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Histórias de Trabalho em Bagé

Texto de apresentação da Revista Histórias de Trabalho em Bagé, intitulado Escritas do mundo do trabalho.

Capa baixa resolução

Capa da revista. Arte: Hiago Faria. Foto de capa: Diego Lameira

por Lisandro Moura

As histórias aqui reunidas resultam de um trabalho de sala de aula realizado com estudantes do IFSul Campus Bagé, na área de Sociologia e no contexto do projeto Narradores de Bagé[1]. Os alunos e alunas do 6º semestre dos cursos de Agropecuária e Informática, integrados ao Ensino Médio, tiveram como tarefa a elaboração de narrativas literárias baseadas em histórias reais do cotidiano de quem vive do e para o trabalho. Os protagonistas são pessoas da cidade de Bagé e região, muitas delas próximas do convívio familiar dos estudantes-autores, o que faz da escrita um gesto de afeto ao próximo.

Os textos selecionados comportam imagens e personagens do mundo do trabalho, que em meio às adversidades da vida conseguem evocar um horizonte de possibilidades para quem busca uma vida com sentido. Captando com sensibilidade as minúcias laboriosas do cotidiano de cada personagem, os(as) jovens autores(as) nos convidam a visitar as memórias pessoais e coletivas que dão o tom das mais diversas profissões e ofícios. Vidas narradas de personagens profundamente humanos, que nos ensinam valores e atitudes indispensáveis pelo modo como vivenciam as contradições sociais do trabalho e as condições de suas próprias limitações.

O dilema das prostitutas e transexuais que vivem e sobrevivem nas calçadas e becos noturnos da cidade; a valsa imaginada pelo autor do texto, que dá ritmo às batidas repetitivas do antigo ferreiro; as resignações e relações afetivas do coveiro com o cemitério onde trabalha há anos; o solitário escritor-inventor que cria cenários a partir do alto da sua janela; o cotidiano arriscado de um trabalhador quileiro da região de Aceguá; a emoção remota que a parteira deixa transparecer ao realizar o milagre do seu trabalho; a fé e a generosidade da benzedeira Doninha; a dimensão trágica e heroica que se manifesta no trabalho de um bombeiro… São tantas histórias e lições de vida que não cabem neste texto. Todas elas falam da vida como trabalho e do trabalho como vida. Falam, sobretudo, do trabalho que não se deixa capturar pelo emprego formal, pois está associado à manifestação de um valor pessoal e afetivo. O trabalho com sentido em meio a uma vida de incertezas. O trabalho como espaço do devir e não apenas como produto de uma relação alienante, mesmo que ele esteja, quase sempre, situado numa estrutura de exploração e expropriação. A vivência subjetiva do trabalho ganha aqui um destaque superior ao modo como o trabalho se realiza no plano objetivo das relações sociais.

A cidade de Bagé é o palco onde as ações do enredo se desenvolvem. No entanto, apesar do cenário ser local, as narrativas sugerem também indícios do drama universal vivido pelos sujeitos do trabalho. A universalidade das histórias ganha relevância porque a forma de contá-las é figurativa, o que pode levar o leitor a se identificar com cada uma delas e, ao mesmo tempo, indagar se são histórias reais ou imaginadas, suprimindo assim os limites entre a realidade e a ficção. A escrita assume dimensões subjetivas importantes de modo que a imaginação passa a orientar o processo narrativo. A imaginação como matriz do ato criativo, como faculdade que permite revelar a veracidade do irreal ao transpor a objetividade desencantada dos “fatos sociais”.

O sentido pedagógico pensado nesse projeto está situado justamente nesse limiar entre o real e o imaginário. Estamos trabalhando com uma sociologia que se preocupa mais em mostrar as minúcias do labor diário do que explicar, julgando, suas causas e contradições. É o olhar que descreve os acontecimentos habituais em torno do trabalho para amplificar nossa percepção sobre os mesmos. Uma perspectiva, portanto, que investe com prioridade nas figurações do trabalho e nas formas sensíveis da vida cotidiana. Podemos falar, assim, de uma experiência de ensino que tem como finalidade a aprendizagem de um olhar fértil sobre os fenômenos sociais, um olhar atento aos pequenos gestos que são quase imperceptíveis ao observador apressado. Essa atenção imaginante está fundamentada na aproximação intuitiva entre o sujeito que narra e o objeto narrado, devido ao envolvimento dos estudantes que, em alguns momentos, se colocam também como participantes das histórias contadas.

Por fim, antes de mergulharmos nas figurações, memórias e afetos do mundo do trabalho, é imprescindível dizer que a organização desta revista surgiu de uma parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB) e foi acompanhada e sustentada por pessoas valiosas que, de uma forma ou de outra, foram corresponsáveis pela inspiração e finalização deste material. Menciono, em primeiro lugar, a Prof.ª Clara Dornelles, coordenadora do LAB, que gentilmente abraçou a ideia de publicar este trabalho realizado por alunos do IFSul, com recursos do projeto de extensão da Unipampa, Escrita colaborativa e experimental no Jornal Universitário do Pampa (PROEXT-MEC). Em segundo lugar, meus agradecimentos especiais à jornalista Giuliana Bruni por espalhar a magia do jornalismo literário em oficinas realizadas no LAB e em outros espaços da cidade, como no IFSul, universidades e escolas. Graças ao trabalho que ela realiza, em colaboração com o jornalista Felipe Laud, em projetos como o Pessoas de Bagé (Facebook) e nas oficinas voltadas para a escrita criativa de não-ficção, é possível pensar na literatura como substrato rico para o aprendizado e o exercício do olhar sociológico na escola.

[1] Projeto de ensino com o qual viemos desenvolvendo, desde 2011, trabalhos que apresentam em textos e imagens a diversidade das manifestações sociais e culturais da cidade de Bagé.

Fotos do lançamento, na Livraria Café & Prosa

Figura 2 - Autores e organizador da revista durante lançamento - Foto Giuliana Bruni

Autores e organizador da revista durante lançamento

Figura 3- Coordenadora do LAB, professora Clara Dornelles ao lado do coordenador e organizador da revista, professor Lisandro Moura - Foto Giuliana Bruni

Coordenadora do LAB, prof. Clara Dornelles e Lisandro Moura.

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Tambor, Canção e Poesia, com Mimmo Ferreira e Richard Serraria

Por Lisandro Moura e Matheus Leite*

E o tambor bate para não se deixar esquecer

(O Grande Tambor)

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique), Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)  Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique),
Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)
Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

              No início do documentário O Grande Tambor, realizado pelo Coletivo Catarse, vemos a seguinte mensagem: “Elo de ancestralidade com a Mãe África, ritual de permanência, objeto de eternidade: o sopapo, enquanto instrumento profano, exige apenas mãos para ser tocado. Enquanto instrumento sagrado, exige apenas devoção das mesmas mãos que faziam a carne de sal e que ainda hoje fazem o carnaval.”

            O filme reúne diversos artistas, mestres da cultura ancestral e pesquisadores dos ritmos afro-gaúchos, e nos convida a um passeio pela memória do povo sul-rio-grandense através das raízes do tambor de sopapo. Memória essa que foi invisibilizada tanto pela mentalidade colonialista como pela cultura tradicionalista do gaúcho canônico, que fizeram do homem e da mulher negra personagens secundários na formação identitária do estado. Visto pela ótima descolonizada, o tambor é um instrumento musical que agrega em si um misto de sagrado e profano, uma confluência entre trabalho e devoção.

