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Habitar a cidade com a imagem

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por Lisandro Moura

Este ensaio fotográfico aborda as minhas relações com a cidade de São Paulo a partir de caminhadas ao acaso, levando em conta o curto período de tempo em que estive na cidade (de agosto a dezembro de 2017). Essa relação se manifesta, entre outras formas, por meio da experiência fotográfica e do meu estranhamento com um lugar até então pouco conhecido por mim. A imagens selecionadas foram primeiramente apresentadas na disciplina “Antropologia Visual: Uso da Fotografia na Antropologia”, ministrada pela Prof. Sylvia Caiuby Novaes, do Programa de Pós-graduação em Antropologia da USP. Aqui elas serão apresentadas de forma intercalada com o texto. As imagens são testemunhas das minhas andanças e errâncias pela metrópole, um encontro com o desconhecido que se traduz numa experiência estética e numa poética urbana. Uma forma espontânea de habitar a cidade com a imagem.

Quando apresentei as fotografias em aula, fiquei um tanto surpreso com a reação positiva dos colegas. Até então, as imagens tinham para mim um significado menor, eram apenas expressão do meu olhar de “turista”. Tanto é que as fotos foram feitas com um celular (smartphone), sem qualquer planejamento prévio ou pesquisa antecipada de possíveis lugares a serem fotografados. Eu as produzi a partir dos meus deslocamentos pela cidade, primeiramente com o único objetivo de postá-las no Instagram, uma rede social que mantenho sempre atualizada. Somente depois, através de um processo de montagem e justaposição das imagens, observei que elas poderiam figurar dentro de uma unidade temática. Foi assim que elas se tornaram o tema central deste trabalho. Desde que adotei o celular para fotografar, a noção do que pode ou não ser fotografado se alterou completamente. A presença indiscreta da máquina fotográfica profissional não me permite fazer algumas fotos que o celular hoje me permite, com muito mais rapidez e indiscrição. No entanto, na mesma medida em que o celular facilita o gesto, ele reduz a autoridade que o fotógrafo adquire com o uso da câmera profissional. É por essas e outras razões que eu julgo que a fotografia de celular está muito mais próxima de uma fotografia espontânea de turista do que a de antropólogo. Não há, de minha parte, nenhum juízo de valor nessa comparação. Quero dizer apenas que, diferentemente de um turista, o pesquisador está preocupado em estabelecer vínculos e relações de reciprocidade (ou contratuais) com os sujeitos da pesquisa, amparadas numa perspectiva ética. O termo “turista” usado aqui deve ser pensado mais no sentido de um turista aprendiz (Uma referência aos diários de viagem de Mário de Andrade, reunidos no livro Turista Aprendiz), que tenta vivenciar uma experiência de errância tal qual um peregrino que caminha em busca de algo, atento aos sinais da paisagem e das situações cotidianas. Um tipo de turista que faz do caminho o objeto principal da sua viagem, diferente daquele que busca algum prazer e conforto nos espaços de consumo já destinados a ele. Essa diferença importante não me exime da necessidade de considerar que as fotografias selecionadas fogem um pouco da proposta de um trabalho de pesquisa solicitada ao longo da disciplina. Os demais projetos apresentados em aula comportavam uma temática de pesquisa antropológica que conduzia coerentemente as narrativas visuais. Na maioria das imagens feitas pelos meus colegas transparecia algum envolvimento com os temas pesquisados e, sobretudo, com as pessoas fotografadas. Revelavam no encontro etnográfico um envolvimento maior com o campo, tão fundamental para a pesquisa antropológica. Sabemos que a qualidade de um trabalho antropológico é dado, muitas vezes, pelo grau de envolvimento e intimidade que o pesquisador estabelece com seus interlocutores. Ao contrário disso, considero que minhas fotos – apesar de guardarem na sua composição um desejo de ligação com a cidade – evidenciam muito mais um distanciamento e uma atitude blasé típica de quem vem de fora e não teve tempo suficiente de produzir vínculos mais duradouro com as coisas e com as pessoas.

Penso, talvez, que minhas fotos foram bem recebidas na turma justamente porque refletem o olhar de quem está do lado de fora. Nesse processo, o “turista” goza de uma liberdade maior do olhar, pois não tem medo de reproduzir clichês e fotografar espaços que são habituais para um morador local. Para mim, que tenho encantamento nos olhos, tudo é uma novidade, tudo é novo. E eu fotografo tudo como quem está reaprendendo a ver. Por conta dessa reação incentivadora da turma, decidi investir no trabalho e escrever este texto como forma de dialogar com as imagens, olhando-as mais atentamente e chamando para conversa alguns autores que me ajudam a pensar a experiência urbana a partir do ato de caminhar (e mapear) através da imaginação fotográfica.

