Nós, ruínas. Vós, terra.

Tava Miri - espiritualizada aldeia de pedra

Tava Miri – espiritualizada aldeia de pedra. Foto: Lisandro Moura

Lisandro Moura

Nos dias 18 e 19 de abril de 2013, os alunos do IFSul Campus Bagé visitaram a Aldeia Alvorecer (Tekoá Koenju) e o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, denominado pelos Mbyá Guarani de Tava Miri (Espiritualizada Aldeia de Pedra). A atividade foi coordenada por mim, prof Lisandro Moura, e pela professora Laura Ferrazza, e constitui-se como momento fundamental do Plano Curricular das disciplinas de Sociologia e História para os alunos(as) do 2º semestre dos cursos de Informática e Agropecuária. Para esta etapa, os alunos estudam noções de cultura e diversidade cultural brasileira, tendo como um dos enfoques a cultura ameríndia no Brasil e, especificamente, no Rio Grande do Sul. Em sala de aula, foram abordados assuntos e conceitos importantes para a formação dos jovens no que diz respeito à predisposição para o diálogo intercultural com os povos nativos: etnocentrismo, relativismo cultural, multiculturalismo, mitologia e cosmovisão indígenas, além do estudo sobre a história dos povos missioneiros. Sendo assim, as saídas de campo à Aldeia Koenju e à Tava Miri são oportunidades únicas de vivenciarmos na prática a história das Reduções Jesuíticas, bem como conhecer de perto o modo de vida das comunidades indígenas, da etnia Mbyá Guarani, cuja história está profundamente vinculada à formação do estado do Rio Grande do Sul.

Esta é a segunda viagem a São Miguel das Missões realizada pelo Campus Bagé, e a nossa intenção é que ela aconteça uma vez ao ano, como ação integrada ao NEABI (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do IFSul Campus Bagé). A justificativa diz respeito a necessidade, cada vez maior, de se fazer cumprir a Lei nº 11.645, de 2008, que alterou o Art. 26A da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira) para estabelecer a obrigatoriedade da inserção da temática da história e cultura dos povos indígenas nos currículos oficiais das redes de ensino públicas e privadas. Deste modo, é papel das Ciências Humanas e áreas afins desconstruir a predominância da visão eurocêntrica e etnocêntrica sobre os povos nativos do sul do Brasil, produtora de preconceitos e discriminações, e trabalhar, assim, a cultura ameríndia na sua complexidade, valorizando a sabedoria popular destes povos e sua importância para a autoformação humana e para a formação da identidade cultural nacional.

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju. Foto: Millena Rodriguez

Mais do que um simples projeto curricular, a viagem foi uma forma de participarmos do drama antigo (e sempre atual) que destruiu toda uma civilização inspirada na justiça, na solidariedade e na vida comunitária. Fomos em busca da Terra sem Mal (Yvy Mara ey), da reconexão com a nossa ancestralidade indígena. Fomos invocar a sabedoria daqueles homens, mulheres e crianças que continuam a pelear em nome da liberdade. Nos juntamos a eles e sentamos à beira do Rio Inhacapetum, bebemos a água da fonte missioneira e pisamos o chão daqueles que nos ensinam a amar e a conviver com a natureza.  A Tekoá, lugar por excelência do viver guarani, não é somente espaço físico, mas é também um território simbólico que nos causou encantamento. O imaginário que envolve a Tekoá Koenju tem poder de influência nas pessoas que lá chegam. “Afetam” nosso estado de espírito e nos fazem ver o mundo por outro ângulo. Por isso, a permanência das populações ameríndias nos seus espaços de origem é de suma importância para a continuidade da vida, para a manutenção dos costumes tradicionais, pois trata-se de uma “terra mítica”, algo que os depositários da fé econômica e desenvolvimentista não podem compreender e nem aceitar.

Foto de Lisandro Moura

Foto: Lisandro Moura

A Tekoá vai muito além da simples tradução de “Aldeia”, pois esta se refere unicamente à noção fundiária, ou seja, áreas reservadas e demarcadas pelo Estado. Quando os juruás (não indígenas) reindicam a terra, é para transformá-la em mercadoria; já para as comunidades tradicionais, sobretudo as indígenas, reivindicar a terra é transformá-la num lugar espiritualmente relevante. A Tekoá é muito mais do que Aldeia, é o espaço da vida, o lugar que permite o modo guarani de estar no mundo.

