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Fotobiografia

Fotobiografia (1)

Minha avó, Iracy Lucas de Lima, completou 88 anos de idade no dia 18 de agosto de 2017. Como forma de parabenizá-la e agradecer pela existência dela neste mundo, montei uma fotobiografia inspirado no método da Fabiana Bruno (Antropologia da Unicamp), com algumas adaptações. O trabalho foi motivado e avaliado pela prof. Claudia Turra, na disciplina Antropologia e Imagem do PPG de Antropologia da UFPel.

Iracy Lucas de Lima nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, no dia 18 de agosto de 1929. É conhecida por todos como Dona Negrinha, apelido que ganhou logo quando nasceu. Filha de João Inácio Lucas de Oliveira e Dalmácia Porcelis Lucas, casou-se com Fausto Gonçalves de Lima aos 18 anos de idade, com quem teve quatro filhos: João Felipe, Loiracy, Estela e Rosilene. Possui uma sabedoria de vida ancorada na na simplicidade, na preservação dos costumes dos antepassados e num inteligente senso de humor que serve de lição a todos. É considerada a raiz portadora da memória afetiva e religiosa da família. Tem nove netos: Lisandro, Caroline, Daniel, Daniele, Vinícius, Rodrigo, Thaisa, Melissa e Alexandre. E um bisneto, o Luis Fernando. Prestes a completar 88 anos, tem vontade de estudar e aprender a usar a Internet. Adora cantar nos almoços de família e pronunciar palavras de trás pra frente.

A seguir, a partir da seleção, montagem e organização de fotografias de acervo pessoal, ela contará um pouco da sua longa história de vida.

FOTOBIOGRAFIA

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Vídeo-Poema ao Mar

Poesia visual: memórias, sonhos, poemas e imagens no fundo do mar. Por Lisandro Moura

 

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Cosmologia guarani

por Lisandro Moura

Texto publicado na Revista Colabore: articulando saberes, n. 2. Bagé: Universidade Federal do Pampa, set 2016. p. 22 – 24.

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Itacoatiara, pintura rupestre astronômica Tupi-Guarani, no Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil – Créditos Wikimedia Commons

A palavra “cosmologia” tem sido usada com frequência no campo das Ciências Humanas, notadamente na Antropologia, para designar o estudo da visão de mundo como totalidade existencial de um povo, sua relação com o universo, com o cosmo. Denota, assim, uma relação diferenciada que a cultura de um povo, enquanto sistema simbólico de organização social, estabelece com a organização material e espiritual da vida, uma ética planetária que remete ao sentimento de unidade com o universo. Talvez seja difícil pensar o conhecimento da vida humana em termos cosmológicos, tendo em vista o longo processo de racionalização das ações humanas a que estamos submetidos desde o Iluminismo. A aposta no progresso linear e inconsequente se expressa naquilo que Max Weber (2004) chamou de desencantamento do mundo, ou seja, o momento da modernidade marcado pela separação entre cultura e natureza, entre corpo e espírito, momento em que as pessoas são desenraizadas do seu passado primordial, no qual a imagem do mundo era predominantemente mágica e mitológica, e os sentimentos acerca do universo não separavam o ser humano do seu chão e do seu cosmos.

Falar em cosmovisão implica levar em conta as narrativas míticas que justificam a existência de uma ordem social (cosmo) contra os efeitos da incerteza (caos), sendo a principal delas os mitos cosmogônicos, ou seja, os mitos de criação do universo. A mitologia, enquanto pensamento simbólico, não é uma prerrogativa somente de povos e comunidades tradicionais, como as populações indígenas. Nós, modernos e ocidentais, também temos os nossos mitos, que ora justificam nosso modo de vida e ora nos impulsionam para mudanças no nosso modo de existência. A diferença é que muitos de nós acreditamos no discurso de que a ciência representa a única forma válida de conhecimento, e todo o tipo de saber popular não passa de uma falsa consciência do mundo. O mito para nós está frequentemente associado à mentira ou à superstição. É assim que o programa do desencantamento tentou reduzir a ordem cósmica e mitológica à ordem histórica e política.  Entretanto, a História, a Ciência e a Tecnologia, que equivalem ao totem das sociedades modernas, não passam de um microcosmo de uma cosmologia maior que é o mito. É o mito que explica a ciência e não o contrário, como nos lembra a narrativa mitológica de Prometeu, por exemplo.