É espantoso como o simples gesto de mudar de lugar provoca-nos também uma mudança profunda de sensações, pensamentos e fantasias. Uma transformação provocada pelo deslocamento do olhar. Acostumado com imagens repletas de horizontes e arcaísmos, típicas da minha pequena cidade de origem, no canto sul do Brasil, mergulhei nas imagens verticalizantes dos prédios altos, no ritmo veloz dos fluxos de deslocamentos, nas pichações em muros, no trânsito ensandecido nos viadutos e cruzamentos de avenidas, na luminosidade artificial e diversificada da cidade de São Paulo. Neste percurso urbano, sinto-me como o personagem desconhecido do conto de Edgar Allan Poe (1991), que, não se sentido bem em sua própria cidade/sociedade, busca na multidão uma recompensa e um motivo para circular em anonimato.

A fotografia, neste processo, desempenhou papel de guia imaginário. Conhecedora dos caminhos, auxiliou-me na tarefa de percorrer a cidade com atenção imaginante. Os primeiros estranhamentos foram, então, puramente visuais.

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Ao contrário da paisagem rasteira da região da campanha e das cidades do interior do RS, que produz um alargamento do olhar com o qual estou familiarizado, as ruas da cidade de São Paulo encerram o olhar num curto espaço, repleto de linhas e traçados geométricos que denotam um estilo de vida. Prédios irregulares e luminosos se erguem diante de mim sem muito critério. Essa irregularidade estética condiz perfeitamente com o cidadão paulistano. Foi George Simmel quem captou com perspicácia os fundamentos sociológicos e psicológicos das individualidades urbanas, fazendo um contraponto interessante entre o cidadão da pequena cidade e o da metrópole:

“A atitude espiritual dos habitantes da cidade grande uns com os outros poderia ser denominada, do ponto de vista formal, como reserva. Se o contato exterior constante com incontáveis seres humanos devesse ser respondido com tantas quantas reações interiores — assim como na cidade pequena, na qual se conhece quase toda pessoa que se encontra e se tem uma reação positiva com todos —, então os habitantes da cidade grande estariam completamente atomizados interiormente e cairiam em um estado anímico completamente inimaginável. Em parte por conta dessa situação psicológica, em parte em virtude do direito à desconfiança que temos perante os elementos da vida na cidade grande, que passam por nós em um contato fugaz, somos coagidos àquela reserva, em virtude da qual mal conhecemos os vizinhos que temos por muitos anos e que nos faz freqüentemente parecer, ao habitante da cidade pequena, como frios e sem ânimo”. (SIMMEL, 2005, p.577-578)

Entretanto, a poética das imagens fotográficas se sobressai frente ao dado sociológico da atomização dos habitantes, evidenciado por Simmel e representado na arquitetura dos prédios das fotografias acima. A reserva blasé do habitante da metrópole, como Simmel caracteriza, fica em segundo plano comparada com a visualidade alegórica da fotografia. De fato, busquei selecionar imagens que cumprem menos a função de documento social do que a de testemunho de um tipo de encontro entre o fotógrafo e a cidade, que se expressa numa estética e numa poética urbana. Uma recusa em instrumentalizar a fotografia em favor da fé positivista na objetividade dos fatos (fotografia como narrativa e discurso) e uma tentativa, ainda que insuficientemente realizada, de aproximá-la da figuração poética. Essa posição fica evidente pela minha decisão de não usar nas imagens legendas explicativas ou de localização dos lugares onde as fotografias foram tiradas. Mais importante que o dado objetivo é o enigma que a foto sugere. Aqui tento seguir o modelo explicativo de Rouillé (2009), que captou muito bem a transição da foto-documento para a foto-arte. O enigma e a sinuosidade têm tudo a ver com a fotografia de andanças. No entanto, o que me impede de completar essa transição é a presença da banalidade cotidiana em algumas fotos, que às vezes beira o simples registro e, portanto, se afasta da intenção manifesta de quebrar com a linearidade narrativa. Mas ainda assim acredito que a maioria das fotografias apresentadas surpreendem mais pela forma do que pela realidade social que alude. Esse dado ficou evidente depois dos comentários de meus colegas de aula, quando viram as imagens. Os comentários variavam entre a beleza da cidade apresentada na composição imagética e a localização de certos lugares acionada pelo índice imagético. O conteúdo da imagem aparecia em comentários do tipo: “ali é tal lugar”, “fica perto do meu curso” etc. Algumas imagens remetem à localização e vêm acompanhada de uma memória ou uma história. A presença da poesia compete com a insistência dos fatos sociais, que estão presentes de forma latente. Como pode haver beleza onde aparentemente ela não existe? “Não há nada de real na vida que não o seja porque se descreveu bem”, dizia o poeta Fernando Pessoa (2006, p.59). Nesse caso, o caráter antropológico das imagens ganha sentido quando levamos em conta a fotografia em sua especificidade. Noutras palavras, em matéria de fotografia, as circunstâncias sociais se revestem do caráter simbólico, poético e polissêmico das imagens, que torna muito mais complexa a compreensão dos fenômenos sociais.