Percebemos isso logo que chegamos em Koenju. Já pela janela do ônibus avistamos a imagem que poderia ser muito bem representada pela ideia de “paraíso”. A imagem que se formava era a da vida comunitária em harmonia com a natureza. Obviamente que a noção comunitária não está desprovida de conflitos. Dentro do território, há sub-territórios, sub-regiões não tão harmoniosas e de difícil compreensão. Mas o que ficou mesmo foi a imagem das crianças brincando descalças, sorrindo e rolando pelo chão. Em frente às casas, as famílias nos olhavam de longe, com o chimarrão em mãos e o fogo aceso no chão. A música cantada e dançada pelos(as) jovens do Coral Guarani (coordenado pelo indígena Floriano Romeu), o artesanato esculpido por mãos obreiras, as histórias contadas pela Kerexu Rete (Patricia Ferreira), cineasta indígena e professora bilíngue da Escola Estadual Indígena Igíneo Romeu Koenju, ficarão pra sempre guardadas na nossa memória como verdadeiras lições de vida.

Crianças mbyá brincando

Crianças mbyá brincando. Foto: Diovanna da Luz

Não há dúvidas: retornamos da viagem com a força daquelas pessoas e daquele chão. Agora, temos em nós a melodia arquitetônica da Tava Miri e o espírito guerreiro de Sepé Tiaraju, que sobrevive na memória dos vivos. Somos brasileiros, gaúchos, com sangue índio nas veias.

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(des)encontro à beira-mar

O mar é o universo perto de nós.

O mar é o universo perto de nós.

Quando dois seres se encontram numa longa extensão de areia, à beira-mar, sob o som agitado das ondas, está certo que isso não é só o encontro de dois corpos, mas de duas almas em completa comunhão com a natureza e consigo mesmas.

No final da tarde, entre 17h e 18h, eles se encontraram para mais uma peregrinação. Cada um vinha de um lado e combinaram no mesmo ponto 60. “Vi de longe que era tu”, disse a moça, que encantava o rapaz pela forma com que seu corpo comunicava os traços subjetivos da personalidade. O simples andar à beira-mar, postura ereta, passos lentos, cabelos soltos e vestido ao vento, revelam por trás uma mulher segura e independente. O rapaz a observava de longe também, e gostaria de poder ficar escondido só pra demorar o olhar sobre o corpo deslizante. “Ela é uma paisagem toda”, pensava. Ela é livre, nada possui, nem a si mesma. Ela pertence à praia, a praia é toda ela. Quando a moça se aproximou, o rapaz teve a estranha vontade de olhar para o interior das coisas. Olhar para ela é como se ele a visse toda nua.

Ao iniciar a peregrinação em direção ao norte, conversaram sobre o tempo, o espaço, as nuvens, a própria praia, sobre a história do lugar, sobre a justiça brasileira, a situação dos presídios, sobre Luis Eduardo Soares, trocaram ideias sobre o aborto e o ato de ter filhos, família, trabalho… O assunto variava de acordo com a intensidade do vento e do sol. De vez em quando ficavam em silêncio, mas era só o tempo das garças apresentarem sua performance, vangloriosas da habilidade de pescar com o bico. E os dois continuaram a conversa, agora sobre sociologia, psicologia, psicanálise, e entre uma citação e outra, lá estava Wilhelm Reich e Carl Jung. Tinham o costume de mesclar assuntos sem a necessidade de um fio condutor, fazendo referência ora à relação das crianças pequenas com o mar, ora com os mistérios da Mãe Terra. Ele falou também do “sagrado selvagem” e ela do “sagrado feminino”, e concordaram sobre a necessidade do “feminino selvagem”. Concordaram também sobre a existência dos ET’s e, juntos, chegaram a uma conclusão de como eles se manifestam em cada ser, enquanto mais uma garça aterrizava na água.

No final da caminhada os dois sentaram-se de frente para o mar, um ao lado do outro, sob a canga preta que ele carregava, desejoso de poder dividir com ela um espaço pequeno para que, enfim, pudesse ao menos senti-la mais próxima. Ela tinha um beijo acelerado e ansioso pela saliva alheia. Durante a caminhada nenhum dos dois havia bebido água. O beijo fazia jus a toda personalidade dela. O rapaz tem mania de se enamorar por todas as mulheres livres e independentes, que não necessitam dele e nem de ninguém. Depois do beijo rápido, permaneceram em silêncio e se despediram, indo cada um para o seu lado. Nenhum dos dois sequer sabia quando voltariam a se ver novamente, talvez amanhã ou talvez nunca mais. Não importava. Os dois estavam em acordo, em comunhão com a natureza e consigo mesmos, e cientes de que a vida só vale a pena se for feita de encontros.