A cultura dos povos ameríndios da nação Guarani, que habitam as regiões da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil (RS, SC e PR), exemplificam muito bem a indissociabilidade entre natureza e cultura, corpo e ama, terra e céu. É possível afirmar que todo o universo guarani é conduzido pelos céus e todo sistema de crenças, enquanto cosmovisão de mundo, segue as intimações celestes, como evidenciam os estudos de Cadogan, (1992), Fonseca (2007), Afonso (2006). Essa afirmação é válida também para a comunidade mbyá-guarani da Tekoá Koenju (Aldeia Alvorecer), localizada em São Miguel das Missões. Nas saídas de campo que realizo todo o ano, desde 2011, com meus alunos do IFSul, observo o quanto as ações cotidianas estão relacionadas a uma ordem cosmológica diversa da nossa, pois os mbyá dão muita importância aos fenômenos celestes antes de tomar qualquer decisão que envolva o coletivo. Isso porque o ethos do guarani, denominado de Nandereko ou Teko, equivale à máxima “viver como os antigos”, que para eles pode ser traduzida como “modo de ser verdadeiro” (CADOGAN, 1992). As plantações, as colheitas, as decisões políticas (cosmopolítica) o trabalho com artesanato, a organização social e os os ensinamentos dos karaí obedecem aos eventos míticos estruturados como mediação simbólica entre a terra e o céu. Dentre os principais eventos míticos está a busca da Terra sem Males ou Terra Celestial (Yvy Marãey), motivação vital de todo Guarani. Desse modo, podemos dizer que as mensagens vindas do céu se entrelaçam com as vivências do cotidiano. Por exemplo, o nome que as crianças Guarani recebem do xamã (Karaí), através da mediação dos deuses, e que representa a sua “alma-palavra”, está associado aos quatro pontos cardeais e aos ancestrais (clãs) associados ao sol (kuaray), ao relâmpago (werá), ao mar e oceano (Pará), às flores (Poty), ao universo (Yva) etc. Assim também funciona a construção da casa de rezas, denominada de Opy, cuja porta de entrada precisa estar posicionada na direção leste, exatamente onde cai o primeiro raio de sol do dia.

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As crianças mbyá-guarani recebem nomes associados a elementos da natureza. Foto: Gabriela Avello. Aldeia Koenju.

Um fato curioso desse aspecto da cultura Mbyá-Guarani foi narrado pelo documentário Bicicletas de Nhanderú, dirigido pelos cineastas indígenas Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, moradores de Koenju. O filme mostra o cotidiano dos Mbya-Guarani da aldeia Koenju, em São Miguel das Missões. Na primeira cena do filme, um raio cai próximo às moradias e atinge parte de uma árvore. Algo que poderia ser visto como um fenômeno natural, uma simples descarga elétrica, é visto pela comunidade como algo mais, como prenúncio dos deuses, que dará sentido ao desenrolar da trama fílmica dali em diante. O fato mostra o quanto a comunidade orienta suas práticas a partir de referenciais mais amplos. Na ocasião, os moradores da aldeia explicam o acontecimento como sendo um gesto de descontentamento de Tupã, deus mensageiro dos Guarani, que se manifesta na forma de trovão. Assim que a chuva passa, os moradores se dirigem ao local do raio e apanham o galho espesso que caiu da árvore devido à força do relâmpago. Observam o galho demoradamente, com muita atenção, querendo encontrar ali algum tipo de resposta. “Será que matou o espírito dela?”, pergunta o cinegrafista indígena. “Não sei”, responde o companheiro, “acho que ele [Tupã] só quis dar um susto. Não foi um espírito ruim, ele só estava bravo.” Após, o rapaz que está filmando pega o pedaço da árvore e leva até a anciã (cuña karaí) para que ela faça um colocar para seu filho. “Quando caiu aquele raio, eu senti uma dor nas costas”, diz ela, demonstrando o quanto seu corpo funciona também como força cósmica, pois está conectado ao universo. O Karaí, liderança espiritual da comunidade, professa suas belas-palavras sobre o ocorrido: “Os Tupã são assim… Eles não vêm só para trazer chuva, vêm também para nos proteger. Eles não caminham em vão… Pois nós não vemos os seres que nos fazem mal. Somente eles podem ver.”

