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Tambor, Canção e Poesia, com Mimmo Ferreira e Richard Serraria

Por Lisandro Moura e Matheus Leite*

E o tambor bate para não se deixar esquecer

(O Grande Tambor)

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique), Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)  Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique),
Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)
Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

              No início do documentário O Grande Tambor, realizado pelo Coletivo Catarse, vemos a seguinte mensagem: “Elo de ancestralidade com a Mãe África, ritual de permanência, objeto de eternidade: o sopapo, enquanto instrumento profano, exige apenas mãos para ser tocado. Enquanto instrumento sagrado, exige apenas devoção das mesmas mãos que faziam a carne de sal e que ainda hoje fazem o carnaval.”

            O filme reúne diversos artistas, mestres da cultura ancestral e pesquisadores dos ritmos afro-gaúchos, e nos convida a um passeio pela memória do povo sul-rio-grandense através das raízes do tambor de sopapo. Memória essa que foi invisibilizada tanto pela mentalidade colonialista como pela cultura tradicionalista do gaúcho canônico, que fizeram do homem e da mulher negra personagens secundários na formação identitária do estado. Visto pela ótima descolonizada, o tambor é um instrumento musical que agrega em si um misto de sagrado e profano, uma confluência entre trabalho e devoção.

             Atualmente, é possível ter acesso a uma história diferente do nosso território, devido ao legado deixado por Mestre Giba-Giba e Mestre Baptista, e aos trabalhos de difusão realizados por Mestre Chico, Mestre Paraquedas, Dona Sirlei e tantos outros Griôs presentes no sul do Brasil. Grande parte desses profetas das sonoridades negras e mensageiros da oralidade africana reside nas cidades de Pelotas e Porto Alegre. Preciosidades que estão tão próximas de Bagé e ainda assim tão pouco conhecidas entre nós.

           Entretanto, é possível observar o resgate da cultura negra em projetos realizados por Richard Serraria e Mimmo Ferreira, que nesta semana estarão em Bagé para apresentar a arte e a poesia dos ritmos afro-brasileiros num projeto integrado, denominado Tambor, Canção e Poesia. Os músicos compreenderam o significado sagrado da batida do tambor, atenderam ao chamado dos antigos e tomaram para si a missão de dar novos significados à música popular cantada pelos povos de terreiros, misturando ritmos como ijexás e toques de batuque com milongas e samba rocks. Uma mistura de elementos que vai da tradição à contemporaneidade, dando um tom mais universal à música afro-brasileira.

            Os músicos estarão na cidade nos dias 19 e 20 de agosto, realizando oficinas de percussão para alunos do curso de Música da Unipampa, palestras musicadas para professores da rede municipal, estadual e federal e um show de encerramento na Sociedade Uruguaia. Uma oportunidade única de revivermos a história do Rio Grande do Sul através de ritmos batucados, canções e composições próprias dos artistas. Temos diante de nós, portanto, uma chance de repensarmos os caminhos da mitologia gaúcha na cidade, reconhecendo os saberes, fazeres e crenças da população negra como chave para a compreensão da nossa origem mais profunda.

         Mais do que a apresentação musical, o evento propõe fomentar espaços de reflexão e formação a partir da educação musical. Por isso é de extrema importância que os estudantes de música da Unipampa e professores comprometidos com a educação intercultural estejam presentes e se sintam partícipes dessa nova história. Pensar e praticar a música nas universidades e nas escolas da educação básica é, sobretudo, lançar olhar sobre os diferentes códigos culturais do nosso país, os múltiplos “brasis”.  É também pensar a diversidade musical brasileira com seus diferentes significados, usos e funções estabelecidos pelo grande código de cada sociedade – as culturas.

            A música, por estar conectada à etnicidade, ideologia, religião, sexualidade, pode aumentar nossa compreensão do mundo. Ela pode ajudar a compreender quem somos e, assim, nos comunicar com os outros. Em tempos de mundialização da cultura, as fronteiras territoriais e cognitivas já não são mais limitadoras quando pensamos em diversidade cultural. Os signos constituídos musicalmente pelos indivíduos, nos diversos contextos, muitas vezes intermediados pelas novas tecnologias, deflagram este fenômeno global. A cultura encontra-se em trânsito permanente nesta trama de sentidos presentes no cotidiano de diversas sociedades. Daí a importância da educação musical como espaço de abertura à diversidade das expressões culturais, como espaço de revalorização das comunidades locais e dos grupos étnicos, levando sempre em conta o papel determinante do indivíduo e de suas necessidades.

            Os artistas convidados virão acompanhados dos grandes personagens desta nova história: o Tambor de Sopapo, com seu grave inconfundível; e o trio percussivo do candombe, os tambores piano, repique e chico, de origem afro-uruguaia. A musicalidade que ressoa desses instrumentos atualiza o tempo primordial que nos remete à forma de organização de comunidades que foram escravizadas. Por isso, serve como exemplo de resistência eficaz contra a colonização do espírito. Costuma-se dizer que o toque grave dos tambores, além de reproduzir metaforicamente a batida do coração, tem poder de evocar os deuses iorubas e bantos. Que este evento, realizado pelo Ponto de Cultura Pampa Sem Fronteiras em parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB e Junipampa), Smed e tantos outros parceiros, seja um convite ao transe coletivo entoado pelos tambores. Que a cidade de Bagé, tão hesitante em reconhecer o papel decisivo da cultura negra, desde a charqueada de Santa Thereza até os dias atuais, se mantenha povoada por deuses africanos que renovam cotidianamente as nossas motivações. Que nossos ouvidos atendam ao chamado e compreendam o recado dos tambores. E que sejamos todos um poema de Oliveira Silveira:

“Que o chocalho

Baralhe

meus olhos,

adjá

badale

meus tímpanos,

meu corpo rode rode,

contas arrodeiem,

agê me agite a alma

e esse batuque

dos atabaques

vá me deixando tatibitate.”

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