontra o perigo que muitos procuram evitar: o perigo da imprevisibilidade das ações humanas.

Já está suficientemente demonstrado que a história do processo civilizador e educacional é a história da repressão dos impulsos criativos do corpo[1], uma vez que ele corresponde ao lugar onde habita nossa memória mais remota, aquela que precisa ser contida. É a história da tentativa fracassada de ajustar o ser à ordem institucional e moral do “contrato social”. É assim que o arquétipo do selvagem vai sendo, aos poucos, subtraído pelo anseio desesperado de controlarmos as incertezas e os mistérios da vida. Eis, então, que nos deparamos com uma sociedade empobrecida simbolicamente, que minou a experiência mágica do mundo em detrimento do “cálculo racional com relação a fins”, como diria Max Weber. O desencantamento do mundo é, justamente, a operação racional que provocou o descentramento entre o ser humano e o seu cosmos, a separação entre natureza e cultura, entre corpo e espírito. Por isso não é difícil imaginar o quanto o riso, o sonho e a magia são vistos com certa desconfiança pela consciência desperta e objetiva.

A experiência lúdica propiciada pelo riso é reveladora da saúde mental e espiritual do homo symbolicus. Muitas vezes, quando estamos diante de um ato cômico, somos defrontados com a vigilância inibidora da nossa consciência repressora e dos princípios socialmente arraigados, que nos impedem de achar graça de tal situação. Logo, o nosso corpo é impedido de entrar em sintonia com o instante por conta de uma racionalidade crítica e sistêmica que entra em jogo para nos distanciar do ato e, assim, produzir reflexões e análises orientadas pelo cogito. Provavelmente, essas reflexões revelarão algo de inaceitável para o meio social, podendo ser um preconceito, uma brincadeira de “mau gosto”, um ato sectário, machista etc. Frutos da operação do pensamento, as análises reflexivas que se utilizam de juízos de valor historicamente datados são o exemplo maior do quanto estamos socialmente condicionados, ou seja, o quanto o indivíduo/pessoa está subtraído perante a razão de Estado, a ponto de reduzir sua capacidade imaginativa e sua potencialidade humana ao contexto histórico e social do que é permitido e proibido dizer e/ou fazer.

O riso provocado pelo palhaço é um canal por onde fluem a embriaguez, o caos e a desordem, tão necessárias para nosso equilíbrio bio-psico-social. Por isso ele é considerado devoto de Dionísio, o deus da imaginação expansiva, do entusiasmo primordial e da ruptura com as convenções sociais. Poderíamos compará-lo também ao Exu da mitologia africana. Observemos a descrição sobre o orixá feita por Pierre Verger[2]:

Exu é um orixá ou um ebora de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente (…). Exu revela-se, talvez, o mais humano dos orixás, nem completamente mau, nem completamente bom.”

Impossível não relacionarmos a figura do palhaço ao arquétipo de Exu. Para ambos, as suas maiores qualidades são os seus defeitos. A incoerência do palhaço desestabiliza nossas certezas. Ficamos sem chão. Por onde ele anda, leva junto o picadeiro, que é seu universo simbólico, a sua egregore, que prepara o terreno para instauração do caos através da brincadeira. A máscara do palhaço é o espelho que reflete a autenticidade do ser.  A ingenuidade do palhaço não permite que ele julgue ou entenda as coisas que faz. Ele atua pela lógica da compreensão e não da explicação. Ele é fluxo contínuo no tempo e no espaço, é entrega constante ao que está posto. É nesse jogo de entrega e abertura ao instante que acontece a subversão do sistema do mundo. A inadequação do palhaço é total, pois ele não se encaixa ao ritmo da sociedade. Não é possível questionar as normas estando apartado delas. O palhaço está sempre aberto ao porvir e seus atos não se enquadram em reflexões sociológicas. A tarefa primordial do palhaço é fazer do ser humano aquilo que ele é, e não fazer do mundo aquilo que ele gostaria que fosse. A lógica do palhaço, portanto, corresponde a uma ordem interna. Algo que soa um tanto incompreensível para quem busca lá fora, na consciência exterior, as razões para fugir, inutilmente, de si e da inevitabilidade do seu próprio fracasso.

[1] A esse respeito, ver o filme Tarja Branca: a revolução que faltava (2014), dirigido por Cacau Rhoden.

[2] VERGER. Orixás: deuses iorubas na África e no Novo Mundo. 6ªed. Salvador: Corrupio, 2002, p. 76.

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Tambor, Canção e Poesia, com Mimmo Ferreira e Richard Serraria

Por Lisandro Moura e Matheus Leite*

E o tambor bate para não se deixar esquecer

(O Grande Tambor)

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique), Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)  Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique),
Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)
Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

              No início do documentário O Grande Tambor, realizado pelo Coletivo Catarse, vemos a seguinte mensagem: “Elo de ancestralidade com a Mãe África, ritual de permanência, objeto de eternidade: o sopapo, enquanto instrumento profano, exige apenas mãos para ser tocado. Enquanto instrumento sagrado, exige apenas devoção das mesmas mãos que faziam a carne de sal e que ainda hoje fazem o carnaval.”

            O filme reúne diversos artistas, mestres da cultura ancestral e pesquisadores dos ritmos afro-gaúchos, e nos convida a um passeio pela memória do povo sul-rio-grandense através das raízes do tambor de sopapo. Memória essa que foi invisibilizada tanto pela mentalidade colonialista como pela cultura tradicionalista do gaúcho canônico, que fizeram do homem e da mulher negra personagens secundários na formação identitária do estado. Visto pela ótima descolonizada, o tambor é um instrumento musical que agrega em si um misto de sagrado e profano, uma confluência entre trabalho e devoção.

             Atualmente, é possível ter acesso a uma história diferente do nosso território, devido ao legado deixado por Mestre Giba-Giba e Mestre Baptista, e aos trabalhos de difusão realizados por Mestre Chico, Mestre Paraquedas, Dona Sirlei e tantos outros Griôs presentes no sul do Brasil. Grande parte desses profetas das sonoridades negras e mensageiros da oralidade africana reside nas cidades de Pelotas e Porto Alegre. Preciosidades que estão tão próximas de Bagé e ainda assim tão pouco conhecidas entre nós.