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Imagem de Bicicletas de Nhanderú. (Fonte: videonasaldeias.org.br)

Esse breve relato demonstra, portanto, o quanto o pensamento Guarani possui uma concepção unitária do cosmo, não separando, portanto, o mito da realidade, o real do imaginário, uma vez que o mito opera justamente como modelo exemplar da conduta humana (ELIADE, 2010). A cultura guarani contem em si o saber que caracteriza o universo cosmológico de praticamente todas as sociedades tradicionais, cuja característica foi bem compreendida por Gilbert Durand (2008, p. 49): “Para o pensamento tradicional, não existe nada indiferente na natureza: cada situação na dimensão remete a um aviso no tempo; cada lugar e cada tempo são os sinais de um destino.”

Referências

AFONSO, G.B., Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil. (Edição Especial: Etnoastronomia), v. 14, p. 46-55, 2006.

CADOGAN, Leon. Ayvu rapita: textos míticos de los mbyá-guarani del Guairá. Biblioteca Paraguaya de Antropologia, 1992.

DURAND, Gilbert. Ciência do homem e tradição: novo espírito antropológico. São Paulo: TRIOM, 2008.

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Coleção Debates. São Paulo: Perspectiva, 2013.

FONSECA, O.; PINTO, S.; JURBERG, C. Mitos e constelações indígenas, confeccionando um planetário de mão. X Reunión de la Red de Popularización de la Ciencia y la Tecnología en América Latina y el Caribe (RED POP – UNESCO) y IV Taller “Ciencia, Comunicación y Sociedad” San José, Costa Rica, 9 al 11 de mayo, 2007.

WEBER, Max. A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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Pampa: metáfora visual

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Foto: Lisandro Moura

Pampa sem fronteiras: metáfora visual e liminaridade cultural

Dia 21/01/17 – às 19h30 – no Clube de Cultura – Porto Alegre.

Programação do Fronteiras Culturais/Fronteras Culturales – Fórum Social das Resistências

A força que a imagem do pampa exprime orienta o fazer cultural na região fronteiriça, criando um vínculo fundamental entre as pessoas e o seu contexto de referência. Nas minhas errâncias por este pago, tenho buscado transformar a imensidão horizontal do pampa, que caracteriza a fronteira com o Uruguai, em metáfora visual e matriz epistemológica do meu trabalho como professor-pesquisador e como agente (inter)cultural. Pensar a fronteira como espaço metafórico pressupõe dar a ela um conteúdo político imaginado fora dos parâmetros da racionalidade usual que associa os lugares unicamente à ordem do controle e do instituído. Com as produções audiovisuais e musicais do Ponto de Cultura Pampa sem Fronteiras, localizado no município de Bagé-RS, procuramos evidenciar essa qualidade imaginária e metafórica das relações na fronteira e pensar até que ponto ela pode ser aceita como legítima pela gestão estatal na formulação de políticas públicas na região. A fronteira nos afeta por ser um espaço simbólico desterritorializado, que escapa às tentativas de colonização devido à sua condição liminar. É o ‘entre-lugar” dos saberes compartilhados e das possibilidades culturais criativas associadas às diferentes formas de viver a vida. O simbolismo do pampa é, portanto, um convite à reflexão sobre a vastidão que existe neste canto do mundo.

Lisandro Moura
Prof. de Sociologia do IFSul – Campus Bagé
Doutorando em Antropologia (UFPel-Leppais Lab)
Ponto de Cultura Pampa sem Fronteiras

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A inadequação do palhaço

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Desenho de Gabriela Weber

Por Lisandro Moura

Publicado originalmente em Junipampa

Você tem coragem de viver alegremente a sua vida, mesmo que ela não seja um produto da sua vontade? Dificilmente, não é? Grande parte de nós hesitaríamos em reafirmar nossa vida tal como ela tem sido vivida atualmente. Somos seres fugidios, por isso recusamos a atitude de entrega e optamos pela segurança dos valores moralizantes, que sugerem alguma promessa de salvação. Negamos o mundo porque gostaríamos que ele fosse diferente, e assim deixamos de viver. Criamos uma imensa carcaça de proteção, máscaras e ideologias para agir conforme as expectativas que julgamos necessárias e corretas, pelo simples fato de que elas nos confortam.