             Atualmente, é possível ter acesso a uma história diferente do nosso território, devido ao legado deixado por Mestre Giba-Giba e Mestre Baptista, e aos trabalhos de difusão realizados por Mestre Chico, Mestre Paraquedas, Dona Sirlei e tantos outros Griôs presentes no sul do Brasil. Grande parte desses profetas das sonoridades negras e mensageiros da oralidade africana reside nas cidades de Pelotas e Porto Alegre. Preciosidades que estão tão próximas de Bagé e ainda assim tão pouco conhecidas entre nós.

           Entretanto, é possível observar o resgate da cultura negra em projetos realizados por Richard Serraria e Mimmo Ferreira, que nesta semana estarão em Bagé para apresentar a arte e a poesia dos ritmos afro-brasileiros num projeto integrado, denominado Tambor, Canção e Poesia. Os músicos compreenderam o significado sagrado da batida do tambor, atenderam ao chamado dos antigos e tomaram para si a missão de dar novos significados à música popular cantada pelos povos de terreiros, misturando ritmos como ijexás e toques de batuque com milongas e samba rocks. Uma mistura de elementos que vai da tradição à contemporaneidade, dando um tom mais universal à música afro-brasileira.

            Os músicos estarão na cidade nos dias 19 e 20 de agosto, realizando oficinas de percussão para alunos do curso de Música da Unipampa, palestras musicadas para professores da rede municipal, estadual e federal e um show de encerramento na Sociedade Uruguaia. Uma oportunidade única de revivermos a história do Rio Grande do Sul através de ritmos batucados, canções e composições próprias dos artistas. Temos diante de nós, portanto, uma chance de repensarmos os caminhos da mitologia gaúcha na cidade, reconhecendo os saberes, fazeres e crenças da população negra como chave para a compreensão da nossa origem mais profunda.

         Mais do que a apresentação musical, o evento propõe fomentar espaços de reflexão e formação a partir da educação musical. Por isso é de extrema importância que os estudantes de música da Unipampa e professores comprometidos com a educação intercultural estejam presentes e se sintam partícipes dessa nova história. Pensar e praticar a música nas universidades e nas escolas da educação básica é, sobretudo, lançar olhar sobre os diferentes códigos culturais do nosso país, os múltiplos “brasis”.  É também pensar a diversidade musical brasileira com seus diferentes significados, usos e funções estabelecidos pelo grande código de cada sociedade – as culturas.

            A música, por estar conectada à etnicidade, ideologia, religião, sexualidade, pode aumentar nossa compreensão do mundo. Ela pode ajudar a compreender quem somos e, assim, nos comunicar com os outros. Em tempos de mundialização da cultura, as fronteiras territoriais e cognitivas já não são mais limitadoras quando pensamos em diversidade cultural. Os signos constituídos musicalmente pelos indivíduos, nos diversos contextos, muitas vezes intermediados pelas novas tecnologias, deflagram este fenômeno global. A cultura encontra-se em trânsito permanente nesta trama de sentidos presentes no cotidiano de diversas sociedades. Daí a importância da educação musical como espaço de abertura à diversidade das expressões culturais, como espaço de revalorização das comunidades locais e dos grupos étnicos, levando sempre em conta o papel determinante do indivíduo e de suas necessidades.

            Os artistas convidados virão acompanhados dos grandes personagens desta nova história: o Tambor de Sopapo, com seu grave inconfundível; e o trio percussivo do candombe, os tambores piano, repique e chico, de origem afro-uruguaia. A musicalidade que ressoa desses instrumentos atualiza o tempo primordial que nos remete à forma de organização de comunidades que foram escravizadas. Por isso, serve como exemplo de resistência eficaz contra a colonização do espírito. Costuma-se dizer que o toque grave dos tambores, além de reproduzir metaforicamente a batida do coração, tem poder de evocar os deuses iorubas e bantos. Que este evento, realizado pelo Ponto de Cultura Pampa Sem Fronteiras em parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB e Junipampa), Smed e tantos outros parceiros, seja um convite ao transe coletivo entoado pelos tambores. Que a cidade de Bagé, tão hesitante em reconhecer o papel decisivo da cultura negra, desde a charqueada de Santa Thereza até os dias atuais, se mantenha povoada por deuses africanos que renovam cotidianamente as nossas motivações. Que nossos ouvidos atendam ao chamado e compreendam o recado dos tambores. E que sejamos todos um poema de Oliveira Silveira:

“Que o chocalho

Baralhe

meus olhos,

adjá

badale

meus tímpanos,

meu corpo rode rode,

contas arrodeiem,

agê me agite a alma

e esse batuque

dos atabaques

vá me deixando tatibitate.”

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Diálogos culturais na cidade

por Lisandro Moura

            Desde que iniciamos as atividades dos “Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação”, no âmbito do projeto de extensão do Laboratório de Produção Textual – LAB/Unipampa (PROEXT-MEC), coordenado pela profª. Clara Dornelles, viemos trabalhando para reafirmar a importância formativa da diversidade cultural e do trabalho coletivo na produção de conteúdo para o Jornal Universitário do Pampa – o Junipampa. Alunos, bolsistas e colaboradores internos e externos atuam em várias frentes para espalhar o propósito original do Jornal, que é a escrita colaborativa em ambiente virtual. De março até o momento, já realizamos oficinas, minicursos e palestras sobre diversos temas: jornalismo literário, fotografia, audiovisual, estéticas e culturas contemporâneas, saída de campo à aldeia indígena, midialivrismo e cultura colaborativa. Até o final do ano, outros projetos já estão previstos, dentre eles a possível vinda de Richard Serraria, numa parceria com o Ponto de Cultura “Pampa sem Fronteiras”. Todos esses eventos e temas convergem para o propósito comum de aliar a escrita experimental aos contextos culturais da sua produção. O objetivo, portanto, é criar na cidade espaços para a socialização de experiências na arte e na cultura, que dialoguem com a comunicação e a educação e contemplem os diferentes grupos culturais da cidade.

            Quando aceitei o convite da professora Clara para coordenar as ações dos “Diálogos”, junto com a amiga Mariane Rocha, aluna bolsista da Unipampa, estava ciente de que o desafio seria grande, uma vez que o cenário cultural em Bagé se caracteriza por uma dinâmica ainda bastante competitiva, com grupos sociais que não têm o costume de costurar ações em conjunto, mesmo trabalhando com temas afins. Como é possível que uma cidade tão positivamente provinciana, cujas relações interpessoais são tão próximas, produza ações tão esparsas e desconectadas? Costuma-se dizer que, em Bagé, as pessoas sabem da vida de todo mundo. O estranho é que, quando algum evento cultural acontece, pouca gente comparece, pouca gente fica sabendo, o que da a entender que cada grupo está atuando separadamente, sem buscar conexões e parcerias. A comunicação pessoal funciona para algumas coisas e para outras não. Cito como exemplo o Atelier Coletivo, um espaço cultural de shows que há oito anos funciona como resistência e contraponto ao monopólio das festas consagradas da cidade. Mas agora, infelizmente, fechará suas portas para a nossa indiferença, a indiferença dos bageenses. O Atelier Coletivo era o lugar por onde passava a vanguarda dos movimentos musicais do Brasil, Uruguai e Argentina. Músicos que costumam lotar auditórios, anfiteatros e parques públicos por onde passam, eram recebidos em Bagé, no Atelier, por cinco ou dez pessoas no máximo!  Há algo de estranho na rainha da fronteira.