Além disso, na medida em que perco em profundidade de campo, meu olhar ganha em riqueza de detalhes, fixando-se inevitavelmente em objetos e situações que estão mais próximas. O olhar estreito tem a vantagem de captar as minúcias do cotidiano, numa combinação de elementos, personagens e coisas do cenário tipicamente urbano.

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O que fazer quando se chega num lugar desconhecido onde o sujeito carece de qualquer senso de localização? É inevitável que o google maps passe a orientar o deslocamento pela cidade. Somos levados de um ponto a outro sem o perigo de pegarmos o caminho errado ou uma rua sem saída. Somos tomados pelo fluxo da multidão, de modo que a travessia, ou seja, o processo, fica em segundo plano. No entanto, como afirma Ingold (2005), e antes dele Michel de Certeau (1998), as cidades planejadas e visualizadas nos mapas cartográficos modernos estão muito aquém das experiências cotidianas dos errantes que constroem espontaneamente seus itinerários. Olhar a cidade desde uma visão geral e de cima, proporcionada pelo mapa, é diferente de vê-la por dentro, desde baixo. Sobre isso, vale mencionar rapidamente alguns exemplos da literatura errática: temos o flâneur de Charles Boudelaire, imortalizado por Walter Benjamin, temos as deambulações dos dadaístas e surrealistas, a psicoetnografia antropofágica do brasileiro Flávio de Carvalho, as incursões pela alma da cidade realizadas por João do Rio, os mapas psicogeográficos dos situacionistas franceses, as derivas urbanas de Hélio Oiticica e, também, os praticantes ordinários das cidades na obra de Michel de Certeau. Todos eles estavam, à sua maneira, contestando os condicionamentos urbanos da cartografia moderna. Como bem afirma Paola Jacques (2012), enquanto toda a concepção do urbanismo está voltada para a questão do orientar-se, os errantes buscam se desorientar e, ao se perder, encontrar os vários outros das cidades. Benjamin (1993) expressou muito bem a superioridade da desorientação: “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.” Para além do GPS, a experiência de alteridade com as coisas, com as pessoas e com os lugares dão o tom antropológico e etnográfico das fotografias de errância pela cidade. No conto A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro, de Rubem Fonseca (1989), temos no personagem principal, Augusto, um verdadeiro flâneur das classes populares que tenta restabelecer para o leitor a possibilidade de comunhão com a cidade através do exercício de caminhar e prestar a atenção a qualquer acontecimento.

Caminhar é um método raro. Se pudéssemos resumir as sociedades contemporâneas de forma genérica, o trânsito de automóveis seria o símbolo perfeito. Quanta diferença poderíamos traçar entre aquele que caminha e aquele que dirige! As caminhadas nos aproximam das coisas, podemos vê-las em sua especificidade. Dentro dos automóveis, ao contrário, a vida lá fora parece distante, passamos e não vemos. A mediação do carro é quase uma ruptura entre o ser e o mundo. Encerrado em quatro rodas, não observamos a riqueza dos detalhes e, portanto, nem sempre olhamos aquilo que vemos. Cegamos, simplesmente. Não é por acaso que outro grande escritor, José Saramago, no Ensaio sobre a cegueira, escolhe o trânsito como metáfora para retirar a visão do seu personagem, o primeiro cego. A imagem do trânsito inicia toda a narrativa. O primeiro cego perde a visão justamente no sinal vermelho do trânsito caótico de uma grande cidade.

Neste trabalho pretendo fazer da fotografia uma forma de driblar essa ruptura com o mundo a que facilmente estamos submetidos. O ato de fotografar produz uma adesão do sujeito ao espaço referente, mesmo que eles se mantenha numa distância considerável. É uma forma de intensificar o instante, assinalando a presença do sujeito numa dada situação. Eu poderia passar despercebido por essas cenas do cotidiano, aparentemente banais?

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Cada pessoa, cada paisagem, é um chamado. Vou até elas, mas não me arrisco a chegar perto. Vejo-as de longe. Apenas contemplo sem que me pudessem ver, sem que minha presença pudesse de alguma forma alterar a pintura do quadro, remover os objetos e as pessoas dos seus lugares de origem. Há “lugares de origem na fotografia”? Os olhos com que revejo ainda são os olhos com que vi? Tudo é estranhamento.

Retomando o pensamento de Ingold, diferentemente do que estamos acostumados a pensar, nem sempre o mapa geográfico é capaz de produzir representações exatas de um determinado ambiente. Quando abondei a dependência do google maps e passei a transitar com mais liberdade por São Paulo, deixando-me levar pelo acaso, a cidade passou a ser reinventada pela minha experiência particular. Ao tecer as tramas urbanas construí trajetos pessoais muito diferentes daqueles dados oficiais que o mapa me sugeria. E a rua começou a se revelar para mim de uma forma crua.

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A rua que eu acreditava que fosse capaz de imprimir à minha vida giros surpreendentes, a rua com as suas inquietações e os seus olhares, era o meu verdadeiro elemento: nela eu recebia, como em nenhum outro lugar, o vento da eventualidade.” (BRETON apud CARERI, 2013, p.84).