           Entretanto, é possível observar o resgate da cultura negra em projetos realizados por Richard Serraria e Mimmo Ferreira, que nesta semana estarão em Bagé para apresentar a arte e a poesia dos ritmos afro-brasileiros num projeto integrado, denominado Tambor, Canção e Poesia. Os músicos compreenderam o significado sagrado da batida do tambor, atenderam ao chamado dos antigos e tomaram para si a missão de dar novos significados à música popular cantada pelos povos de terreiros, misturando ritmos como ijexás e toques de batuque com milongas e samba rocks. Uma mistura de elementos que vai da tradição à contemporaneidade, dando um tom mais universal à música afro-brasileira.

            Os músicos estarão na cidade nos dias 19 e 20 de agosto, realizando oficinas de percussão para alunos do curso de Música da Unipampa, palestras musicadas para professores da rede municipal, estadual e federal e um show de encerramento na Sociedade Uruguaia. Uma oportunidade única de revivermos a história do Rio Grande do Sul através de ritmos batucados, canções e composições próprias dos artistas. Temos diante de nós, portanto, uma chance de repensarmos os caminhos da mitologia gaúcha na cidade, reconhecendo os saberes, fazeres e crenças da população negra como chave para a compreensão da nossa origem mais profunda.

         Mais do que a apresentação musical, o evento propõe fomentar espaços de reflexão e formação a partir da educação musical. Por isso é de extrema importância que os estudantes de música da Unipampa e professores comprometidos com a educação intercultural estejam presentes e se sintam partícipes dessa nova história. Pensar e praticar a música nas universidades e nas escolas da educação básica é, sobretudo, lançar olhar sobre os diferentes códigos culturais do nosso país, os múltiplos “brasis”.  É também pensar a diversidade musical brasileira com seus diferentes significados, usos e funções estabelecidos pelo grande código de cada sociedade – as culturas.

            A música, por estar conectada à etnicidade, ideologia, religião, sexualidade, pode aumentar nossa compreensão do mundo. Ela pode ajudar a compreender quem somos e, assim, nos comunicar com os outros. Em tempos de mundialização da cultura, as fronteiras territoriais e cognitivas já não são mais limitadoras quando pensamos em diversidade cultural. Os signos constituídos musicalmente pelos indivíduos, nos diversos contextos, muitas vezes intermediados pelas novas tecnologias, deflagram este fenômeno global. A cultura encontra-se em trânsito permanente nesta trama de sentidos presentes no cotidiano de diversas sociedades. Daí a importância da educação musical como espaço de abertura à diversidade das expressões culturais, como espaço de revalorização das comunidades locais e dos grupos étnicos, levando sempre em conta o papel determinante do indivíduo e de suas necessidades.

            Os artistas convidados virão acompanhados dos grandes personagens desta nova história: o Tambor de Sopapo, com seu grave inconfundível; e o trio percussivo do candombe, os tambores piano, repique e chico, de origem afro-uruguaia. A musicalidade que ressoa desses instrumentos atualiza o tempo primordial que nos remete à forma de organização de comunidades que foram escravizadas. Por isso, serve como exemplo de resistência eficaz contra a colonização do espírito. Costuma-se dizer que o toque grave dos tambores, além de reproduzir metaforicamente a batida do coração, tem poder de evocar os deuses iorubas e bantos. Que este evento, realizado pelo Ponto de Cultura Pampa Sem Fronteiras em parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB e Junipampa), Smed e tantos outros parceiros, seja um convite ao transe coletivo entoado pelos tambores. Que a cidade de Bagé, tão hesitante em reconhecer o papel decisivo da cultura negra, desde a charqueada de Santa Thereza até os dias atuais, se mantenha povoada por deuses africanos que renovam cotidianamente as nossas motivações. Que nossos ouvidos atendam ao chamado e compreendam o recado dos tambores. E que sejamos todos um poema de Oliveira Silveira:

“Que o chocalho

Baralhe

meus olhos,

adjá

badale

meus tímpanos,

meu corpo rode rode,

contas arrodeiem,

agê me agite a alma

e esse batuque

dos atabaques

vá me deixando tatibitate.”

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A lição do fracasso no cinema dionisíaco de Woody Allen

Por Lisandro Moura*

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Woody Allen resume a vida numa piada antiga: “Duas mulheres mais velhas estão num resort nas montanhas e uma delas diz: ‘Nossa, a comida nesse lugar é terrível’. A outra diz: ‘É! Você sabe… e em porções tão pequenas!’”.

O recado foi dado no filme Annie Hall (1977), traduzido para o português como Noivo neurótico, noiva nervosa. A atitude é típica de quem assume o humor como ponto de vista sobre o mundo. Através da piada, do afeto às avessas, do jogo das relações, das máscaras e da obsessão paranoica o diretor desvenda o mundo das aparências e se põe em contato com seus próprios fracassos, que também são os nossos.

O autoconhecimento nunca foi caminho fácil. É preciso um pouco de humor. No papel de Alvy Singer, Woody Allen se utiliza das estratégias do riso para fazer falar os dramas mais profundos do ser humano, aqueles que todos queremos esquecer.  Assim, o diretor/personagem torna o caminho da autoanálise um processo menos doloroso, fazendo dele um percurso iniciático repleto de descobertas, confrontos e aceitação. Ser aquilo que se é, eis a mágica de Dionísio, tão necessária para os dias de hoje.

Bem, isso é essencialmente o que eu penso da vida. Cheia de solidão e miséria e sofrimento e infelicidade, e ainda assim tudo acaba depressa demais.” A aceitação trágica é um pessimismo aparente, pois em realidade, o que o personagem quer nos passar é que há uma espécie de vantagem em ser infeliz, uma expressão do amor fati (Nietzsche), amor ao destino e, sobretudo, amor ao acontecimento: “Devemos estar muito gratos por sermos infeliz”, diz Alvy, o protagonista. Mesmo que a vida seja horrível, nada supera o fato de não querermos vivê-la. Temos esse exemplo na cena da infância de Alvy, no diálogo com a mãe sobre o fim do mundo. Quando o menino demonstra preocupação com uma inevitável catástrofe, o médico aconselha: “temos que tentar nos divertir enquanto estamos aqui.”