            Soma-se a isso o fato de que o espaço da produção artística e cultural local parece estar reservado a algumas poucas pessoas que se autodenominam “especialistas”. São pessoas que têm aversão a tudo o que vem de fora e, mesmo assim, são autorizadas, tanto pelo clã ao qual pertencem quanto pelas mídias locais que as legitimam, para falar em nome da arte com propriedade duvidosa, muitas vezes herdada do passado saudosista, do peso do sobrenome e do grau das relações de compadrio. Ou então, aqueles que se utilizam da instituição a qual pertencem para fazer contraponto às outras, deixando transparecer uma mentalidade cartesiana e competitiva, que separa a cidade por grupos de interesses institucionais excludentes, como se as instituições devessem se preocupar mais com disputas de mercado e de público do que com os benefícios sociais, educacionais, políticos e econômicos para a população local.

            Por outro lado, mesmo que o cenário não seja tão favorável para a integração cultural, o desafio de atuar junto à equipe do LAB é estimulante para quem quer estar numa cidade minimamente habitável, em que o tédio costumeiro ceda lugar ao prazer de viver. A sabedoria trágica de Nietzsche nos serve de exemplo: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. Tenho a impressão de que Bagé sempre foi mais criticada do que realmente vivida. Apesar de todas as objeções que se possa fazer, “o melhor lugar para viver é aqui e agora”, como defendem os nowtópicos. Nossa aldeia é maior que a grande cidade. E já que aqui vivemos, o melhor a fazer não é fugir pra outro lugar, como muitos gostariam de fazer, mas sim reinventar o espaço a partir dos desejos e sonhos da população. O que é bem diferente de pensar a cidade unicamente voltada para os negócios empresariais e econômicos que geram competição, destruição do patrimônio e conflitos de poder.

            Ao contrário da postura individualista, apostamos em um diálogo efetivo com setores, instituições e agentes culturais, sabendo que quanto mais diversificado é o contexto da produção cultural, mais ricas serão as ações e mais eficazes os impactos sociais. Porque, por mais que tenhamos como objetivo ofertar oficinas, cursos e palestras para e com a comunidade, a nossa preocupação mesmo é com os processos, com os contextos formativos de cada atividade, e não tanto com os seus resultados. O nosso interesse, nos Diálogos, é criar novas dinâmicas para o fazer cultural na cidade, em que a parceria, a cocriação e a partilha dos resultados tenham mais importância do que as disputas hierárquicas e conflitos de egos.

            Há muita gente disposta a isso, sem dúvida. Tem surgido na cidade, nos últimos anos, desde a vinda de instituições educacionais que renovaram as formas de sociabilidade na cidade, novas organizações não convencionais engajadas em iniciativas locais que preconizam o “faça você mesmo”. Inteligentemente não esperam pelo calendário cultural oficial do poder público e, assim, congregam segmentos “refugiados” da normalidade institucional. Grupos de dança na periferia, skatistas, rappers, funkeiros, oficineiros, cineastas experimentais, fotógrafos amadores, hackers, ciclistas, pontos de cultura, coletivo feminista Atena, coletivo contra o aumento da passagem (Roletaço), grupos políticos e culturais como o Levante Popular da Juventude, o Juntos!, empreendimentos solidários, agricultura orgânica sustentável, hortas urbanas, músicos de garagem, atores de fundo de quintal, batuqueiros, gaiteiros, ayahuasqueiros, festivais de cinema, de música, de teatro e de dança, jornalistas que criam projetos para além de seus empregos formais, mídias independentes e colaborativas, web jornais, rádio web, projetos solidários práticos etc.

            As experiências são infinitas e estão muito longe de serem mapeadas por completo. O que falta é uma articulação em rede, por afinidades de projetos e sonhos em comum. No momento, o importante é que esses grupos estão, cada um a seu modo, pensando a cultura na sua dimensão simbólica e comunitária, para além de megaeventos empresariais de entretenimento, como as festas e shows com camarotes vip segregacionistas. A cultura tem papel central na produção de subjetividades e na geração de novas formas de viver a urbe. É a matéria-prima da sociedade que valoriza o conhecimento como instância instauradora de múltiplos sentidos para nossa existência, aqui e agora.

Fonte: Publicado originalmente em Junipampa

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O monstro da Panela do Candal

Filme-carta realizado pelos alunos do IFSul Câmpus Bagé, nas oficinas do projeto “Inventar com a Diferença: cinema e direitos humanos”, projeto coordenado pela UFF-RJ, em parceria com Unipampa-Bagé e IFSul-Bagé.. O curta é uma adaptação do conto do escritor bageense Pedro Wayne, extraído do seu livro “A Lagoa da Música”, e narra a lenda do mostro da Panela do Candal pelo olhar dos jovens. Levando em conta o tempo presente, o sentido que sobressai a partir dos fragmentos do conto e da lenda, está na importância de cuidarmos do Arroio Bagé, pois as águas que ainda hoje abrigam o monstro caolho já não são mais as mesmas… Recebeu o Prêmio Memória & Patrimônio na categoria Lendas e Mitos, do 6º Festival Internacional de Cinema da Fronteira.

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Rincão do Inferno, uma terra mítica

 

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Rincão do Inferno, uma terra mítica

Por Lisandro Moura

Publicado originalmente na revista O Viés

A região do Rincão do Inferno constitui-se como um dos quatro núcleos populacionais do Quilombo de Palmas, junto com Rincão dos Alves, Campo do Ourique e Rincão da Pedreira. O território foi reconhecido como região quilombola a partir do laudo sócio-histórico e antropológico realizado por pesquisadores(as) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Localiza-se na microrregião de Palmas, distrito de Bagé, quase divisa com Caçapava do Sul, Lavras do Sul e Santana da Boa Vista. Ao todo, segundo Janaina Lobo e Bertussi (2010, p.207), cerca de quarenta famílias residem no Quilombo de Palmas, “fortemente articuladas através de relações de parentesco e pela manutenção secular de trocas simbólicas, desde o período pós-abolição”.

Dentre essas famílias, somente uma vive no núcleo Rincão do Inferno: Dona Onélia, Seu Alcíbio e Seu Nidinho, que passam os dias e noites acompanhadas do porco de estimação chamado Baby, dos cachorros Alambique, Vigilante, Urso e Miúcha, dentre outros animais. Uma grande e bela família.

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O Rincão do Inferno é, hoje, considerado um lugar de forte potencial turístico para a população gaúcha e motivo de muitas reportagens originadas de relatos admirados de viajantes aventureiros que adentram aos mistérios e à beleza da paisagem intocada. O Rincão é um paraíso disfarçado de inferno.