Na passagem de um lugar para outro, no percurso de rua em rua, que atravessa encruzilhadas, é necessário levar em conta o “mundo tal como é vivenciado por um habitante, ao longo de uma jornada de vida” e não um mundo pensado desde um “ponto de vista acima e além” (INGOLD, 2005, p. 87). A cidade, tanto em seu espaço físico como imaginário, está atravessada pelas experiências e pelas relações de vinculação do sujeito a um dado contexto. As intimações subjetivas da imaginação fotográfica diferem, em termos de abertura de caminhos, dos métodos objetivos da ciência cartográfica, que ignora as experiências vividas, os devaneios do caminhante e os gestos inscritos nos lugares. Para Ingold, o ato de mapear, muito diferente de elaborar um mapa, é visto como processo aberto e contínuo, um movimento constante de “descobrir- caminho”. Todo mapa revela antes um modo de vida errante do que um espaço de posições fixadas independentes de um ponto de vista. A prática fotográfica aqui está de acordo com o mapa de Ingold (2005), para quem um território é composto por um contínuo movimento realizado ao longo de inúmeras “trilhas de observação”.

Passemos agora a adentrar a visualidade noturna da cidade, vista pelas lentes da câmera fotográfica. Alguém já deve ter dito que é durante a noite que se pode conhecer profundamente um lugar. Não se pode conhecer uma cidade sem passar pelos seus bares e cenas noturnas onde os espíritos são livres e as relações interpessoais são dionisíacas, deixando o caminho ainda mais sinuoso. Ao trilhar o percurso da noite paulistana, cada passo meu encontra uma cidade de múltiplas possibilidades, assim como cada gole de vinho é um caminho que se abre ao fotógrafo.

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A estética dos ambientes noturnos leva o fotógrafo a vivenciar uma experiência parecida com a metáfora do labirinto. É a revelação da condição existencial dos que querem observar com embriaguez a vida noturna. A imagem do labirinto sempre esteve muito presente nas narrativas errantes. Ela nos faz pensar que os bares de São Paulo são desvios de trajetos rotineiros. A poética fotográfica, nesse caso, dialoga com o corpo todo do fotógrafo que, vagando errante pelas casas noturnas, vai deixando rastros da sua observação imaginante pelo caminho. O rastro é o princípio primordial de todo mapa. As imagens sugerem, mais do que nunca, a construção de um olhar poético sobre a cidade. Desse modo, a construção do olhar imaginoso sobre os bares passa, sobretudo, pela disposição de abertura por parte do sujeito que trilha os caminhos. Ou seja, é aos tombos, trancos e tropeços que o espírito se abre para as cenas da noite, repletas de movimentos e luminosidade embalada por ritmos musicais.

Portanto, a imaginação fotográfica nos traz outras trilhas possíveis para viver a cidade a partir da experiência da andança. A cidade deixa de ser um palco pré-moldado e passa a ser um lugar a ser espontaneamente explorado pelo olhar poético. Sendo assim, através de deslocamentos fotográficos, busquei construir uma relação de alteridade com a cidade, uma busca pelo estranhamento/encantamento do próprio cotidiano. É justamente a busca da alteridade e da abertura ao cotidiano desconhecido, a atração pelo acaso, a disponibilidade de deixar-se levar pelas imagens e pelas sobras da cidade, é o que dá ao fotógrafo turista uma sensibilidade de etnógrafo. Cheguei à São Paulo e me surpreendi pelas suas imagens. Permaneci na cidade sem conseguir compreendê-la. Voltei para o sul sem nenhuma conclusão.

Referências

BENJAMIN, W. Obras Escolhidas II. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.

CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. São Paulo: Editora Gili, 2013.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do cotidiano. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1998.

FONSECA, Rubem. Feliz Ano Novo. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

INGOLD, Tim. Jornada ao longo de um caminho de vida – mapas, descobridor-caminho e navegação. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, ISER, v. 25, n. 1, p. 76-110, 2005.

JACQUES, Paola Berenstein. Elogio aos errantes. Salvador: EDUFBA, 2012.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

POE, Edgar Allan. O homem da multidão. In: POE. Os melhores contos de Edgar Allan Poe. Círculo do Livro, 1991.

ROUILLÉ, André. A fotografia entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Editora Senac, 2009.

SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito (1903). Mana. Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 577-591, Oct. 2005.

 

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Histórias de Trabalho em Bagé

Texto de apresentação da Revista Histórias de Trabalho em Bagé, intitulado Escritas do mundo do trabalho.