A arte suprema deste filme é a lição trágica de dizer sim à vida a pesar das ambivalências e obstáculos do caminho. Aceitar e não sofrer. Ou simplesmente aceitar, sofrer e curtir a dor, extrair dela uma dose embriagante de humor. Confrontar-se consigo mesmo e fazer piada do próprio fracasso.

O sentido do filme Annie Hall, ou seja, o aspecto trágico da existência e as relações da personagem com o mito dionisíaco, só é possível de se compreender pela forma cinematográfica entendida como linguagem artística, apesar do tom intelectual dos trabalhos do Woody Allen. O conteúdo do filme faz referências a questões diversas da tradição do pensamento filosófico, psicanalítico e da comunicação. A cena dividida com McLuhan é um artifício inteligente e muito raro no universo do cinema, e da o que pensar ainda hoje, 38 anos depois do lançamento de Annie Hall.

Cena com Marshall McLuhan

Cena com Marshall McLuhan

Porque é na forma, mais do que no conteúdo, que o diretor tentar expor sua lição. Somente a partir da forma/linguagem é que o sujeito receptor toma consciência do conteúdo transmitido pela arte. O personagem controverso, protagonizado por Allen, ganha vida pela maneira nada convencional de narrar os acontecimentos existenciais. A arte do diretor, nesse caso, é capaz de transformar o absurdo da vida, a ilusão da existência, em uma estética da fabulação. O diretor parece não se situar no domínio seguro que dissocia o real da fantasia, pois a todo o momento o espectador se depara com uma quebra da narrativa ficcional, quando o personagem assume seu papel de diretor (Alvy assumindo o papel de Woody Allen) e olha para o espectador atrás da tela, como quem busca situar-se no lugar do público para fazer uma intepretação da interpretação dos fatos. O imaginário, nesse caso, opera como fomentador de um processo criativo e hiperativo que abala as expectativas seguras e conformadas do espectador acostumado com a separação entre realidade e ficção.

Da mesma maneira, o passado e o presente se entrecruzam frequentemente ao longo do filme, dando vazão e fluidez ao instante vivido. Os traumas da infância são literalmente assumidos na vida adulta, fazendo com que o personagem adulto volte ao passado para intervir nos acontecimentos da infância. A memória é sempre formulada a partir de um ponto de vista do presente, quando o próprio diretor se coloca na posição da criança, justificando, assim, os comportamentos excêntricos de uma personalidade impulsiva e nervosa: “Só estava exprimindo uma curiosidade sexual saudável!”, diz o adulto Alvy, ao justificar para a professora o beijo dado na colega de classe, aos seis anos de idade.

São essas características que fazem do deus Dionísio o mito fundador do cinema de Woody Allen em Annie Hall. Isso porque cada existência humana, cada história humana, cada obra humana, carrega traços e gestos paradigmáticos de divindades míticas, mesmo que já tenhamos passado por um intenso processo de racionalização em termos civilizatórios. Com o cinema não é diferente, pois – por se tratar de uma narrativa simbólica – seu conteúdo fala mais ao domínio do imaginário do que ao domínio dos fatos. Revela mais a verdade de uma imagem mítica do que a imagem da verdade. Queiramos ou não, o mito continua sendo uma realidade humana antropológica e fundadora de estéticas existenciais, personalidades e identidades sociais.

A perspectiva de Woody Allen aponta na direção dessa hipótese. Apesar de o diretor se utilizar de artifícios técnicos e racionais (apolíneos) na elaboração do conteúdo e do argumento fílmico, há nas entrelinhas da linguagem a insistência metafórica dos arquétipos dionisíacos tencionando a trama e dando um sentido simbólico à obra como um todo. Dionísio é o deus da embriaguez, da imaginação expansiva, do entusiasmo primordial e da ruptura com a norma social. Através da arte de Woody Allen, ele se faz presente, como evocação, para embaralhar nossas certezas e revelar o lado trágico do humano, a aceitação do fracasso interior e exterior como uma grande e divertida piada.

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*Texto publicado originalmente no Junipampa

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Diálogos culturais na cidade

por Lisandro Moura

            Desde que iniciamos as atividades dos “Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação”, no âmbito do projeto de extensão do Laboratório de Produção Textual – LAB/Unipampa (PROEXT-MEC), coordenado pela profª. Clara Dornelles, viemos trabalhando para reafirmar a importância formativa da diversidade cultural e do trabalho coletivo na produção de conteúdo para o Jornal Universitário do Pampa – o Junipampa. Alunos, bolsistas e colaboradores internos e externos atuam em várias frentes para espalhar o propósito original do Jornal, que é a escrita colaborativa em ambiente virtual. De março até o momento, já realizamos oficinas, minicursos e palestras sobre diversos temas: jornalismo literário, fotografia, audiovisual, estéticas e culturas contemporâneas, saída de campo à aldeia indígena, midialivrismo e cultura colaborativa. Até o final do ano, outros projetos já estão previstos, dentre eles a possível vinda de Richard Serraria, numa parceria com o Ponto de Cultura “Pampa sem Fronteiras”. Todos esses eventos e temas convergem para o propósito comum de aliar a escrita experimental aos contextos culturais da sua produção. O objetivo, portanto, é criar na cidade espaços para a socialização de experiências na arte e na cultura, que dialoguem com a comunicação e a educação e contemplem os diferentes grupos culturais da cidade.

            Quando aceitei o convite da professora Clara para coordenar as ações dos “Diálogos”, junto com a amiga Mariane Rocha, aluna bolsista da Unipampa, estava ciente de que o desafio seria grande, uma vez que o cenário cultural em Bagé se caracteriza por uma dinâmica ainda bastante competitiva, com grupos sociais que não têm o costume de costurar ações em conjunto, mesmo trabalhando com temas afins. Como é possível que uma cidade tão positivamente provinciana, cujas relações interpessoais são tão próximas, produza ações tão esparsas e desconectadas? Costuma-se dizer que, em Bagé, as pessoas sabem da vida de todo mundo. O estranho é que, quando algum evento cultural acontece, pouca gente comparece, pouca gente fica sabendo, o que da a entender que cada grupo está atuando separadamente, sem buscar conexões e parcerias. A comunicação pessoal funciona para algumas coisas e para outras não. Cito como exemplo o Atelier Coletivo, um espaço cultural de shows que há oito anos funciona como resistência e contraponto ao monopólio das festas consagradas da cidade. Mas agora, infelizmente, fechará suas portas para a nossa indiferença, a indiferença dos bageenses. O Atelier Coletivo era o lugar por onde passava a vanguarda dos movimentos musicais do Brasil, Uruguai e Argentina. Músicos que costumam lotar auditórios, anfiteatros e parques públicos por onde passam, eram recebidos em Bagé, no Atelier, por cinco ou dez pessoas no máximo!  Há algo de estranho na rainha da fronteira.