O palhaço é uma das poucas figuras capazes de afirmar a existência diante de uma situação trágica, sem os dogmas do politicamente correto e seu avesso. Ele está sujeito a retaliações por assumir sua carência a tal ponto de abraçar o ridículo que há em si, fazendo dele uma grande piada. O palhaço corresponde a nossa sombra, tal como descrita na psicologia profunda de Carl Jung, ou seja, corresponde aos aspectos reprimidos pela nossa consciência. A máscara do palhaço revela aquilo que rejeitamos em nós mesmos, aquilo que não se encaixa em nossos princípios, sejam eles bons ou maus. Aliás, o palhaço só existe para embaralhar nossas certezas sobre o bem e o mal. Ele não age pela lógica unilateral do isso ou aquilo, do justo ou injusto, ele é um ser completo e complexo que abriga em si todas as virtudes e imperfeições. Daí nosso desconforto diante das suas brincadeiras um tanto perversas. A ação do palhaço provoca em nós uma vergonha alheia, um choque perceptivo, porque ele traz à tona o que em nós já está domesticado. Ao agir com o corpo e não com a razão, ele exterioriza os impulsos selvagens da natureza humana, que podem chocar as pessoas de bons sentimentos.

É insuportável demais reconhecer que nada podemos fazer contra nós mesmos e contra o mundo. Nada pode causar mais desconforto do que a descoberta da nossa própria imperfeição. Para driblar nossa impotência erigimos um mundo agressivamente artificial, em contraste com o ciclo natural das coisas, só com a força da nossa espada que a tudo transforma. E assim pousamos de deuses ou heróis, por não admitirmos nossa pobreza, mesmo sabendo que ela é, em realidade, a nossa maior riqueza, conforme revela a sabedoria contida nas leis herméticas: “O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima“.

Por isso, a arte do palhaço não é a da ação que transforma, mas a do ato que instaura. O ato é uma decisão instantânea dotada de originalidade, enquanto que a ação é sempre uma decisão objetiva e esquemática, como nos lembra Roupnel (citado por Bachelard, em A intuição do instante). Ao atuar sob a lógica orgânica do corpo e dos gestos pulsionais, o palhaço está contestando a supremacia da consciência e dando vazão aos fatores que ele mesmo não controla, e que provêm da potência do seu inconsciente, não só pessoal, mas, sobretudo, coletivo e transpessoal. É aí que se encontra o perigo que muitos procuram evitar: o perigo da imprevisibilidade das ações humanas.

Já está suficientemente demonstrado que a história do processo civilizador e educacional é a história da repressão dos impulsos criativos do corpo[1], uma vez que ele corresponde ao lugar onde habita nossa memória mais remota, aquela que precisa ser contida. É a história da tentativa fracassada de ajustar o ser à ordem institucional e moral do “contrato social”. É assim que o arquétipo do selvagem vai sendo, aos poucos, subtraído pelo anseio desesperado de controlarmos as incertezas e os mistérios da vida. Eis, então, que nos deparamos com uma sociedade empobrecida simbolicamente, que minou a experiência mágica do mundo em detrimento do “cálculo racional com relação a fins”, como diria Max Weber. O desencantamento do mundo é, justamente, a operação racional que provocou o descentramento entre o ser humano e o seu cosmos, a separação entre natureza e cultura, entre corpo e espírito. Por isso não é difícil imaginar o quanto o riso, o sonho e a magia são vistos com certa desconfiança pela consciência desperta e objetiva.

A experiência lúdica propiciada pelo riso é reveladora da saúde mental e espiritual do homo symbolicus. Muitas vezes, quando estamos diante de um ato cômico, somos defrontados com a vigilância inibidora da nossa consciência repressora e dos princípios socialmente arraigados, que nos impedem de achar graça de tal situação. Logo, o nosso corpo é impedido de entrar em sintonia com o instante por conta de uma racionalidade crítica e sistêmica que entra em jogo para nos distanciar do ato e, assim, produzir reflexões e análises orientadas pelo cogito. Provavelmente, essas reflexões revelarão algo de inaceitável para o meio social, podendo ser um preconceito, uma brincadeira de “mau gosto”, um ato sectário, machista etc. Frutos da operação do pensamento, as análises reflexivas que se utilizam de juízos de valor historicamente datados são o exemplo maior do quanto estamos socialmente condicionados, ou seja, o quanto o indivíduo/pessoa está subtraído perante a razão de Estado, a ponto de reduzir sua capacidade imaginativa e sua potencialidade humana ao contexto histórico e social do que é permitido e proibido dizer e/ou fazer.