Narradores de Bagé

O projeto Narradores de Bagé é resultado da pesquisa Cultura Local e Tradição Popular em Bagé, coordenada pelos professores Lisandro Moura (Sociologia) e Rafael Lima (História), do IFSul Campus Bagé. O Projeto faz referência ao filme Narradores de Javé, de Eliane Caffé, e tem como finalidade a construção de narrativas visuais e textuais sobre a cidade de Bagé em conjunto com 24 os estudantes do IFSul. Ao longo do ano de 2012, através de pesquisa bibliográfica e etnográfica, observações participantes e entrevistas, mapeamos e analisamos informações sobre diversos aspectos culturais tradicionais da cidade: carreiras de cavalo, vida cigana, futebol de várzea, atos de fé e comunidades quilombolas. Uma pequena demonstração do trabalho pode ser visualizada neste vídeo de curta duração, elaborado por Luciana Gonçalves e Marcelo Fróes, ambos estudantes do IFSul.

IFSul no 4º Festival Internacional de Cinema da Fronteira

cinema

O IFSul Campus Bagé recebeu na noite do dia 25/11/2012 uma homenagem por apoiar e estimular o IV Festival Internacional de Cinema da Fronteira. O Campus ainda levou o troféu de Menção Honrosa por conta da produção do filme-documentário “Atos de Fé em Bagé“, realizado pelas alunas Luciana Gonçalves, Tamíris Soares, Andressa Lencina, Amanda Thomazi e Natalie Scherer. O trabalho originou-se do projeto de ensino e pesquisa chamado Narradores de Bagé, coordenado pelos Professores Lisandro Moura e Rafael Peter. A produção foi exibida durante a Mostra Regional do Festival, juntamente com outros filmes realizados na cidade de Bagé e região.

O documentário narra uma importante manifestação cultural-religiosa da cidade: a Procissão Luminosa de Nossa Senhora Auxiliadora, também conhecida como “Festa das Velas Votivas”. A procissão é uma prática tradicional que acontece oficialmente desde 1943, sendo parte do patrimônio histórico e cultural da cidade.

Desde 2011 o IFSul vem apostando na formação dos estudantes para o uso das tecnologias audiovisuais, especialmente o cinema, mediante projetos de extensão coordenados pelo professor de Sociologia Lisandro Moura, tais como o Cinema e Educação em Debate, o Cine Matinal, o Narradores de Bagé e o Projeto Cinema e Cultura Indígena, o qual contou com a participação da cineasta da etnia Mbya-Guarani, Patricia Ferreira (Keretxu), que vive na Tekoá Koenju (Aldeia Alvorecer), localizada na região de São Miguel das Missões. Assim, com o apoio do IFSul, foi aberto um espaço na programação do IV Festival Internacional de Cinema da Fronteira para a discussão a respeito de questões étnico-culturais a partir dos filmes dirigidos pela cineasta indígena.

Durante a 4ª edição do Festival, foi lançado também um manifesto pela criação de uma Film Comission, com representação do IFSul, a instalação de um estúdio e laboratórios de áudio e vídeo na Secretaria Municipal de Cultura, a criação de um projeto modelo RodaCine municipal, o fortalecimento do Programa Cinema da Fronteira, da Secretaria de Cultura, a expansão do Festival Internacional de Cinema da Fronteira e a criação de uma curso de Cinema na Unipampa. O manifesto, lançado na presença do Prefeito Dudu Colombo, tem amplo apoio da população e de uma rede extensa de artistas, professores, estudantes, jornalistas, que vêm trabalhando para transformar Bagé numa cidade referência na produção cinematográfica.

Lançamento do Manifesto pelo Cinema em Bagé. Foto de Franciele Teixeira

Lançamento do Manifesto pelo Cinema em Bagé. Foto de Franciele Teixeira

Equipe do Grupo Narradores de Bagé que produziu o vídeo Atos de Fé em Bagé

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Peixe Morto

Recomendo aos cronópios este livro organizado pela colega Fabi Borges, que contém textos sobre a “história da cultura digital brasileira, sobre os festivais de midia como midia tática Brasil, Digitofagia, Submidialogias, sobre questões mais filosóficas como matéria e natureza, ou ainda ecologia digital, tem também reciclagem de computadores, rituais tecnomágicos, sexo na internet, entre outras coisas. É possível folhear o livro e se surpreender com algumas discussões de ponta, ou críticas duras à orgãos financiadores do Brasil, ou ainda um texto poético sobre a primavera Árabe.” Pra ler, é só clicar aí.