            Soma-se a isso o fato de que o espaço da produção artística e cultural local parece estar reservado a algumas poucas pessoas que se autodenominam “especialistas”. São pessoas que têm aversão a tudo o que vem de fora e, mesmo assim, são autorizadas, tanto pelo clã ao qual pertencem quanto pelas mídias locais que as legitimam, para falar em nome da arte com propriedade duvidosa, muitas vezes herdada do passado saudosista, do peso do sobrenome e do grau das relações de compadrio. Ou então, aqueles que se utilizam da instituição a qual pertencem para fazer contraponto às outras, deixando transparecer uma mentalidade cartesiana e competitiva, que separa a cidade por grupos de interesses institucionais excludentes, como se as instituições devessem se preocupar mais com disputas de mercado e de público do que com os benefícios sociais, educacionais, políticos e econômicos para a população local.

            Por outro lado, mesmo que o cenário não seja tão favorável para a integração cultural, o desafio de atuar junto à equipe do LAB é estimulante para quem quer estar numa cidade minimamente habitável, em que o tédio costumeiro ceda lugar ao prazer de viver. A sabedoria trágica de Nietzsche nos serve de exemplo: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. Tenho a impressão de que Bagé sempre foi mais criticada do que realmente vivida. Apesar de todas as objeções que se possa fazer, “o melhor lugar para viver é aqui e agora”, como defendem os nowtópicos. Nossa aldeia é maior que a grande cidade. E já que aqui vivemos, o melhor a fazer não é fugir pra outro lugar, como muitos gostariam de fazer, mas sim reinventar o espaço a partir dos desejos e sonhos da população. O que é bem diferente de pensar a cidade unicamente voltada para os negócios empresariais e econômicos que geram competição, destruição do patrimônio e conflitos de poder.

            Ao contrário da postura individualista, apostamos em um diálogo efetivo com setores, instituições e agentes culturais, sabendo que quanto mais diversificado é o contexto da produção cultural, mais ricas serão as ações e mais eficazes os impactos sociais. Porque, por mais que tenhamos como objetivo ofertar oficinas, cursos e palestras para e com a comunidade, a nossa preocupação mesmo é com os processos, com os contextos formativos de cada atividade, e não tanto com os seus resultados. O nosso interesse, nos Diálogos, é criar novas dinâmicas para o fazer cultural na cidade, em que a parceria, a cocriação e a partilha dos resultados tenham mais importância do que as disputas hierárquicas e conflitos de egos.

            Há muita gente disposta a isso, sem dúvida. Tem surgido na cidade, nos últimos anos, desde a vinda de instituições educacionais que renovaram as formas de sociabilidade na cidade, novas organizações não convencionais engajadas em iniciativas locais que preconizam o “faça você mesmo”. Inteligentemente não esperam pelo calendário cultural oficial do poder público e, assim, congregam segmentos “refugiados” da normalidade institucional. Grupos de dança na periferia, skatistas, rappers, funkeiros, oficineiros, cineastas experimentais, fotógrafos amadores, hackers, ciclistas, pontos de cultura, coletivo feminista Atena, coletivo contra o aumento da passagem (Roletaço), grupos políticos e culturais como o Levante Popular da Juventude, o Juntos!, empreendimentos solidários, agricultura orgânica sustentável, hortas urbanas, músicos de garagem, atores de fundo de quintal, batuqueiros, gaiteiros, ayahuasqueiros, festivais de cinema, de música, de teatro e de dança, jornalistas que criam projetos para além de seus empregos formais, mídias independentes e colaborativas, web jornais, rádio web, projetos solidários práticos etc.

            As experiências são infinitas e estão muito longe de serem mapeadas por completo. O que falta é uma articulação em rede, por afinidades de projetos e sonhos em comum. No momento, o importante é que esses grupos estão, cada um a seu modo, pensando a cultura na sua dimensão simbólica e comunitária, para além de megaeventos empresariais de entretenimento, como as festas e shows com camarotes vip segregacionistas. A cultura tem papel central na produção de subjetividades e na geração de novas formas de viver a urbe. É a matéria-prima da sociedade que valoriza o conhecimento como instância instauradora de múltiplos sentidos para nossa existência, aqui e agora.

Fonte: Publicado originalmente em Junipampa

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Rincão do Inferno, uma terra mítica

 

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Rincão do Inferno, uma terra mítica

Por Lisandro Moura

Publicado originalmente na revista O Viés

A região do Rincão do Inferno constitui-se como um dos quatro núcleos populacionais do Quilombo de Palmas, junto com Rincão dos Alves, Campo do Ourique e Rincão da Pedreira. O território foi reconhecido como região quilombola a partir do laudo sócio-histórico e antropológico realizado por pesquisadores(as) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Localiza-se na microrregião de Palmas, distrito de Bagé, quase divisa com Caçapava do Sul, Lavras do Sul e Santana da Boa Vista. Ao todo, segundo Janaina Lobo e Bertussi (2010, p.207), cerca de quarenta famílias residem no Quilombo de Palmas, “fortemente articuladas através de relações de parentesco e pela manutenção secular de trocas simbólicas, desde o período pós-abolição”.

Dentre essas famílias, somente uma vive no núcleo Rincão do Inferno: Dona Onélia, Seu Alcíbio e Seu Nidinho, que passam os dias e noites acompanhadas do porco de estimação chamado Baby, dos cachorros Alambique, Vigilante, Urso e Miúcha, dentre outros animais. Uma grande e bela família.

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O Rincão do Inferno é, hoje, considerado um lugar de forte potencial turístico para a população gaúcha e motivo de muitas reportagens originadas de relatos admirados de viajantes aventureiros que adentram aos mistérios e à beleza da paisagem intocada. O Rincão é um paraíso disfarçado de inferno.