Mas a tradição do lugar nos ensina que, aquele que está disposto a se aventurar nas terras quilombolas do Rincão, precisa manter uma postura de peregrino. A peregrinação representa a ideia de que é preciso caminhar para ver/conhecer. O peregrino faz do seu próprio caminho o objeto principal da viagem. O turista também caminha, mas algumas vezes superficialmente. O psicólogo Yves de La Taille (2009) caracteriza muito bem esses dois tipos de viajantes. Segundo ele, o turista viaja por recreação, e seu tempo de viagem é um tempo programado. Não costuma dar atenção aos detalhes, aos objetos, e tampouco se importa com a história, as condições sociais, naturais e culturais do local. Assim, limita sua viagem ao prazer e conforto dos espaços de consumo já destinados a ele. Já o peregrino é diferente: viaja porque quer buscar alguma coisa, uma identidade ou uma experiência de vida.

Viver a experiência e participar do cotidiano simples dos moradores do Rincão é também uma forma de conhecer e aprender. A vivência no Rincão nos ensina a partilha da vida, do alimento, das histórias que se transformam em sabedoria popular. A convivência com a natureza e com os animais transforma-se numa mística, marcada pelo acento ritualístico, presente praticamente em todo o cotidiano dos moradores. Os rituais promovem uma espécie de retorno ao tempo da unicidade primordial, quando os humanos e a natureza viviam em constante comunicação e interação.

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Dentre as situações presentes no Rincão, os causos ocupam um papel importante, como os da cobra papa-pinto, o do lobisomem, o do tesouro enterrado, a história das bordolezas… Dentre essas, certamente a da cobra papa-pinto é a que causa mais espanto nos visitantes peregrinos. Certa época, quando amamentava uma de suas filhas, Onélia tinha o costume de pegar no sono. Acontecia que vinha sempre uma cobra sugar o leite do seu peito, colocando o rabo na boca da criança, sem que Onélia percebesse. Certo dia, Alcíbio viu a cena e deu uma “machadada” no meio da serpente, que jorrou leite para todo lado (!).

Não se pode compreender adequadamente a sociabilidade de um determinado espaço sem estas situações imperceptíveis, aparentemente triviais, que compõem o imaginário do Rincão. Pois é a relação dos moradores com o lugar, relação entre natureza e cultura, que da solidez à formação comunitária e que serve de base para a sobrevivência. A espacialidade quilombola é o elemento importante na constituição da comunidade, pois oferece as condições necessárias para a reprodução do modo de vida do homem e da mulher da tradição.

Além dos causos, provavelmente os visitantes ouvirão também o som das cordas do violão, tocadas com maestria por Alcíbio. Porque o Rincão soa como música, soa com a música. As cordas sonoras evocam imagens-lembranças de um passado arcaico, ainda presente nas nossas representações. O timbre da viola é agudo e forte, as cordas parecem distorcer o som, dão o aspecto chiado como se estivéssemos ouvindo o rádio ao longe, o antigo rádio. Traz-nos lembranças da vida no campo, a vida que nunca vivemos, mas desejamos viver. Alcíbio não se cansa de dizer aos visitantes: “eu aprendi a tocar violão ouvindo radinho de pilha. Meu sonho era ter um rádio de tomada pra poder tirar as músicas do rádio.” Depois da chegada da luz elétrica, em 2006, finalmente ele virou um cantor de amplo repertório.

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As histórias de vida contadas por Alcíbio, Nidinho e Onélia revelam um ambiente complexo e ambíguo, onde há lugar tanto para os problemas de estrutura local (por exemplo, a distância em relação à cidade, a dificuldade de atendimento médico em caso de urgência, estrada precária etc.) quanto para questões afetivas, de solidariedade, bastante presentes na personalidade e no modo de vida dessa pequena população.

Os moradores demonstram uma inegável riqueza existencial, uma bondade extrema difícil de ver em qualquer lugar. Bondade essa que, paradoxalmente, convive com as adversidades da vida. Porque a vida não é fácil para os moradores do Rincão. Mas, estranhamente, o que chama a atenção nas nossas visitas e nos relatos de viajantes, é que da precariedade das condições materiais pode surgir os grandes ensinamentos sobre o amor, a alegria e a compaixão. Todos que lá estiveram sabem muito bem disso.

É justamente esse imaginário afetivo e solidamente arraigado que assegura a prosperidade coletiva das terras no Quilombo de Palmas. A demarcação do território, para os quilombolas, vai muito além daquela legitimada pela institucionalidade do Estado, e transcende as áreas reconhecidas formalmente como “propriedade privada”. Pois trata-se de uma “terra mítica”, um lugar espiritualmente relevante que remete à memória dos antepassados. O reconhecimento vem da experiência vivida num passado mítico que perdura através dos costumes ancestrais e da tradição oral. São, portanto, códigos cosmológicos distintos da razão econômica ou de Estado. Algo que os depositários da fé desenvolvimentista e mercantil não podem compreender e nem aceitar.

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No Rincão estão presentes todos os elementos fundamentais da natureza: ar, água, terra e fogo. O Rio Camaquã traz repouso, fluidez e bem-estar para todos os que contemplam seu espelho. O fogo de chão está sempre acesso, à espera de um bom papo e de um assado. E o vento que balança as árvores traz lembranças dos que se foram. Mas talvez o Rincão seja mais bem simbolizado pelo elemento terra, por seu caráter de resistência. A terra-território assegura um povo no seu lugar de origem e de destino. O apego à terra é típico da cultura do gaúcho, já estudado e constatado por Barbosa Lessa (2008). O solo do Rincão é duro, forte, rochoso. A terra é resistente, assim também como as pessoas que nela vivem. É ela que liga o ser ao mundo, que nos enraíza e nos convida a viver o mundo na sua intimidade. Acompanhar os moradores do Rincão nas suas tarefas diárias, por exemplo, é um convite ao enraizamento à terra.

Portanto, o Quilombo enquanto terra-território é arquétipo dos refúgios coletivos. É no Quilombo que as pessoas encontram a familiaridade afetiva, o repouso, a tradição e a amizade que tornam a vida admissível, apesar das adversidades. É a reapresentação figurativa da resistência negra, símbolo do anseio pela liberdade. Os sonhos de liberdade ainda são frequentes no Rincão do Inferno, seja na mata, na casa, no rio, no canto do galo ou no voo dos sabiás… O Rincão é a dialética do inferno e do paraíso. Nele, o passado ecoa através da paisagem natural. Para perceber isso, há que ser peregrino.

Referências

LESSA, Barbosa. Nativismo, um fenômeno social gaúcho. 2ª. ed. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 2008.

LOBO, Janaína; BERTUSSI, Mayra. O Legal e o Local: relações de poder, conflitos e a titulação da terra na comunidade quilombola de Palmas/Bagé RS. Caderno de Debates Nova Cartografia Social – Territórios quilombolas e Conflitos, 2010.

LA TAILLE, Yves de. Formação ética: do tédio ao respeito de si. Porto Alegre: Artmed, 2009.

 

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ColetivArte Sul – Bagé

Nasce um novo movimento cultural em Bagé: o Coletivarte Sul.

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Jornal Minuano, 5 de março de 2012.

