Arquivo da tag: Cosmologia

Cosmologia guarani

por Lisandro Moura

Texto publicado na Revista Colabore: articulando saberes, n. 2. Bagé: Universidade Federal do Pampa, set 2016. p. 22 – 24.

itacoatiara-pintura-rupestre-astronomica-tupi-guarani-no-parque-nacional-da-serra-da-capivara-brasil-creditos-wikimedia-commons

Itacoatiara, pintura rupestre astronômica Tupi-Guarani, no Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil – Créditos Wikimedia Commons

A palavra “cosmologia” tem sido usada com frequência no campo das Ciências Humanas, notadamente na Antropologia, para designar o estudo da visão de mundo como totalidade existencial de um povo, sua relação com o universo, com o cosmo. Denota, assim, uma relação diferenciada que a cultura de um povo, enquanto sistema simbólico de organização social, estabelece com a organização material e espiritual da vida, uma ética planetária que remete ao sentimento de unidade com o universo. Talvez seja difícil pensar o conhecimento da vida humana em termos cosmológicos, tendo em vista o longo processo de racionalização das ações humanas a que estamos submetidos desde o Iluminismo. A aposta no progresso linear e inconsequente se expressa naquilo que Max Weber (2004) chamou de desencantamento do mundo, ou seja, o momento da modernidade marcado pela separação entre cultura e natureza, entre corpo e espírito, momento em que as pessoas são desenraizadas do seu passado primordial, no qual a imagem do mundo era predominantemente mágica e mitológica, e os sentimentos acerca do universo não separavam o ser humano do seu chão e do seu cosmos.

Falar em cosmovisão implica levar em conta as narrativas míticas que justificam a existência de uma ordem social (cosmo) contra os efeitos da incerteza (caos), sendo a principal delas os mitos cosmogônicos, ou seja, os mitos de criação do universo. A mitologia, enquanto pensamento simbólico, não é uma prerrogativa somente de povos e comunidades tradicionais, como as populações indígenas. Nós, modernos e ocidentais, também temos os nossos mitos, que ora justificam nosso modo de vida e ora nos impulsionam para mudanças no nosso modo de existência. A diferença é que muitos de nós acreditamos no discurso de que a ciência representa a única forma válida de conhecimento, e todo o tipo de saber popular não passa de uma falsa consciência do mundo. O mito para nós está frequentemente associado à mentira ou à superstição. É assim que o programa do desencantamento tentou reduzir a ordem cósmica e mitológica à ordem histórica e política.  Entretanto, a História, a Ciência e a Tecnologia, que equivalem ao totem das sociedades modernas, não passam de um microcosmo de uma cosmologia maior que é o mito. É o mito que explica a ciência e não o contrário, como nos lembra a narrativa mitológica de Prometeu, por exemplo.

A cultura dos povos ameríndios da nação Guarani, que habitam as regiões da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil (RS, SC e PR), exemplificam muito bem a indissociabilidade entre natureza e cultura, corpo e ama, terra e céu. É possível afirmar que todo o universo guarani é conduzido pelos céus e todo sistema de crenças, enquanto cosmovisão de mundo, segue as intimações celestes, como evidenciam os estudos de Cadogan, (1992), Fonseca (2007), Afonso (2006). Essa afirmação é válida também para a comunidade mbyá-guarani da Tekoá Koenju (Aldeia Alvorecer), localizada em São Miguel das Missões. Nas saídas de campo que realizo todo o ano, desde 2011, com meus alunos do IFSul, observo o quanto as ações cotidianas estão relacionadas a uma ordem cosmológica diversa da nossa, pois os mbyá dão muita importância aos fenômenos celestes antes de tomar qualquer decisão que envolva o coletivo. Isso porque o ethos do guarani, denominado de Nandereko ou Teko, equivale à máxima “viver como os antigos”, que para eles pode ser traduzida como “modo de ser verdadeiro” (CADOGAN, 1992). As plantações, as colheitas, as decisões políticas (cosmopolítica) o trabalho com artesanato, a organização social e os os ensinamentos dos karaí obedecem aos eventos míticos estruturados como mediação simbólica entre a terra e o céu. Dentre os principais eventos míticos está a busca da Terra sem Males ou Terra Celestial (Yvy Marãey), motivação vital de todo Guarani. Desse modo, podemos dizer que as mensagens vindas do céu se entrelaçam com as vivências do cotidiano. Por exemplo, o nome que as crianças Guarani recebem do xamã (Karaí), através da mediação dos deuses, e que representa a sua “alma-palavra”, está associado aos quatro pontos cardeais e aos ancestrais (clãs) associados ao sol (kuaray), ao relâmpago (werá), ao mar e oceano (Pará), às flores (Poty), ao universo (Yva) etc. Assim também funciona a construção da casa de rezas, denominada de Opy, cuja porta de entrada precisa estar posicionada na direção leste, exatamente onde cai o primeiro raio de sol do dia.