Mas a tradição do lugar nos ensina que, aquele que está disposto a se aventurar nas terras quilombolas do Rincão, precisa manter uma postura de peregrino. A peregrinação representa a ideia de que é preciso caminhar para ver/conhecer. O peregrino faz do seu próprio caminho o objeto principal da viagem. O turista também caminha, mas algumas vezes superficialmente. O psicólogo Yves de La Taille (2009) caracteriza muito bem esses dois tipos de viajantes. Segundo ele, o turista viaja por recreação, e seu tempo de viagem é um tempo programado. Não costuma dar atenção aos detalhes, aos objetos, e tampouco se importa com a história, as condições sociais, naturais e culturais do local. Assim, limita sua viagem ao prazer e conforto dos espaços de consumo já destinados a ele. Já o peregrino é diferente: viaja porque quer buscar alguma coisa, uma identidade ou uma experiência de vida.

Viver a experiência e participar do cotidiano simples dos moradores do Rincão é também uma forma de conhecer e aprender. A vivência no Rincão nos ensina a partilha da vida, do alimento, das histórias que se transformam em sabedoria popular. A convivência com a natureza e com os animais transforma-se numa mística, marcada pelo acento ritualístico, presente praticamente em todo o cotidiano dos moradores. Os rituais promovem uma espécie de retorno ao tempo da unicidade primordial, quando os humanos e a natureza viviam em constante comunicação e interação.

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Dentre as situações presentes no Rincão, os causos ocupam um papel importante, como os da cobra papa-pinto, o do lobisomem, o do tesouro enterrado, a história das bordolezas… Dentre essas, certamente a da cobra papa-pinto é a que causa mais espanto nos visitantes peregrinos. Certa época, quando amamentava uma de suas filhas, Onélia tinha o costume de pegar no sono. Acontecia que vinha sempre uma cobra sugar o leite do seu peito, colocando o rabo na boca da criança, sem que Onélia percebesse. Certo dia, Alcíbio viu a cena e deu uma “machadada” no meio da serpente, que jorrou leite para todo lado (!).

Não se pode compreender adequadamente a sociabilidade de um determinado espaço sem estas situações imperceptíveis, aparentemente triviais, que compõem o imaginário do Rincão. Pois é a relação dos moradores com o lugar, relação entre natureza e cultura, que da solidez à formação comunitária e que serve de base para a sobrevivência. A espacialidade quilombola é o elemento importante na constituição da comunidade, pois oferece as condições necessárias para a reprodução do modo de vida do homem e da mulher da tradição.

Além dos causos, provavelmente os visitantes ouvirão também o som das cordas do violão, tocadas com maestria por Alcíbio. Porque o Rincão soa como música, soa com a música. As cordas sonoras evocam imagens-lembranças de um passado arcaico, ainda presente nas nossas representações. O timbre da viola é agudo e forte, as cordas parecem distorcer o som, dão o aspecto chiado como se estivéssemos ouvindo o rádio ao longe, o antigo rádio. Traz-nos lembranças da vida no campo, a vida que nunca vivemos, mas desejamos viver. Alcíbio não se cansa de dizer aos visitantes: “eu aprendi a tocar violão ouvindo radinho de pilha. Meu sonho era ter um rádio de tomada pra poder tirar as músicas do rádio.” Depois da chegada da luz elétrica, em 2006, finalmente ele virou um cantor de amplo repertório.

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As histórias de vida contadas por Alcíbio, Nidinho e Onélia revelam um ambiente complexo e ambíguo, onde há lugar tanto para os problemas de estrutura local (por exemplo, a distância em relação à cidade, a dificuldade de atendimento médico em caso de urgência, estrada precária etc.) quanto para questões afetivas, de solidariedade, bastante presentes na personalidade e no modo de vida dessa pequena população.

Os moradores demonstram uma inegável riqueza existencial, uma bondade extrema difícil de ver em qualquer lugar. Bondade essa que, paradoxalmente, convive com as adversidades da vida. Porque a vida não é fácil para os moradores do Rincão. Mas, estranhamente, o que chama a atenção nas nossas visitas e nos relatos de viajantes, é que da precariedade das condições materiais pode surgir os grandes ensinamentos sobre o amor, a alegria e a compaixão. Todos que lá estiveram sabem muito bem disso.

É justamente esse imaginário afetivo e solidamente arraigado que assegura a prosperidade coletiva das terras no Quilombo de Palmas. A demarcação do território, para os quilombolas, vai muito além daquela legitimada pela institucionalidade do Estado, e transcende as áreas reconhecidas formalmente como “propriedade privada”. Pois trata-se de uma “terra mítica”, um lugar espiritualmente relevante que remete à memória dos antepassados. O reconhecimento vem da experiência vivida num passado mítico que perdura através dos costumes ancestrais e da tradição oral. São, portanto, códigos cosmológicos distintos da razão econômica ou de Estado. Algo que os depositários da fé desenvolvimentista e mercantil não podem compreender e nem aceitar.

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No Rincão estão presentes todos os elementos fundamentais da natureza: ar, água, terra e fogo. O Rio Camaquã traz repouso, fluidez e bem-estar para todos os que contemplam seu espelho. O fogo de chão está sempre acesso, à espera de um bom papo e de um assado. E o vento que balança as árvores traz lembranças dos que se foram. Mas talvez o Rincão seja mais bem simbolizado pelo elemento terra, por seu caráter de resistência. A terra-território assegura um povo no seu lugar de origem e de destino. O apego à terra é típico da cultura do gaúcho, já estudado e constatado por Barbosa Lessa (2008). O solo do Rincão é duro, forte, rochoso. A terra é resistente, assim também como as pessoas que nela vivem. É ela que liga o ser ao mundo, que nos enraíza e nos convida a viver o mundo na sua intimidade. Acompanhar os moradores do Rincão nas suas tarefas diárias, por exemplo, é um convite ao enraizamento à terra.

Portanto, o Quilombo enquanto terra-território é arquétipo dos refúgios coletivos. É no Quilombo que as pessoas encontram a familiaridade afetiva, o repouso, a tradição e a amizade que tornam a vida admissível, apesar das adversidades. É a reapresentação figurativa da resistência negra, símbolo do anseio pela liberdade. Os sonhos de liberdade ainda são frequentes no Rincão do Inferno, seja na mata, na casa, no rio, no canto do galo ou no voo dos sabiás… O Rincão é a dialética do inferno e do paraíso. Nele, o passado ecoa através da paisagem natural. Para perceber isso, há que ser peregrino.