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Capa da revista. Arte: Hiago Faria. Foto de capa: Diego Lameira

por Lisandro Moura

As histórias aqui reunidas resultam de um trabalho de sala de aula realizado com estudantes do IFSul Campus Bagé, na área de Sociologia e no contexto do projeto Narradores de Bagé[1]. Os alunos e alunas do 6º semestre dos cursos de Agropecuária e Informática, integrados ao Ensino Médio, tiveram como tarefa a elaboração de narrativas literárias baseadas em histórias reais do cotidiano de quem vive do e para o trabalho. Os protagonistas são pessoas da cidade de Bagé e região, muitas delas próximas do convívio familiar dos estudantes-autores, o que faz da escrita um gesto de afeto ao próximo.

Os textos selecionados comportam imagens e personagens do mundo do trabalho, que em meio às adversidades da vida conseguem evocar um horizonte de possibilidades para quem busca uma vida com sentido. Captando com sensibilidade as minúcias laboriosas do cotidiano de cada personagem, os(as) jovens autores(as) nos convidam a visitar as memórias pessoais e coletivas que dão o tom das mais diversas profissões e ofícios. Vidas narradas de personagens profundamente humanos, que nos ensinam valores e atitudes indispensáveis pelo modo como vivenciam as contradições sociais do trabalho e as condições de suas próprias limitações.

O dilema das prostitutas e transexuais que vivem e sobrevivem nas calçadas e becos noturnos da cidade; a valsa imaginada pelo autor do texto, que dá ritmo às batidas repetitivas do antigo ferreiro; as resignações e relações afetivas do coveiro com o cemitério onde trabalha há anos; o solitário escritor-inventor que cria cenários a partir do alto da sua janela; o cotidiano arriscado de um trabalhador quileiro da região de Aceguá; a emoção remota que a parteira deixa transparecer ao realizar o milagre do seu trabalho; a fé e a generosidade da benzedeira Doninha; a dimensão trágica e heroica que se manifesta no trabalho de um bombeiro… São tantas histórias e lições de vida que não cabem neste texto. Todas elas falam da vida como trabalho e do trabalho como vida. Falam, sobretudo, do trabalho que não se deixa capturar pelo emprego formal, pois está associado à manifestação de um valor pessoal e afetivo. O trabalho com sentido em meio a uma vida de incertezas. O trabalho como espaço do devir e não apenas como produto de uma relação alienante, mesmo que ele esteja, quase sempre, situado numa estrutura de exploração e expropriação. A vivência subjetiva do trabalho ganha aqui um destaque superior ao modo como o trabalho se realiza no plano objetivo das relações sociais.

A cidade de Bagé é o palco onde as ações do enredo se desenvolvem. No entanto, apesar do cenário ser local, as narrativas sugerem também indícios do drama universal vivido pelos sujeitos do trabalho. A universalidade das histórias ganha relevância porque a forma de contá-las é figurativa, o que pode levar o leitor a se identificar com cada uma delas e, ao mesmo tempo, indagar se são histórias reais ou imaginadas, suprimindo assim os limites entre a realidade e a ficção. A escrita assume dimensões subjetivas importantes de modo que a imaginação passa a orientar o processo narrativo. A imaginação como matriz do ato criativo, como faculdade que permite revelar a veracidade do irreal ao transpor a objetividade desencantada dos “fatos sociais”.

O sentido pedagógico pensado nesse projeto está situado justamente nesse limiar entre o real e o imaginário. Estamos trabalhando com uma sociologia que se preocupa mais em mostrar as minúcias do labor diário do que explicar, julgando, suas causas e contradições. É o olhar que descreve os acontecimentos habituais em torno do trabalho para amplificar nossa percepção sobre os mesmos. Uma perspectiva, portanto, que investe com prioridade nas figurações do trabalho e nas formas sensíveis da vida cotidiana. Podemos falar, assim, de uma experiência de ensino que tem como finalidade a aprendizagem de um olhar fértil sobre os fenômenos sociais, um olhar atento aos pequenos gestos que são quase imperceptíveis ao observador apressado. Essa atenção imaginante está fundamentada na aproximação intuitiva entre o sujeito que narra e o objeto narrado, devido ao envolvimento dos estudantes que, em alguns momentos, se colocam também como participantes das histórias contadas.

Por fim, antes de mergulharmos nas figurações, memórias e afetos do mundo do trabalho, é imprescindível dizer que a organização desta revista surgiu de uma parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB) e foi acompanhada e sustentada por pessoas valiosas que, de uma forma ou de outra, foram corresponsáveis pela inspiração e finalização deste material. Menciono, em primeiro lugar, a Prof.ª Clara Dornelles, coordenadora do LAB, que gentilmente abraçou a ideia de publicar este trabalho realizado por alunos do IFSul, com recursos do projeto de extensão da Unipampa, Escrita colaborativa e experimental no Jornal Universitário do Pampa (PROEXT-MEC). Em segundo lugar, meus agradecimentos especiais à jornalista Giuliana Bruni por espalhar a magia do jornalismo literário em oficinas realizadas no LAB e em outros espaços da cidade, como no IFSul, universidades e escolas. Graças ao trabalho que ela realiza, em colaboração com o jornalista Felipe Laud, em projetos como o Pessoas de Bagé (Facebook) e nas oficinas voltadas para a escrita criativa de não-ficção, é possível pensar na literatura como substrato rico para o aprendizado e o exercício do olhar sociológico na escola.