A noite do último sábado teve clima de poesia, labaredas de fogo, malabarismo, estátua humana que interagia com o público, música latina e um objetivo: espalhar na cidade o Manifesto Cultural do grupo Coletivarte Sul. A declamação poética seguida da apresentação teatral com direito a fogo e malabares, despertou a atenção do público que esperava pelo show da banda da cidade de Pelotas, “Pimenta Buena”, no espaço cultural Atelier Coletivo. O clima era de manifesto, poesia, emoção e música.

O farmacêutico Diego Soares, de 30 anos, que pela primeira vez foi no espaço Atelier achou a iniciativa muito importante para Bagé. “Cheguei para assistir o espetáculo do Pimenta Buena, e me surpreendi com o que foi apresentado.Não conhecia o grupo, achei bem trabalhado a apresentação do manifesto. Acredito que a cidade precise mesmo desse tipo de ativismo para movimentar mais o cenário da cultura local”, diz.

A decoração com cartazes, com frases apelativas ao movimento, manequins vestidos de roupas recicláveis, frases poéticas, contribuiu para incrementar o clima manifesto no cenário. O show pirotécnico esteve a cargo dos bailarinos Roger Borges e Tai Fernandes. “Ensaiamos diversas vezes o número para nos certificarmos de que o público iria sentir a emoção do manifesto através do fogo. Fogo que transmite o espírito, a expressão da vida, o amor, a paixão, a união das chamas. Assim como está a união coletiva”, conta a atriz e bailarina Tai Fernandes.

Após as apresentações teatrais e poéticas, o público pode curtir o e dançar ao som da banda.

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COLETIVARTE: O MANIFESTO

Bagé hoje é palco de diversas formas de expressão artística que se entrelaçam e dialogam. É o ambiente propício para unirmos esforços em prol do desenvolvimento de novas possibilidades. Acompanhamos acontecimentos ímpares nos últimos anos – a comemoração dos duzentos anos deste Município, o sucesso do FIMP (Festival Internacional de Música do Pampa), a terceira edição do Festival de Cinema da Fronteira, festivais de teatro, dança e música – e, a partir dessas ações inspiradoras, promovemos a criação de eventos que se comunicam entre si, inaugurando novos espaços de cultura e lazer para o grande público.

Nós do COLETIVARTE somos um grupo de cidadãos interessados em unir idéias e projetos com o objetivo de incentivar esta cena cultural através de shows, oficinas, intervenções artísticas de livre expressão, e também aprender na prática novas formas colaborativas para a criação da arte, compromissada com o “informal” cotidiano e sua potência produtiva. Utilizamos o espaço do Atelier Coletivo, consagrado por sua irreverência e experimentação, orientados à unificação de pessoas dispostas a trabalhar (n)o meio em que (con)vivemos em busca de matéria-prima para o surgimento de obras inventivas e intervenções diversas.

O nome COLETIVARTE expressa nosso objetivo por um livre coletivo entre artistas, junto aos quais as diferentes artes se comunicam de forma cooperativa e autogestionária, expandindo nossas experiências e conhecimentos de forma autêntica, espontânea e organizada. Nosso símbolo é o favo de mel porque acreditamos na força colaborativa para produzir a arte. Como abelhas nos unimos para produzir nosso néctar e nessa colméia a arte reina soberana!

O movimento pretende ser, acima de tudo, uma experiência coletiva que se abastece nas fontes da sabedoria popular e na mistura entre tradição e contemporaneidade, passado e futuro, local e global, Bagé e mundo. Primamos por tudo aquilo que diz respeito à dimensão comunitária da vida artística que leve em consideração as raízes da cultura pampeana de fronteira aliada às mais novas tendências tecnológicas da cultura brasileira e mundial. Além disso, o COLETIVARTE se expressa na “mística do estar-junto”, uma vivência que prioriza o vínculo solidário entre as pessoas, a união colaborativa, enfim, um sentimento de pertença difícil de se encontrar nas instituições sociais e políticas. Porque o COLETIVARTE é da ordem do instituinte (daquilo que nasce de baixo, que brota da terra) e não do instituído (referente ao “status quo”, ao poder, à competição e à moral). Aqui a moral cede lugar à ética-estética. A política através da poética! No lugar do poder, a imaginação!

Neste sentido, propomos o fundamento da partilha com a comunidade, da exposição de meios e técnicas para o entretenimento culturalmente consciente, abordando arte e cultura em todas as suas ramificações. O COLETIVARTE convida todos a participar, compartilhar e COLETIVAR! COLETIVE-SE!

Bagé, 03 de março de 2012.

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III Festival de Cinema da Fronteira – Bagé RS

Tem início no dia 10 de dezembro deste ano o III Festival de Cinema da Fronteira, em Bagé (RS). A cidade prepara-se para um grande espetáculo cultural nos seus 200 anos, recebendo pessoas de várias regiões do Brasil e de países visinhos. O cinema vem ganhando espaço na agenda das instituições políticas e educacionais de Bagé. O Festival é idealizado pela Secretaria Municipal de Cultura e conta com o apoio das principais instituições de ensino da cidade (Unipampa, IFSul e Urcamp), que vem percebendo o potencial da sétima arte como instrumento de conhecimento das raízes culturais da região e de desenvolvimento local. O fortalecimento das redes de cultura e arte na cidade, especialmente da produção de filmes, passa, necessariamente, pela inserção de novas perspectivas econômicas fundadas no trabalho coletivo e solidário em substituição às velhas práticas competitivas e excludentes. Fator de coesão, de construção de laços entre habitantes da cidade, o cinema contribui para a valorização da memória coletiva, estimula a diversidade cultural, além, é claro, de promover a inclusão social. Espera-se que o Festival de Cinema da Fronteira, na sua terceira edição, cada vez mais gigante, possa mexer com corações e mentes dos bageenses durante uma semana de atividades intensas. Confira a programação completa:

Curadoria:

Aurora Miranda Leão – auroraleao@hotmail.com

(51) 9715.2578 e (85) 8793.8767

Comissão Artísita: Carmem Barros, Eliane Pacheco, Fabiane Lázzaris, Lisandro Moura, Sandra Camerini, Vera Medeiros e Zeca Brito.

Juri: Boca Migotto, Frederico Ruas, Mariana Xavier e Virgínia Simone.

PROGRAMAÇÃO DO III FESTIVAL de CINEMA DA FRONTEIRA

BAGÉ, DE 10 A 17 DE DEZEMBRO

SMC – Secretaria Municipal de Cultura

CHST – Centro Histórico Vila de Santa Thereza

CCPW – Centro Cultural Pedro Wayne

LCA – Largo do Centro Administrativo 

MDDSMuseu Dom Diogo de Souza

10/12 – sábado

18h – ABERTURA OFICIAL – BOSQUE SMC

19h – ESPETÁCULO MITOLOGIAS DO CLÃ – GRUPO FALOS & STERCUS (RS)

21h – SHOW DA BANDA VIAJANTES DO ÉDEN – BOSQUE SMC

22h – EXIBIÇÃO DO FILME ANAHY DE LAS MISIONES, DE SÉRGIO SILVA  (co-produção Brasil-Argentina) – CINE 7