Referências

LESSA, Barbosa. Nativismo, um fenômeno social gaúcho. 2ª. ed. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 2008.

LOBO, Janaína; BERTUSSI, Mayra. O Legal e o Local: relações de poder, conflitos e a titulação da terra na comunidade quilombola de Palmas/Bagé RS. Caderno de Debates Nova Cartografia Social – Territórios quilombolas e Conflitos, 2010.

LA TAILLE, Yves de. Formação ética: do tédio ao respeito de si. Porto Alegre: Artmed, 2009.

 

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Estamos “comendo” a FIFA

por Lisandro Moura

 Publicado originalmente em Outras Palavras, em 11 de junho de 2014

Publicado em Instituto Humanitas Unisinos, em 12 de junho de 2014

Antropofagia, por Túlio Tavares

Antropofagia, por Túlio Tavares

“O Brasil não é para principiantes”. Essa frase, atribuída a Antonio Carlos Jobim, corresponde a uma advertência para quem coloca em questão o Brasil de hoje e de ontem e de sempre. Em tempos de Copa do Mundo, nosso país está mais do que nunca sintonizado com sua verdadeira vocação antropofágica, tão bem descrita no manifesto oswaldiano: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”[1]. Temos aversão a todo tipo de ordenação, de disciplina, de racionalização que caracterizam o pensamento burocrático impessoal e as economias de todo o tipo. Somos atrapalhados e nos metemos em grandes confusões. Na verdade, essa é a nossa maior riqueza. É que não somos afeitos à domesticação. Nem a FIFA, nem o mercado, nem o Estado e nem ninguém conseguem amansar esse povo complexo e controverso. A FIFA já constatou: o Brasil é o pior país para se trabalhar a sério na organização do Mundial. Não há elogio mais gratificante do que esse. Estamos com as obras atrasadas. Pois que atrasem! Somos originais. Vangloriamo-nos da dor de cabeça que causamos ao inimigo externo. Sairão daqui com o desejo de nunca mais retornar. Mas os traremos de volta, daqui uns anos mais, para causar-lhes uma dor de cabeça renovada.

Aqui no Brasil, nós devoramos o inimigo pela adesão a ele. Uma adesão relativa, é certo, e avessa aos compromissos de filiação. Aceitamos a Copa para mostrar ao mundo quem somos e o que desejamos ou não desejamos. Para mostrar que o país do futuro se constrói na incerteza do presente. Na aceitação do presente como um devir. Aceitamos a Copa para combatê-la através do que ela nos proporciona de melhor: o futebol. Ah, o futebol… O combate acontece na forma de entrega nada maniqueísta. Vai ter Copa e não vai ter. Vai ter jogo e protesto, farras e vaias, sangue e gols e punhos cerrados. O corpo inteiro como experiência coletiva. Abrimos as portas de casa para o mercado financeiro, para a especulação imobiliária, para a violência internacional, violência policial. Dormimos abraçados com o inimigo. E acordamos em festa. No entanto, mal sabem os analistas principiantes que, durante a noite, nós é que “comemos” o inimigo. Assimilamos seus valores e os transformamos de acordo com uma lógica interna, própria do espírito carnavalesco. Tal como nas palavras de Haroldo de Campos sobre o sentido do Brasil canibal: “assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais iniludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar por sua vez, num confronto internacional, como produto de exportação.”[2]

Esse é o alicerce da nossa nacionalidade. A verdade subtropical do pensamento selvagem, o pensamento da fundação da nova civilização planetária. Homo Novus Bresilensis. Eis a virtude do jeitinho brasileiro e do “homem cordial” como produto de exportação. Porque essa é nossa herança mais profunda, nossa ontologia cultural brasileira. Boicotamos o Estado antes que ele boicote nossa espontaneidade. Driblamos os governos e o mercado e apresentamos ao mundo uma nova Copa do Mundo, onde a bola dividirá o campo com os protestos. Usamos a Copa para revelar ao mundo as mazelas do mundo. Nossa luta é contra as instâncias referendadas pelo Estado e pelo mercado, que tentam controlar as efervescências e organizá-las de acordo com a lógica normativa do poder. O poder que vem de cima e que é avesso ao húmus, aos que vivem no chão. Nossa filosofia é chã, como a do Manoel de Barros. Nossa tática é irracional, é anti-tática. O fim da política como estratégia de guerra. A refundação da política como experiência interna, regada à festa. A ordem primitiva. A vitória de Dionísio sobre Apolo. A derrota da ciência pela astúcia do mito. A superioridade da magia frente à desencantada religião. Não seria isso o verdadeiro “ateísmo com Deus” do manifesto antropofágico?

De fato, não há compatibilidade entre o nosso turbante de bananas e a gravata engomada dos executivos da Copa. Aqui a periferia (aqueles do chão) impera antes, durante e depois do carnaval. É ela quem civiliza. Essa é a nossa virtude. Por isso, a tradicional fórmula “colonizadores versus colonizados”, com a superioridade dos primeiros, não se encaixa no nosso perfil. Nossa fórmula é tupi: a anti-fórmula. Somos potência econômica. Mas o que temos com isso? Não partilhamos a riqueza. Dominamos pelo imaginário, esse sim bem distribuído e cada vez mais real e potente.

Não basta a FIFA ter o poder do capital para financiar o espetáculo artificialmente midiatizado e ordenar a cidade de acordo com interesses financeiros. Aqui nos trópicos, capital não é suficiente. Tem que ter jogo de cintura, saber sambar e rebolar na boquinha da garrafa. Caso contrário, damos de 10 a 0 com direito a drible à la Garrincha, balãozinho e bola por entre as canelas. Não basta ter poder, tem que ter espírito. Isso nós temos de sobra. Com o espírito do Exu tranca-copa, o espírito do povo das ruas, dos bêbados e equilibristas, dos palhaços de circo, dos bufões de esquina, dos mascarados, dos craques da várzea… nós vamos, aos poucos, “comendo” a FIFA.