O riso provocado pelo palhaço é um canal por onde fluem a embriaguez, o caos e a desordem, tão necessárias para nosso equilíbrio bio-psico-social. Por isso ele é considerado devoto de Dionísio, o deus da imaginação expansiva, do entusiasmo primordial e da ruptura com as convenções sociais. Poderíamos compará-lo também ao Exu da mitologia africana. Observemos a descrição sobre o orixá feita por Pierre Verger[2]:

Exu é um orixá ou um ebora de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente (…). Exu revela-se, talvez, o mais humano dos orixás, nem completamente mau, nem completamente bom.”

Impossível não relacionarmos a figura do palhaço ao arquétipo de Exu. Para ambos, as suas maiores qualidades são os seus defeitos. A incoerência do palhaço desestabiliza nossas certezas. Ficamos sem chão. Por onde ele anda, leva junto o picadeiro, que é seu universo simbólico, a sua egregore, que prepara o terreno para instauração do caos através da brincadeira. A máscara do palhaço é o espelho que reflete a autenticidade do ser.  A ingenuidade do palhaço não permite que ele julgue ou entenda as coisas que faz. Ele atua pela lógica da compreensão e não da explicação. Ele é fluxo contínuo no tempo e no espaço, é entrega constante ao que está posto. É nesse jogo de entrega e abertura ao instante que acontece a subversão do sistema do mundo. A inadequação do palhaço é total, pois ele não se encaixa ao ritmo da sociedade. Não é possível questionar as normas estando apartado delas. O palhaço está sempre aberto ao porvir e seus atos não se enquadram em reflexões sociológicas. A tarefa primordial do palhaço é fazer do ser humano aquilo que ele é, e não fazer do mundo aquilo que ele gostaria que fosse. A lógica do palhaço, portanto, corresponde a uma ordem interna. Algo que soa um tanto incompreensível para quem busca lá fora, na consciência exterior, as razões para fugir, inutilmente, de si e da inevitabilidade do seu próprio fracasso.

[1] A esse respeito, ver o filme Tarja Branca: a revolução que faltava (2014), dirigido por Cacau Rhoden.

[2] VERGER. Orixás: deuses iorubas na África e no Novo Mundo. 6ªed. Salvador: Corrupio, 2002, p. 76.

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15ª Mostra do Filme Etnográfico – RJ

Cinema e Antropologia. Mostra Internacional do Filme Etnográfico no Rio de Janeiro, com a presença dos mais importantes nomes do cinema etnográfico:

Rolf Husmann, diretor do Festival de Gothingan (Alemanha) e do filme “The Professional Foreigner: Asen Balikci and Visual Ethnography”; Nora Bateson, diretora de “An ecology of mind”, sobre as ideias de seu pai, o antropólogo Gregory Bateson; Emmanuel Grimaud, do Centre national de la recherche scientifique (CNRS) e diretor de “Kings of the beetle”; Takumã Kuikuro e Leonardo Sette, diretores de “As hiper mulheres”, premiado em Gramado; Chico Guariba, diretor de “Os Japoneses no Vale do Ribeira”; Rose Satiko, antropóloga da USP e diretora de “Lá do Leste”; Carlos Alberto de Mattos, crítico de cinema; e Joel Pizzini, diretor de “Elogio da graça”.

Site: http://www.mostraetnografica.com.br/

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Ensino de Sociologia na escola – O que é etnocentrismo

Nas minhas aulas de Sociologia costumo trabalhar com os estudantes o pequeno texto abaixo para fazer-lhes compreender o significado do conceito de Etnocentrismo. Os exemplos são muitos, porém acredito que este textinho, extraído do livro introdutório “O que é Etnocentrismo”, de Evandro Guimarães Rocha – da Colação Primeiros Passos – é fundamental e exemplar para se trabalhar em sala de aula, pois nos traz o verdadeiro sentido do conceito. O etnocentrismo, visão de mundo onde nossa própria sociedade é tomada como centro de tudo, passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da nossa própria cultura.

“Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc.; modesto, comprou para si mesmo apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as burocracias inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio.

A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.

Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Levantou-se, deu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez. Era hora de ir. Como que buscando inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio.”

O que não pensaria o índio se visse seus objetos pendurados na parede do escritório do nosso pastor??

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