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

11/12 – domingo

14h – MOSTRA YAYA VERNIERI – ASILOS: Vila Vicentina/ Auta Gomes

14h – EXIBIÇÃO DO LONGAMETRAGEM ANTES QUE O MUNDO ACABE  (RS), DE ANA LUIZA AZEVEDO – CHST

16h – MOSTRA YAYA VERNIERI –  CHST (CENTRO DO IDOSO)

17h – PROJETO DANÇA NOS BAIRROS –  CHST

17h30  MOSTRA BINACIONAL  – CHST

18h – COQUETEL –  ESPAÇO MADRE MARIA / VOLTA AO MUNDO NAS CORDAS DO VIOLÃO – EDEMAR SANTOS – CHST

18h – EXIBIÇÃO DE NETTO PERDE SUA ALMA (RS), DE TABAJARA RUAS E BETO SOUZA – CINE 7

20h – BÊNÇÃO AOS ARTISTAS DA SÉTIMA ARTE – MISSA CELEBRADA PELO BISPO DOM GILIO FELÍCIO, ACOMPANHADO DO CORAL AUXILIADORA E DO TENOR FLÁVIO LEITE – CATEDRAL SÃO SEBASTIÃO

21h30 – EXIBIÇÃO DO FILME EL BAÑO DEL PAPA (UR), DE CÉSAR CHARLONE E ENRIQUE FERNANDÉZ – Projeto RODACINE – PRAÇA DA CATEDRAL

23h45 – FESTA NO ESPAÇO MADRE MARIA COM EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO O ANJO PRETO (ES) DE GUI CASTOR

12/12 – segunda-feira

15h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA – CHST

17h – EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO LUTZENBERGER: FOR EVER GAIA (RS), DE FRANK COE e OTTO GUERRA, PARTICIPAÇÃO DE ALEXANDRE FREITAS, DA FUNDAÇÃO GAIA, 52min –  CHST

18h – DEBATE COM GRUPO ECOARTE (ecologia e cultura)

19h – MOSTRA BINACIONAL  – CHST

20h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA  – APRESENTAÇÃO DA REALIZADORA ADRIANA NIEMEYER – UNIPAMPA

20h – EXIBIÇÃO DO FILME DEU PRA TI ANOS 70 (RS), DE GIBA ASSIS BRASIL E NELSON NADOTTI – CINE 7

21h – EXIBIÇÃO DO FILME OLGA, DE JAYME MONJARDIM – PROJETO RODACINE NA PRAÇA RIO BRANCO – PRAÇA DE DESPORTOS     

22h – EXIBIÇÃO DE INVERNO (RS), LONGA DE ESTREIA DE CARLOS GERBASE – CHST

 

13/12 – terça-feira

15h – EXIBIÇÃO DO FILME O CAMINHO DE KANDAHAR (IRÃ), DE MOHSEN MAKHMALBAF – CHST

16h – DEBATE FRONTEIRAS POLITICAS –  FILÓSOFO LUIS RUBIRA  (UFPEL)  – CHST

18h – MOSTRA BINACIONAL – CHST

18h – EXIBIÇÃO DO FILME NOITE DE SÃO JOÃO (RS), DE SÉRGIO SILVA – CINE 7

19h30 – EXIBIÇÃO DE O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, DE ROGÉRIO SGANZERLA –  CHST

21h – HOMENAGEM À ATRIZ HELENA IGNEZCHST

21h – EXIBIÇÃO DO FILME EM TEU NOME (RS), DE PAULO NASCIMENTO – Projeto RODACINE – PRAÇA HABITAR BRASIL

21h30 – EXIBIÇÃO DO FILME LUZ NAS TREVAS, DE HELENA IGNÊZCHST

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

14/12 – quarta-feira

14h – MESA REDONDA CULTURA SEM FRONTEIRAS –  Salão Nobre da Prefeitura Municipal

17h – MOSTRA BINACIONAL  – CHST

18h30 – CAMERATA DE FLAUTAS DO IMBA – CHST

19h – HOMENAGEM A JEAN-CLAUDE BERNADETCHST

20h – PROJETO DANÇA NOS BAIRROS & ACADEMIA BIOCENTER – PRAÇA DE DESPORTOS

21h – EXIBIÇÃO DO FILME HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES (RS), DE JORGE FURTADO –projeto RODACINE  – PRAÇA DE DESPORTOS

22h – EXIBIÇÃO DO FILME EM TEU NOME (RS), DE PAULO NASCIMENTO – CINE 7       

22h – EXIBIÇÃO DE A ÚLTIMA ESTRADA DA PRAIA(RS), DE FABIANO DE SOUZA – CHST

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

15/12 – quinta-feira

15h – SESSÃO ESPECIAL – EXIBIÇÃO DO FILME ANJO PRETO (ES), DE GUI CASTOR – CHST

18h – MOSTRA BINACIONAL – CHST

20h – EXIBIÇÃO DO FILME O GURI (RS), DE ZECA BRITO – CHST

22h – EXIBIÇÃO DO FILME CONTOS GAUCHESCOS (RS), DE HENRIQUE DE FREITAS LIMA – PRESENÇA DO DIRETOR – CINE 7

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

15/12 – quinta-feira – Aceguá

15h – EXIBIÇÃO DO FILME EL BARRIO DE LOS JUDIOS (UR), DE GONZALO RODRÍGUEZ FABREGAS – AUDITÓRIO MUNICIPAL

16h – RODA DE SAMBA NA LINHA IMAGINÁRIA – GRUPO MESA DE BAR

17h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA  – AUDITÓRIO MUNICIPAL

19h – EXIBIÇÃO DO FILME EL CÍRCULO (UR), DE JOSÉ PEDRO CHARLO E ALDO GARAYAUDITÓRIO MUNICIPAL

21h – EXIBIÇÃO DO FILME NETTO PERDE SUA ALMA (RS), DE TABAJARA RUAS – PRESENÇA DO DIRETOR – Projeto RODACINE – LINHA IMAGINÁRIA

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

16/12 – sexta-feira

14h – EXIBIÇÃO DO FILME GIGANTE (UR), DE ADRIAN BINIEZ  – CHST

16h – EXIBIÇÃO DO FILME DANÚBIO (RS), DE HENRIQUE DE FREITAS LIMA – CHST

17h – DANÇA DE RUA COM O GRUPO STREET BLACK MOVIMENT – CHST

18h – EXIBIÇÃO DE WHISKY (UR), DE JUAN PABLO REBELLA E PABLO STOLL  – CHST

20h – MOSTRA REGIONAL – BAGÉ 200 ANOS – CHST

23h – FESTA CELEBRAÇÃO AO URUGUAI / BIG BAND (IMBA) e BANDA DEDOCHES – CHST

24h – SESSÃO BANDIDA – EXIBIÇÃO DO FILME O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, DE ROGÉRIO SGANZERLA –  CHST

 

16/12 – sexta-feira – Candiota

17h – EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO LUTZENBERGER: FOR EVER GAIA (RS), DE FRANK COE e OTTO GUERRA, PARTICIPAÇÃO DE ALEXANDRE FREITAS, DA FUNDAÇÃO GAIA, 52min –   SALÃO SINDICATO DOS MINEIROS