[1] Projeto de ensino com o qual viemos desenvolvendo, desde 2011, trabalhos que apresentam em textos e imagens a diversidade das manifestações sociais e culturais da cidade de Bagé.

Fotos do lançamento, na Livraria Café & Prosa

Figura 2 - Autores e organizador da revista durante lançamento - Foto Giuliana Bruni

Autores e organizador da revista durante lançamento

Figura 3- Coordenadora do LAB, professora Clara Dornelles ao lado do coordenador e organizador da revista, professor Lisandro Moura - Foto Giuliana Bruni

Coordenadora do LAB, prof. Clara Dornelles e Lisandro Moura.

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Diálogos culturais na cidade

por Lisandro Moura

            Desde que iniciamos as atividades dos “Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação”, no âmbito do projeto de extensão do Laboratório de Produção Textual – LAB/Unipampa (PROEXT-MEC), coordenado pela profª. Clara Dornelles, viemos trabalhando para reafirmar a importância formativa da diversidade cultural e do trabalho coletivo na produção de conteúdo para o Jornal Universitário do Pampa – o Junipampa. Alunos, bolsistas e colaboradores internos e externos atuam em várias frentes para espalhar o propósito original do Jornal, que é a escrita colaborativa em ambiente virtual. De março até o momento, já realizamos oficinas, minicursos e palestras sobre diversos temas: jornalismo literário, fotografia, audiovisual, estéticas e culturas contemporâneas, saída de campo à aldeia indígena, midialivrismo e cultura colaborativa. Até o final do ano, outros projetos já estão previstos, dentre eles a possível vinda de Richard Serraria, numa parceria com o Ponto de Cultura “Pampa sem Fronteiras”. Todos esses eventos e temas convergem para o propósito comum de aliar a escrita experimental aos contextos culturais da sua produção. O objetivo, portanto, é criar na cidade espaços para a socialização de experiências na arte e na cultura, que dialoguem com a comunicação e a educação e contemplem os diferentes grupos culturais da cidade.

            Quando aceitei o convite da professora Clara para coordenar as ações dos “Diálogos”, junto com a amiga Mariane Rocha, aluna bolsista da Unipampa, estava ciente de que o desafio seria grande, uma vez que o cenário cultural em Bagé se caracteriza por uma dinâmica ainda bastante competitiva, com grupos sociais que não têm o costume de costurar ações em conjunto, mesmo trabalhando com temas afins. Como é possível que uma cidade tão positivamente provinciana, cujas relações interpessoais são tão próximas, produza ações tão esparsas e desconectadas? Costuma-se dizer que, em Bagé, as pessoas sabem da vida de todo mundo. O estranho é que, quando algum evento cultural acontece, pouca gente comparece, pouca gente fica sabendo, o que da a entender que cada grupo está atuando separadamente, sem buscar conexões e parcerias. A comunicação pessoal funciona para algumas coisas e para outras não. Cito como exemplo o Atelier Coletivo, um espaço cultural de shows que há oito anos funciona como resistência e contraponto ao monopólio das festas consagradas da cidade. Mas agora, infelizmente, fechará suas portas para a nossa indiferença, a indiferença dos bageenses. O Atelier Coletivo era o lugar por onde passava a vanguarda dos movimentos musicais do Brasil, Uruguai e Argentina. Músicos que costumam lotar auditórios, anfiteatros e parques públicos por onde passam, eram recebidos em Bagé, no Atelier, por cinco ou dez pessoas no máximo!  Há algo de estranho na rainha da fronteira.

            Soma-se a isso o fato de que o espaço da produção artística e cultural local parece estar reservado a algumas poucas pessoas que se autodenominam “especialistas”. São pessoas que têm aversão a tudo o que vem de fora e, mesmo assim, são autorizadas, tanto pelo clã ao qual pertencem quanto pelas mídias locais que as legitimam, para falar em nome da arte com propriedade duvidosa, muitas vezes herdada do passado saudosista, do peso do sobrenome e do grau das relações de compadrio. Ou então, aqueles que se utilizam da instituição a qual pertencem para fazer contraponto às outras, deixando transparecer uma mentalidade cartesiana e competitiva, que separa a cidade por grupos de interesses institucionais excludentes, como se as instituições devessem se preocupar mais com disputas de mercado e de público do que com os benefícios sociais, educacionais, políticos e econômicos para a população local.

            Por outro lado, mesmo que o cenário não seja tão favorável para a integração cultural, o desafio de atuar junto à equipe do LAB é estimulante para quem quer estar numa cidade minimamente habitável, em que o tédio costumeiro ceda lugar ao prazer de viver. A sabedoria trágica de Nietzsche nos serve de exemplo: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. Tenho a impressão de que Bagé sempre foi mais criticada do que realmente vivida. Apesar de todas as objeções que se possa fazer, “o melhor lugar para viver é aqui e agora”, como defendem os nowtópicos. Nossa aldeia é maior que a grande cidade. E já que aqui vivemos, o melhor a fazer não é fugir pra outro lugar, como muitos gostariam de fazer, mas sim reinventar o espaço a partir dos desejos e sonhos da população. O que é bem diferente de pensar a cidade unicamente voltada para os negócios empresariais e econômicos que geram competição, destruição do patrimônio e conflitos de poder.