Estamos na véspera da Copa que não vai acontecer. Cabe aqui uma última advertência a todos os que pensam poder colocar o Brasil em xeque. A advertência já foi dada por Hélio Oiticica, o herói marginal, mas poderia ter saído de qualquer outro anti-herói Macunaíma, ou seja, de qualquer um de nós: “quem ousará enfrentar o surrealismo brasileiro?”[3]

[1] ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago. In: A Utopia Antropofágica. Obras Completas de Oswald de Andrade. São Paulo: Globo 1990.

[2] Citado por VELOSO, Caetano. Antropofagia. São Paulo: Penguin Classics / Companhia das Letras, 2012, p. 54.

[3] OITICICA, Hélio. Brasil Diarréia (1973). In: In DERCON, Chris et all (org). Hélio Oiticica (catálogo). Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1998.

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Nós, ruínas. Vós, terra.

Tava Miri - espiritualizada aldeia de pedra

Tava Miri – espiritualizada aldeia de pedra. Foto: Lisandro Moura

Lisandro Moura

Nos dias 18 e 19 de abril de 2013, os alunos do IFSul Campus Bagé visitaram a Aldeia Alvorecer (Tekoá Koenju) e o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, denominado pelos Mbyá Guarani de Tava Miri (Espiritualizada Aldeia de Pedra). A atividade foi coordenada por mim, prof Lisandro Moura, e pela professora Laura Ferrazza, e constitui-se como momento fundamental do Plano Curricular das disciplinas de Sociologia e História para os alunos(as) do 2º semestre dos cursos de Informática e Agropecuária. Para esta etapa, os alunos estudam noções de cultura e diversidade cultural brasileira, tendo como um dos enfoques a cultura ameríndia no Brasil e, especificamente, no Rio Grande do Sul. Em sala de aula, foram abordados assuntos e conceitos importantes para a formação dos jovens no que diz respeito à predisposição para o diálogo intercultural com os povos nativos: etnocentrismo, relativismo cultural, multiculturalismo, mitologia e cosmovisão indígenas, além do estudo sobre a história dos povos missioneiros. Sendo assim, as saídas de campo à Aldeia Koenju e à Tava Miri são oportunidades únicas de vivenciarmos na prática a história das Reduções Jesuíticas, bem como conhecer de perto o modo de vida das comunidades indígenas, da etnia Mbyá Guarani, cuja história está profundamente vinculada à formação do estado do Rio Grande do Sul.

Esta é a segunda viagem a São Miguel das Missões realizada pelo Campus Bagé, e a nossa intenção é que ela aconteça uma vez ao ano, como ação integrada ao NEABI (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do IFSul Campus Bagé). A justificativa diz respeito a necessidade, cada vez maior, de se fazer cumprir a Lei nº 11.645, de 2008, que alterou o Art. 26A da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira) para estabelecer a obrigatoriedade da inserção da temática da história e cultura dos povos indígenas nos currículos oficiais das redes de ensino públicas e privadas. Deste modo, é papel das Ciências Humanas e áreas afins desconstruir a predominância da visão eurocêntrica e etnocêntrica sobre os povos nativos do sul do Brasil, produtora de preconceitos e discriminações, e trabalhar, assim, a cultura ameríndia na sua complexidade, valorizando a sabedoria popular destes povos e sua importância para a autoformação humana e para a formação da identidade cultural nacional.

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju. Foto: Millena Rodriguez

Mais do que um simples projeto curricular, a viagem foi uma forma de participarmos do drama antigo (e sempre atual) que destruiu toda uma civilização inspirada na justiça, na solidariedade e na vida comunitária. Fomos em busca da Terra sem Mal (Yvy Mara ey), da reconexão com a nossa ancestralidade indígena. Fomos invocar a sabedoria daqueles homens, mulheres e crianças que continuam a pelear em nome da liberdade. Nos juntamos a eles e sentamos à beira do Rio Inhacapetum, bebemos a água da fonte missioneira e pisamos o chão daqueles que nos ensinam a amar e a conviver com a natureza.  A Tekoá, lugar por excelência do viver guarani, não é somente espaço físico, mas é também um território simbólico que nos causou encantamento. O imaginário que envolve a Tekoá Koenju tem poder de influência nas pessoas que lá chegam. “Afetam” nosso estado de espírito e nos fazem ver o mundo por outro ângulo. Por isso, a permanência das populações ameríndias nos seus espaços de origem é de suma importância para a continuidade da vida, para a manutenção dos costumes tradicionais, pois trata-se de uma “terra mítica”, algo que os depositários da fé econômica e desenvolvimentista não podem compreender e nem aceitar.

Foto de Lisandro Moura

Foto: Lisandro Moura

A Tekoá vai muito além da simples tradução de “Aldeia”, pois esta se refere unicamente à noção fundiária, ou seja, áreas reservadas e demarcadas pelo Estado. Quando os juruás (não indígenas) reindicam a terra, é para transformá-la em mercadoria; já para as comunidades tradicionais, sobretudo as indígenas, reivindicar a terra é transformá-la num lugar espiritualmente relevante. A Tekoá é muito mais do que Aldeia, é o espaço da vida, o lugar que permite o modo guarani de estar no mundo.

Percebemos isso logo que chegamos em Koenju. Já pela janela do ônibus avistamos a imagem que poderia ser muito bem representada pela ideia de “paraíso”. A imagem que se formava era a da vida comunitária em harmonia com a natureza. Obviamente que a noção comunitária não está desprovida de conflitos. Dentro do território, há sub-territórios, sub-regiões não tão harmoniosas e de difícil compreensão. Mas o que ficou mesmo foi a imagem das crianças brincando descalças, sorrindo e rolando pelo chão. Em frente às casas, as famílias nos olhavam de longe, com o chimarrão em mãos e o fogo aceso no chão. A música cantada e dançada pelos(as) jovens do Coral Guarani (coordenado pelo indígena Floriano Romeu), o artesanato esculpido por mãos obreiras, as histórias contadas pela Kerexu Rete (Patricia Ferreira), cineasta indígena e professora bilíngue da Escola Estadual Indígena Igíneo Romeu Koenju, ficarão pra sempre guardadas na nossa memória como verdadeiras lições de vida.

Crianças mbyá brincando

Crianças mbyá brincando. Foto: Diovanna da Luz

Não há dúvidas: retornamos da viagem com a força daquelas pessoas e daquele chão. Agora, temos em nós a melodia arquitetônica da Tava Miri e o espírito guerreiro de Sepé Tiaraju, que sobrevive na memória dos vivos. Somos brasileiros, gaúchos, com sangue índio nas veias.