21h – EXIBIÇÃO DO FILME CONTOS GAUCHESCOS (RS), DE HENRIQUE DE FREITAS LIMA  –  Projeto RODACINE

17/12 – sábado

15h – ENTRE ARTE E CIÊNCIA: OS USOS DO AUDIOVISUAL NA PESQUISA EM CIÊNCIAS HUMANAS – CONFERÊNCIA COM LUCIANA HARTMANN (UNB) – CCPW

18h – EXIBIÇÃO DO FILME JAMÁS LEÍ A ONETTI (UR), DE PABLO DOTTA   – CINE 7

21h – SOLENIDADE DE PREMIAÇÃO – MDDS

GRUPO DE DANÇA DO IMBA – A SAGA DOS COLONIZADORES

MESTRES DE CERIMÔNIA INGRA LIBERATO e LEONARDO MACHADO

NÚMEROS MUSICAIS COM LORENA VIEIRA & IVON LEO MONTEIRO – MDDS

21h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA  – LCA

22h – SHOW  LISANDRO AMARAL E GRUPO – LCA

23h – FESTA DE CONGRAÇAMENTO  –  ATELIER COLETIVO

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III Festival de Cinema da Fronteira – BAGÉ RS

AURORA DE CINEMA BLOG – http://auroradecinema.wordpress.com/2011/11/25/setima-arte-vai-aportar-em-bage-a-partir-do-dia-10/

Em suas duas primeiras edições, 2009 e 2010, o Festival de Cinema da Fronteira foi praticamente uma experiência desbravadora. Realizado com vontade e determinação pelos voluntários do centro Histórico Vila de Santa Thereza, pessoas interessadas em propagar a arte do cinema e que tinham por objetivo resgatar os laços históricos da cidade com a Sétima Arte, além de valorizar a produção regional estabelecendo diálogos com o cinema contemporâneo e latino.

Em 2011, celebrando os 200 anos de Bagé, o Festival assume novas dimensões. Sendo realizado pela Secretaria de Cultura da Prefeitura e produzido pela Primeiro Corte Produções.

O crítico e ensaísta Jean-Claude Bernadet ministará seminário e será homeageado

A ideia é tornar a região um pólo cinematográfico, já que Bagé é uma referência de produção artística, iniciada com o lendário grupo de Bagé, nas artes visuais. Atualmente, a cidade abriga quatro universidades, as quais, juntamente com a Secretaria de Cultura,  vem fomentando a produção regional por meio de ações prévias ao Festival.

O Programa Cinema da Fronteira, idealizado pela Secretaria de Cultura de Bagé, vem oferecendo oficinas gratuitas de audiovisual, fomentando ações cineclubistas e mostras informativas em escolas e espaços públicos. A região foi uma das locações do premiado filme uruguaio O Banheiro do Papa e, atualmente, é a locação principal de O Tempo e o Vento, novo longa-metragem de Jayme Monjardim. Para tanto, está sendo construída a cidade cenográfica de Santa Fé, contando com mão-de-obra local. Os realizadores do Festival de Cinema da Fronteira acreditam no cinema como alternativa de desenvolvimento econômico e social para a região.

Duas mostras competitivas – Bagé 200 anos e Mostra Binacional – e três mostras não competitivas – Yaya Vernieri, Festin Bagé – Mostra da Lusofonia, e Mostra de Longas-Metragens, compõem o III Festival de Cinema da Fronteira que será uma janela de exibição da produção regional, brasileira e uruguaia, criando um espaço de confluência cultural na região da campanha.

Com o empenho e dedicação com os quais a Prefeitura de Bagé e todas as entidades ligadas ao evento estão consagrando ao Festival, e ainda através de uma cuidadosa curadoria, estima-se uma profícua contribuição deste evento para a formação do olhar e consolidação do enorme manancial artístico-cultural bageense, além do salutar exercício prático de aprendizado cinematográfico através da realização de seminários, debates e intercâmbios culturais.

Paralelamente a esses objetivos, o festival busca a integração dos municípios de Candiota, Hulha Negra e Aceguá, cidades ligadas por laços afetivos e históricos. A produção cinematográfica uruguaia também será contemplada em mostra especial, visando à integração entre os povos da fronteira sul.

As questões de fronteira estarão permeando as diversas discussões e debates, sejam elas políticas, étnicas, religiosas, e, sobretudo, as fronteiras da linguagem.

A curadoria do Festival é assinada pela jornalista e realizadora Aurora Miranda Leão, contando com a colaboração de uma comissão artística formada por Carmem Barros, Eliane Pacheco, Fabiane Lázzaris, Lisandro Moura, Sandra Camerini, Vera Medeiros e Zeca Brito, artistas de Bagé.  No júri de seleção da mostra competitiva Binacional, os realizadores gaúchos Boca Migotto, Frederico Ruas, Mariana Xavier e Virgínia Simone. Ao todo, foram inscritos mais de 120 filmes.

Além das mostras, o festival apresenta uma programação paralela envolvendo shows, performance do grupo Falos e Stercus, apresentações ao ar livre, gastronomia e ações sócio-ambientais, estas  um dos carros-chefe do evento. Para a abertura, o tenor Flávio Leite irá cantar, ao lado do Coral Auxiliadora, a belíssima Missa Crioula de Ariel Ramirez, conduzida pelo bispo Dom Gilio Felicio.

Em 2011, Bagé, conhecida como Rainha da Fronteira por sua localização geográfica estratégica nas demarcações territoriais brasileiras, completa 200 anos de fundação. Para assinalar a celebração, a Prefeitura vem firmando parceria com diversas instituições, unindo-se à comunidade de modo a marcar indelevelmente esta passagem de tempo. O objetivo maior do III Festival de Cinema da Fronteira é cunhar a marca do Cinema na história presente da bicentenária Bagé.

O III Festival de Cinema da Fronteira é uma realização da Prefeitura Municipal de Bagé – Secretaria Municipal de Cultura, com patrocínio do Banrisul e Supermercados Peruzzo, apoio institucional da Unipampa, IFSul e Urcamp, e produção da Primeiro Corte Produções.

  • A lista de selecionados do Festival deve ser divulgada na próxima segunda-feira.

Fonte: Aurora de Cinema Blog: http://auroradecinema.wordpress.com/2011/11/25/setima-arte-vai-aportar-em-bage-a-partir-do-dia-10/

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Cinema e Educação em Debate + Oficina de documentário com Isaac Chueke

Oficina de Filme Documentário com Isaac Chueke (RJ)

De 26 a 30 de setembro, no Campus do IFSul

Horário: das 9h às 12h e das 14 às 17h

             Antecipando as atividades do III Festival de Cinema da Fronteira, o IFSul e a Secretaria Municipal de Cultura trazem a Bagé o diretor de cinema Isaac Chueke, que fará uma oficina sobre a produção de filmes documentários. Isaac é formado em jornalismo na PUC-RJ, e atua na área de cinema e vídeo desde 1989 como diretor, roteirista, editor e fotógrafo. Isaac produziu e dirigiu duas séries de documentários exibidas no Canal Brasil, chamadas “Conversa Fiada“.

            Nestes filmes, Isaac retrata com bom humor a manifestação oral dos moradores de diversas cidades brasileiras, que vivenciam as ruas de maneira espontânea e profundamente vinculada às suas necessidades práticas. Uma verdadeira teia de acontecimentos pitorescos protagonizados por figuras populares tipicamente urbanas.