http://pt.scribd.com/doc/101040475/Peixe-Morto-Submidialogias

Mais informações em Submidialogias

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Flash Mob de Leitores: um recreio inusitado

por Lisandro Moura

No dia 22 de junho de 2012 aconteceu o primeiro Flash mob no IFSul-Campus Bagé! Assim que se ouviu o sinal para o intervalo, os alunos da tarde foram surpreendidos por leitores espalhados pelo pátio da escola. O recreio se transformou num palco para uma encenação lúdica e educativa promovida pelos alunos do 2º semestre de Informática e previamente planejada durante as aulas de Sociologia. A atividade contou também com a colaboração e participação do prof. Nei, da Filosofia. Todos com um livro em mãos, lendo concentradamente, como se tudo fosse normal. Quem dera. Não é natural encontrar vários alunos e alunas sentados ou deitados na grama do pátio, imersos na leitura. Simplesmente o espaço foi modificado pela ação coletiva inusitada, aparentemente espontânea, que deu um novo significado para a vivência do recreio. Quando os demais alunos saíram de suas salas perceberam algo de estranho, uns comentaram “Olha, que bonito, todos estão lendo! Temos que tirar foto!” Outros, sem entender direito, perguntavam: é aula de que? Aula de leitura? O que ta acontecendo?!” Outros mais chegados, foram logo pegando o seu livrinho pra se juntar a comunidade de leitores, sem perguntar o motivo de tudo aquilo. Simplesmente porque era bonito de ver e, melhor ainda, bonito de fazer. A presença do sol fez com que a leitura-performance ficasse mais prazerosa e a cena ainda mais bela. Como é bonito ver alguém lendo, e mais bonito ainda é ler coletivamente, mesmo que por um curto período de tempo. É assim que funcionam os flash mobs pelo mundo todo. As pessoas se reúnem num determinado local e hora marcada com o intuito de causar espanto no público, mediante encenação ligeira sem objetivos explícitos. Depois todos se dispersam como se nada tivesse acontecido. Nonsense.

 Como todos os flash mobs, este também não surgiu do nada. O flash mob de leitores faz parte de uma proposta de ensino que venho desenvolvendo nos últimos anos. Trata-se de exercitar uma nova forma de aprender sociologia através de vivências coletivas, sempre pensando no objetivo final de produzir o estranhamento e a desnaturalização de fenômenos sociais – que segundo as Orientações Curriculares Nacionais, correspondem à finalidade principal da Sociologia no Ensino Médio. Isso pode ser feito de várias formas: saídas de campo, aulas em formato de assembleia, caminhadas pela cidade, etnografias em comunidades tradicionais ou em ambientes urbanos, rituais imersivos (ou experimentações imersivas: aulas em ambientes específicos, regada a comida, bebida e música) e, sobretudo, na forma de performances coletivas, ao estilo dos flash mobs e smart mobs, que nada mais são do que ações espontâneas, efêmeras e previamente combinadas que visam provocar o estranhamento e a desintitucionalização de práticas cotidianas.

Antes do flash mob de leitores, os alunos foram estimulados a pensar sobre as formas de se ocupar lugares, a pensar sobre as nossas instituições que, muitas vezes, orientam condutas e definem padrões de comportamento. A sociologia nos ajuda a entender o quanto nossas vidas são regidas por “forças invisíveis”, por normas previamente enraizadas no inconsciente coletivo. Essas normas, ao mesmo tempo que são fatores de coesão social e protegem a sociedade contra estados de “anomia”, são também coercitivas e reduzem nossa capacidade de intervenção, limitam a nossa autonomia. Pensar sobre elas já é um convite à transgressão e à subversão de valores socialmente aceitos. Uma vida, para ser vivida em sua plenitude, depende dessa capacidade de transformação dos nossos hábitos rotineiros, de nossa percepção subjetiva e objetiva do espaço, enfim, de nossa maneira de estar presente no presente. Trata-se de pensar sobre nossos ritos.

Os flash mobs produzem deslocamentos de olhar e deslocamentos do corpo, pois os espaços passam a ser imaginados e ocupados de forma pouco convencional. Na verdade, os espaços passam a ser desorganizados e redefinidos. Se nada disso aconteceu, pois muitos alunos sequer notaram a presença estranha de leitores, o que é extremamente preocupante(!), ao menos o flash mob de leitores nos proporcionou um rico momento de leitura ao sol. Estudantes, aguardem as cenas do próximo capítulo!