indios-mbya-guarani-foto-da-aluna-grabiela-avello

As crianças mbyá-guarani recebem nomes associados a elementos da natureza. Foto: Gabriela Avello. Aldeia Koenju.

Um fato curioso desse aspecto da cultura Mbyá-Guarani foi narrado pelo documentário Bicicletas de Nhanderú, dirigido pelos cineastas indígenas Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, moradores de Koenju. O filme mostra o cotidiano dos Mbya-Guarani da aldeia Koenju, em São Miguel das Missões. Na primeira cena do filme, um raio cai próximo às moradias e atinge parte de uma árvore. Algo que poderia ser visto como um fenômeno natural, uma simples descarga elétrica, é visto pela comunidade como algo mais, como prenúncio dos deuses, que dará sentido ao desenrolar da trama fílmica dali em diante. O fato mostra o quanto a comunidade orienta suas práticas a partir de referenciais mais amplos. Na ocasião, os moradores da aldeia explicam o acontecimento como sendo um gesto de descontentamento de Tupã, deus mensageiro dos Guarani, que se manifesta na forma de trovão. Assim que a chuva passa, os moradores se dirigem ao local do raio e apanham o galho espesso que caiu da árvore devido à força do relâmpago. Observam o galho demoradamente, com muita atenção, querendo encontrar ali algum tipo de resposta. “Será que matou o espírito dela?”, pergunta o cinegrafista indígena. “Não sei”, responde o companheiro, “acho que ele [Tupã] só quis dar um susto. Não foi um espírito ruim, ele só estava bravo.” Após, o rapaz que está filmando pega o pedaço da árvore e leva até a anciã (cuña karaí) para que ela faça um colocar para seu filho. “Quando caiu aquele raio, eu senti uma dor nas costas”, diz ela, demonstrando o quanto seu corpo funciona também como força cósmica, pois está conectado ao universo. O Karaí, liderança espiritual da comunidade, professa suas belas-palavras sobre o ocorrido: “Os Tupã são assim… Eles não vêm só para trazer chuva, vêm também para nos proteger. Eles não caminham em vão… Pois nós não vemos os seres que nos fazem mal. Somente eles podem ver.”

os-tupa-sao-assim

Imagem de Bicicletas de Nhanderú. (Fonte: videonasaldeias.org.br)

Esse breve relato demonstra, portanto, o quanto o pensamento Guarani possui uma concepção unitária do cosmo, não separando, portanto, o mito da realidade, o real do imaginário, uma vez que o mito opera justamente como modelo exemplar da conduta humana (ELIADE, 2010). A cultura guarani contem em si o saber que caracteriza o universo cosmológico de praticamente todas as sociedades tradicionais, cuja característica foi bem compreendida por Gilbert Durand (2008, p. 49): “Para o pensamento tradicional, não existe nada indiferente na natureza: cada situação na dimensão remete a um aviso no tempo; cada lugar e cada tempo são os sinais de um destino.”

Referências

AFONSO, G.B., Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil. (Edição Especial: Etnoastronomia), v. 14, p. 46-55, 2006.

CADOGAN, Leon. Ayvu rapita: textos míticos de los mbyá-guarani del Guairá. Biblioteca Paraguaya de Antropologia, 1992.

DURAND, Gilbert. Ciência do homem e tradição: novo espírito antropológico. São Paulo: TRIOM, 2008.

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Coleção Debates. São Paulo: Perspectiva, 2013.

FONSECA, O.; PINTO, S.; JURBERG, C. Mitos e constelações indígenas, confeccionando um planetário de mão. X Reunión de la Red de Popularización de la Ciencia y la Tecnología en América Latina y el Caribe (RED POP – UNESCO) y IV Taller “Ciencia, Comunicación y Sociedad” San José, Costa Rica, 9 al 11 de mayo, 2007.

WEBER, Max. A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Etiquetado , , ,