            Ao final da Oficina, os participantes produzirão dois filmes de curta duração sobre aspectos sociais e culturais da cidade de Bagé. Os filmes produzidos serão inscritos no III Festival de Cinema da Fronteira, que acontecerá em novembro, em Bagé.

Cinema e Educação em Debate

27 e 28 de setembro, às 19h no auditório do IFSul

Aproveitando a presença do diretor carioca, Isaac Chueke, e a série de oficinas cinematográficas que estão acontecendo em Bagé, oferecidas pela Secretaria de Cultura, o IFSul, em parceria com Unipampa, Secretaria de Educação e Secretaria de Cultura, está organizando um evento sobre as relações entre cinema e educação. A ideia é refletirmos sobre práticas pedagógicas a partir do uso e da produção de filmes na escola, evidenciando a importância de qualificarmos o trabalho com o cinema na sala de aula.

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IFSul-Bagé, uma escola em construção

Não foi por acaso que decidi sair de Porto Alegre e voltar para Bagé, cidade que considero meu chão, meu pago, apesar de nela não ter nascido. Mas é neste rincão que guardo minha memória afetiva, meus primeiros amigos e amores, onde vivi minha infância e adolescência, sempre na rua, correndo atrás dos cuscos, andando de carrinho de lomba aos arredores da rodoviária, tocando a campainha das casas pra fugir correndo, brincando de polícia e ladrão, em que eu era sempre o ladrão…

Decidi fazer o concurso para professor de Sociologia do IFSul, no Campus de Bagé. Passei e decidi aceitar a vaga, não por falta de opção, mas porque tenho devaneios. Quero ajudar a construir a escola com que sempre sonhei e, através dela, reencantar a educação e reinventar a cidade. Pode parecer utopia, e é. Mas para que serve a utopia? Respondo com as palavras de Galeano: “serve para eu não deixar de caminhar”. A utopia está no horizonte, e o futuro precisa ser construído.

O prédio do IFSul em Bagé já está em processo de conclusão. A inauguração do campus está prevista para o mês de março. Desde o ano passado todos nós servidores (professores e técnico-administrativos), estamos instalados no Colégio São Pedro, onde estudei quando criança, e conclui o ensino fundamental. Coincidência? Eu diria que não:  “todo encontro casual é um encontro marcado”, como dizia o mestre inspirador deste blog, Julio Cortázar. Mais uma vez, não estou aqui por acaso. Pretendo fazer parte desta escola em construção, fazer dela um lugar onde eu possa me sentir bem com os outros, onde eu possa desenvolver minhas potencialidades humanas, e defender meus princípios, mesmo na conflituosa diversidade de ações e pontos de vista que coexistem em qualquer processo coletivo de construção do futuro. A vida é uma constante batalha, cujos únicos perdedores são os indiferentes.

Sendo assim, a partir de hoje o leitor e a leitora deste blog vão encontrar muitos textos sobre os dilemas da educação, do ensino da Sociologia nas escolas, bem como as vivências e os projetos futuros no IFSul e na cidade de Bagé.

Pra começar, quero compartilhar um textinho singelo e muito bonito que o chefe do Dpto de Ensino do IFSul escreveu sobre a construção da escola, no blog http://nasombradoumbu.blogspot.com/.

No livro “Viagem a Portugal”, José Saramago, em um de seus infindáveis parágrafos, imagina-se uma pedra no piso de uma igrejinha no interior de Portugal, mais de 400 anos de história, imagina tudo o que a pedra viu e pensou…imagino nosso Umbu, certamente mais jovem que a pedra, mas quanta coisa deve ter visto, quanta coisa ele ainda verá…à sua sombra construiremos uma escola, sonhada e desejada pelo povo de Bagé e região, da escolha do terreno até o início da sua construção foram 27 meses de luta, uma boa luta, que agora inicia novo round, rumo a “mais bela escola da rede federal”, e o nosso amigo Umbu, por enquanto, abriga as bicicletas dos operários…” (Gabriel Bruno)

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Histórias Curtas filmado em Bagé

Divulgo texto que escrevi sobre a exibição de “O Sabiá”, dirigido por Zeca Brito, apresentado em HISTÓRIAS CURTAS no sábado passado na RBS TV. O texto foi publicado no Bastidores da TV e no Jornal Minuano da cidade de Bagé.

 

Onélia e Alcíbio

O Sabiá e os destinos da cidade

por Lisandro Moura, professor de Sociologia do IFSul

O curta-metragem bageense O Sabiá, exibido no programa Histórias Curtas da RBS TV, surge como oportunidade para pensarmos um modelo alternativo de desenvolvimento para a cidade. O filme, talvez, não tenha sido feito com esta intenção, mas depois que ele chega aos olhos dos espectadores, o diretor não tem mais o controle do destino e do significado de sua obra. Podemos fazer da imagem aquilo que compreendemos dela, podemos construir significados múltiplos a partir de uma referência única. Através das narrativas visuais, podemos até reconstruir nossa própria história.

É o que acontece quando ouvimos as estórias e vemos os gestos do senhor Alcíbio e da Dona Onélia, personagens reais do filme dirigido por Zeca Brito. O que nos surpreende na oralidade e nas expressões corporais desses remanescentes de quilombos não é a simplicidade da vida cotidiana, mas a memória social que ali se torna visível: a cultura, os ritos, os ritmos, a fala, enfim, um saber-fazer que foi praticamente apagado pela história oficial, pela crença numa sociedade puramente racional e instrumental que nega a dimensão simbólica e mágica da experiência humana. Por muito tempo pensou-se que o termo “desenvolvimento” era simplesmente sinônimo de crescimento econômico, ideia esta que reduzia a complexidade da vida aos valores de mercado.

Na contramão dessa concepção está o artigo 68 das Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988, que assegura aos remanescentes das comunidades dos quilombos a propriedade definitiva das terras ocupadas, cabendo ao Estado a emissão dos títulos. O termo quilombo assume novos significados, diferentes da concepção arcaica produzida pelo discurso escravista. Os Quilombolas expressam a resistência étnica e política por meio da reprodução dos seus modos de vida singulares e da reivindicação de um território próprio. A organização social desses grupos e as técnicas produtivas tradicionais estão vinculadas aos seus valores culturais e, por isso, não podem estar ameaçadas pelo modelo hegemônico de desenvolvimento.

Outra perspectiva de futuro, não associada ao simples fator econômico, busca olhar para a sociedade em sua totalidade. Busca reconhecer que existem outras formas de produzir, de viver e de interagir com o outro, e que isso também deve ser levado em conta nas decisões políticas e econômicas. São formas de desenvolvimento ajustadas às necessidades do presente e sustentadas por uma cultura solidária, participativa e coletiva.

No dia da Consciência Negra, o filme O Sabiá resgata com sensibilidade a memória social da cidade de Bagé, e coloca em cena novos atores e sujeitos políticos, novos heróis, permitindo à população bageense reconstruir sua história e ampliar o horizonte de expectativas.

Fonte: clicrbs – Bastidores da TV

http://wp.clicrbs.com.br/bastidoresdatv/2010/11/25/sobre-a-exibicao-de-o-sabia-em-historias-curtas/?topo=48,1,1,,,48

 

Assista ao trailer do filme:

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