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ColetivArte Sul – Bagé

Nasce um novo movimento cultural em Bagé: o Coletivarte Sul.

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Jornal Minuano, 5 de março de 2012.

A noite do último sábado teve clima de poesia, labaredas de fogo, malabarismo, estátua humana que interagia com o público, música latina e um objetivo: espalhar na cidade o Manifesto Cultural do grupo Coletivarte Sul. A declamação poética seguida da apresentação teatral com direito a fogo e malabares, despertou a atenção do público que esperava pelo show da banda da cidade de Pelotas, “Pimenta Buena”, no espaço cultural Atelier Coletivo. O clima era de manifesto, poesia, emoção e música.

O farmacêutico Diego Soares, de 30 anos, que pela primeira vez foi no espaço Atelier achou a iniciativa muito importante para Bagé. “Cheguei para assistir o espetáculo do Pimenta Buena, e me surpreendi com o que foi apresentado.Não conhecia o grupo, achei bem trabalhado a apresentação do manifesto. Acredito que a cidade precise mesmo desse tipo de ativismo para movimentar mais o cenário da cultura local”, diz.

A decoração com cartazes, com frases apelativas ao movimento, manequins vestidos de roupas recicláveis, frases poéticas, contribuiu para incrementar o clima manifesto no cenário. O show pirotécnico esteve a cargo dos bailarinos Roger Borges e Tai Fernandes. “Ensaiamos diversas vezes o número para nos certificarmos de que o público iria sentir a emoção do manifesto através do fogo. Fogo que transmite o espírito, a expressão da vida, o amor, a paixão, a união das chamas. Assim como está a união coletiva”, conta a atriz e bailarina Tai Fernandes.

Após as apresentações teatrais e poéticas, o público pode curtir o e dançar ao som da banda.

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COLETIVARTE: O MANIFESTO

Bagé hoje é palco de diversas formas de expressão artística que se entrelaçam e dialogam. É o ambiente propício para unirmos esforços em prol do desenvolvimento de novas possibilidades. Acompanhamos acontecimentos ímpares nos últimos anos – a comemoração dos duzentos anos deste Município, o sucesso do FIMP (Festival Internacional de Música do Pampa), a terceira edição do Festival de Cinema da Fronteira, festivais de teatro, dança e música – e, a partir dessas ações inspiradoras, promovemos a criação de eventos que se comunicam entre si, inaugurando novos espaços de cultura e lazer para o grande público.

Nós do COLETIVARTE somos um grupo de cidadãos interessados em unir idéias e projetos com o objetivo de incentivar esta cena cultural através de shows, oficinas, intervenções artísticas de livre expressão, e também aprender na prática novas formas colaborativas para a criação da arte, compromissada com o “informal” cotidiano e sua potência produtiva. Utilizamos o espaço do Atelier Coletivo, consagrado por sua irreverência e experimentação, orientados à unificação de pessoas dispostas a trabalhar (n)o meio em que (con)vivemos em busca de matéria-prima para o surgimento de obras inventivas e intervenções diversas.

O nome COLETIVARTE expressa nosso objetivo por um livre coletivo entre artistas, junto aos quais as diferentes artes se comunicam de forma cooperativa e autogestionária, expandindo nossas experiências e conhecimentos de forma autêntica, espontânea e organizada. Nosso símbolo é o favo de mel porque acreditamos na força colaborativa para produzir a arte. Como abelhas nos unimos para produzir nosso néctar e nessa colméia a arte reina soberana!

O movimento pretende ser, acima de tudo, uma experiência coletiva que se abastece nas fontes da sabedoria popular e na mistura entre tradição e contemporaneidade, passado e futuro, local e global, Bagé e mundo. Primamos por tudo aquilo que diz respeito à dimensão comunitária da vida artística que leve em consideração as raízes da cultura pampeana de fronteira aliada às mais novas tendências tecnológicas da cultura brasileira e mundial. Além disso, o COLETIVARTE se expressa na “mística do estar-junto”, uma vivência que prioriza o vínculo solidário entre as pessoas, a união colaborativa, enfim, um sentimento de pertença difícil de se encontrar nas instituições sociais e políticas. Porque o COLETIVARTE é da ordem do instituinte (daquilo que nasce de baixo, que brota da terra) e não do instituído (referente ao “status quo”, ao poder, à competição e à moral). Aqui a moral cede lugar à ética-estética. A política através da poética! No lugar do poder, a imaginação!

Neste sentido, propomos o fundamento da partilha com a comunidade, da exposição de meios e técnicas para o entretenimento culturalmente consciente, abordando arte e cultura em todas as suas ramificações. O COLETIVARTE convida todos a participar, compartilhar e COLETIVAR! COLETIVE-SE!

Bagé, 03 de março de 2012.

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Caranguejos com Cérebro

Estive em São Paulo nesse feriado de páscoa e visitei a exposição sobre a memória de Chico Science, no Itaú Cultural. Reproduzo abaixo o primeiro manifesto escrito pelos músicos criadores do mais moderno movimento musical brasileiro, o Mangue Beat. É interessante refletirmos sobre a emergência deste movimento como produto das contradições sociais do processo de globalização, que surgiu com mais força no Brasil no final da década de 80, promovendo uma homogeneização da cultura. Chico Science é produto e, ao mesmo tempo, resistência a este modelo. Daí a forte combinação de elementos da cultura musical local (maracatu, especialmente) com elementos da música global (instrumentos eletrônicos, por exemplo). Segundo a socióloga Paula Tesser (Mangue Beat: húmus cultural e social), “Chico Science reconstruiu um Recife onde os caranguejos saem da lama para se integrarem socialmente através da música”. E a referência buscada por Chico está no livro de Josué de Castro “A Geografia da Fome”, especialmente o conto “Ciclo do Caranguejo”, no qual o autor busca traçar uma relação de semelhança entre os moradores do mangue do rio Capibaribe e os caranguejos, ambos recobertos de lama, famintos e não adaptados à vida na cidade.

Manifesto:

Mangue, o conceito

Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.

Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro.

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade

A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.

Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.

Obtido em http://pt.wikisource.org/wiki/Caranguejos_com_c%C3%A9rebro

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