            Ao contrário da postura individualista, apostamos em um diálogo efetivo com setores, instituições e agentes culturais, sabendo que quanto mais diversificado é o contexto da produção cultural, mais ricas serão as ações e mais eficazes os impactos sociais. Porque, por mais que tenhamos como objetivo ofertar oficinas, cursos e palestras para e com a comunidade, a nossa preocupação mesmo é com os processos, com os contextos formativos de cada atividade, e não tanto com os seus resultados. O nosso interesse, nos Diálogos, é criar novas dinâmicas para o fazer cultural na cidade, em que a parceria, a cocriação e a partilha dos resultados tenham mais importância do que as disputas hierárquicas e conflitos de egos.

            Há muita gente disposta a isso, sem dúvida. Tem surgido na cidade, nos últimos anos, desde a vinda de instituições educacionais que renovaram as formas de sociabilidade na cidade, novas organizações não convencionais engajadas em iniciativas locais que preconizam o “faça você mesmo”. Inteligentemente não esperam pelo calendário cultural oficial do poder público e, assim, congregam segmentos “refugiados” da normalidade institucional. Grupos de dança na periferia, skatistas, rappers, funkeiros, oficineiros, cineastas experimentais, fotógrafos amadores, hackers, ciclistas, pontos de cultura, coletivo feminista Atena, coletivo contra o aumento da passagem (Roletaço), grupos políticos e culturais como o Levante Popular da Juventude, o Juntos!, empreendimentos solidários, agricultura orgânica sustentável, hortas urbanas, músicos de garagem, atores de fundo de quintal, batuqueiros, gaiteiros, ayahuasqueiros, festivais de cinema, de música, de teatro e de dança, jornalistas que criam projetos para além de seus empregos formais, mídias independentes e colaborativas, web jornais, rádio web, projetos solidários práticos etc.

            As experiências são infinitas e estão muito longe de serem mapeadas por completo. O que falta é uma articulação em rede, por afinidades de projetos e sonhos em comum. No momento, o importante é que esses grupos estão, cada um a seu modo, pensando a cultura na sua dimensão simbólica e comunitária, para além de megaeventos empresariais de entretenimento, como as festas e shows com camarotes vip segregacionistas. A cultura tem papel central na produção de subjetividades e na geração de novas formas de viver a urbe. É a matéria-prima da sociedade que valoriza o conhecimento como instância instauradora de múltiplos sentidos para nossa existência, aqui e agora.

Fonte: Publicado originalmente em Junipampa

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Turista aprendiz: impressões de viagem. Curitiba

Rua das flores

Lisandro Moura

pelos caminhos que ando

 um dia vai ser

   só não sei quando

(Paulo Leminski)

Sempre preferi o termo peregrino à turista. O primeiro representa a ideia de que é preciso caminhar para ver/conhecer. O olhar atento aos detalhes e às contradições do cotidiano em uma determinada cidade só pode ser definido se mantivermos uma postura de peregrino, ou seja, fazer do próprio caminho o objeto principal da nossa viagem. O turista também caminha, mas superficialmente. Não dá atenção aos detalhes, aos objetos, tampouco se importa com a história, as condições sociais e culturais do local. Não lhe interessa compreender os lugares por onde passa, e sim buscar algum prazer e conforto nos espaços de consumo já destinados a ele. Lembro de uma palestra de Yves de La Taille sobre o assunto, quando comparou o turista ao peregrino: o primeiro viaja por recreação, o tempo de viagem é um tempo programado, enquanto que o peregrino viaja porque quer buscar alguma coisa, uma identidade ou uma experiência de vida.

Estive em Curitiba durante nove dias para participar do II Encontro sobre Ensino de Sociologia na Educação Básica e do XV Congresso Brasileiro de Sociologia. Fui para apresentar um trabalho intitulado A educação do olhar no ensino da Sociologia, que trata justamente da habilidade para ver o visível e o invisível, pois nem sempre olhamos aquilo que vemos.. Para os estudantes que desejam apreender o olhar sociológico é necessário passar por um processo de reeducação do olhar, cuja principal característica é a atenção imaginante (termo emprestado de Gastón Bachelard). Mas este texto não é um relatório de trabalho.

Considero nove dias suficientes para conhecer a cidade de Curitiba na sua dimensão aparente, mas insuficiente para compreendê-la na sua totalidade essencial. Por isso, uso no título deste texto o termo turista ao invés de peregrino. Mas um turista aprendiz, que tenta vivenciar uma experiência peregrina. Uma referência ao livro de Mario de Andrade.

            Curitiba, assim como qualquer outra cidade, tem as suas contradições. Para um bageense, é uma cidade quente que fez o pessoal do norte passar frio. Nas pesquisas e no imaginário da população brasileira ela aparece como a melhor cidade do mundo para se viver (Revista Veja 2007), a mais sustentável do mundo (Globe Fórum, Suécia 2010), a cidade mais “esperta” do mundo (Revista Forbes, 2009), pólo de inovação tecnológica do Brasil (IPEA). Na experiência vivida cotidianamente é uma cidade tensa, violenta até, e durante o dia se pode presenciar um grande número de moradores de rua; uma cidade moderna sem alma, sem espírito, sem aura, sem identidade, fruto do progresso. Cidade desencantada, onde a dimensão simbólica foi praticamente apagada pelo desenvolvimento econômico que a fez cidade-modelo para os negócios (Revista Veja, 2007). Curitiba é o exemplo daquilo que Juremir Machado da Silva defende em seus livros: todo imaginário é real e todo real é imaginário. Mito e realidade não se separam.

UFPR

Mas tem sim seus encantamentos: possui ruas belíssimas, mulheres encantadoras, canteiros floridos, prédios históricos restaurados, uma universidade pública esplendorosa e linhas de ônibus super tecnológicas (qual não foi o meu estranhamento ao entrar num ônibus e ouvir música clássica durante o trajeto! Fiz cara de intelectual). Tem o Museu Oscar Niemeyer (MON), conhecido como Museu do Olho, onde pude apreciar novamente a linda exposição de fotos da Maureen Bisilliat, que já havia passado por São Paulo, e cujo olhar poético sobre o passado do Brasil, ainda tão presente, faz dela uma fotógrafa que escreve com a imagem e vê com a palavra. São mais de 200 fotos que sintetizam a visão da fotógrafa sobre os universos do real e do imaginário, tanto em fotografias como em livros e documentários. No museu havia também a exposição Dores da Colômbia, do colombiano Fernando Botero, que mostra em suas formas arredondas uma Colômbia dilacerada pela violência. Infelizmente, não pude ver tudo o que havia, o tempo era curto. O turista não fica mais do que 15 segundos em frente a uma obra de arte. Precisa correr para não furar a programação.

Museu Oscar Niemeyer (MON)

fotografia de Maureen Bisilliat


Alguém já deve ter dito que é durante a noite que se pode conhecer profundamente um lugar. Tenho total acordo. Não se pode visitar uma cidade sem passar pelos seus bares, cenas noturnas onde os espíritos são livres e as relações interpessoais são dionisíacas. Viver a noite nos traz fôlego para enfrentar o dia. O bar do Torto, o Lado B, o Blues Velvet, a Casa Verde, a festa do DCE, botecos onde se pode ver que os curitibanos não são tão frios assim como muitos comentam. As gurias até gostam do sotaque gaúcho. Bah! Mas e a música? A final, que música representa o povo curitibano? O que caracteriza o paranaense? O fandango, gênero musical e coreográfico fortemente associado ao modo de vida da população caiçara tem pouco espaço na capital. Mesmo assim, pude assistir ao show da Orquestra Rabecônica do Brasil, constituída por músicos de diversas regiões do país que vivem no Paraná. O espetáculo busca representar a cultura popular paranaense através de canções e bailadas que reúnem Fandango, Folia do Divino, Boi de Mamão, Terço Cantado… Pude observar que a tradição sempre convive com a modernidade, mas não sem contradições e percalços. Faltava ginga no corpo dos jovens músicos e dos dançarinos urbanos, “mestres” da cultura caiçara. A representação acaba sempre sendo algo diferente daquilo que pretende representar. Era bonito, mas havia um desencontro entre tradição e modernidade.

Orquestra de rabecas

Na culinária, só comi uma comida típica: o barreado. Aliás, muito gostoso! O resto foi hambúrguers, pizzas e comida de restaurante chinês! Cidade globalizada é assim…

            Por fim, só me resta dizer que as cidades são constantemente reinventadas a partir de experiências particulares, formadas por aqueles que caminham e tecem as tramas urbanas. Cada pessoa constrói trajetos pessoais numa determinada cidade, as vezes são percepções por demais diferentes daqueles dados oficiais. Curitiba é tudo e não é nada ao mesmo tempo. O excesso que se esvazia. E que se enche de novo a partir das impressões “individualmente coletivas” sobre o cotidiano das ruas. Neste caso, sei que minhas impressões são rasas, dignas de um turista. Um dia quero ser peregrino em Curitiba…

            Ontem cheguei a Porto Alegre, e aqui sou peregrino. A primeira coisa que fiz foi andar pelo centro. Andar para ver, ver para conhecer. Tenho que concordar com uma conclusão bairrista de Mário Quintana sobre a cidade: “não perderíamos nada se o universo todo fosse reduzido ao centro antigo de Porto Alegre”. Volver al sur é sempre bom!

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