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Banca de Qualificação – Imaginário e Ensino de Sociologia

Banca de qualificação de mestrado – UFPel/FaE

As horas se alternam entre a responsabilidade de saber e a liberdade das fantasias, esta liberdade fácil demais do homem solitário.  (Gaston Bachelard)

A escrita da minha pesquisa de mestrado vem acompanhada por um dilema saudável que, inclusive, foi ressaltado pela banca de qualificação nesta manhã do dia 11 de junho de 2012. De um lado, deixo a escrita ser guiada pela liberdade das fantasias e dos sonhos que me fazem voar alto. Busco a autonomia do pesquisador-escritor-artista que sabe que a ciência e a docência devem, ao invés de convencer, seduzir. Ser professor é , ao mesmo tempo, ser pesquisador e mágico-feiticeiro. De outro, a certeza de que quanto mais alto o vôo maior é o tombo e que, portanto, devo ter um pé no chão, alicerçado no saber acadêmico – o porto seguro. No equilíbrio entre um e outro, saio da banca acreditando ainda mais de que a subversão acadêmica, tanto pela escrita quanto pelas idéias e propostas metodológicas, é condição necessária para a sobrevivência da inteligência humana e sobrevivência da própria ciência. Digo isso porque a parte do meu trabalho que mais foi elogiada pela competente banca é aquela em que o meu texto corre livre das censuras. Nesta parte, imerso no imaginário do pampa, eu discorro sobre os processos autoformativos que me levaram a pesquisar o que eu estou pesquisando. O cientista é um escritor disfarçado. Portanto, aqueles que querem dar alguma contribuição ao processo de construção do conhecimento precisam buscar referências não só nos manuais do trabalho científico mas na própria vida, muitas vezes ignorada pela ciência. O cientista hoje é apenas um administrador do pensamento enquanto que o escritor é o criador, potencializador de utopias. O cientista enquadra, o escritor desata e desorganiza os dados. O cientista é o eliminador de ruídos. O escritor sabe que são os ruídos que movem a ciência e o pensamento em direção a novos mundos. Eu tenho os dois em mim.

Projeto de mestrado aprovado pela Banca de Qualificação do PPGE-UFPel, às 11h15min do dia 11 de junho de 2012.

Título: Imaginário e Ensino de Sociologia: a “atenção imaginante” nas narrativas visuais sobre a cidade de Bagé

Autor: Lisandro Lucas de Lima Moura

Orintadora: Profª Drª Lúcia Maria Vaz Peres (UFPel/GEPIEM)

Professores(as) componentes da banca:

Prof. Dr. Alexandre Virgínio Assunção (IFSul-Campus Pelotas)

Profª. Drª. Denise Marcos Bussoletti (UFPel/RS)

Profª. Drª. Luciana Hartmann (UnB/DF)

Profª. Drª. Marta Nörnberg (UFPel/RS)

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Olhos de Coruja: confissões acadêmicas

Lisandro Moura

No verão de 2010 eu estava em um apartamento beira-mar que me cederam para poder escrever minha monografia durante as férias. Tema da pesquisa: o olho sociológico. Foram momentos felizes, de escrita solitária, de contato com a natureza, tendo como única companhia o cheiro da praia, o barulho do vento e os olhos da coruja. Sim, havia uma coruja. Todas as noites ela chegava no mesmo horário, colocava-se no mesmo lugar, num poste de luz que não ligava e ali ficava observando a noite, vendo não sei o que. E todas as noites, madrugada adentro, eu continuava a escrever no aposento aconchegante que me fora emprestado e que, por hora, era meu. De vez em quando ia até a janela de forma inconsciente, mecânica, como quem sai pra buscar inspiração no simples caminhar. E lá estava ela, me olhando. “Que engraçada essa coruja”, pensava. Mexia a cabeça a todo o instante, tinha olhos que mais pareciam óculos. Devia ver o invisível. Passaram-se semanas, e todas as noites era a mesma coisa. Às vezes ela demorava pra chegar, sem me dar por conta, eu começava a ficar preocupado. Mas logo em seguida percebia a estupidez da minha atitude. Afinal, era só uma coruja, e ela não estava nem aí pra mim. Mas, atrasada ou não, ela sempre chegava e isso me era motivo de alívio. Eu seguia lendo e escrevendo, olhando a janela, cuidando a coruja. Até hoje me arrependo de não ter prestado mais a atenção a esse acontecimento, de não ter mostrado esse episódio no meu próprio trabalho, pois ele era, no fundo, o motivo da minha escrita e do tema que nela pulsava a todo instante: o olhar como forma de conhecer, como ato da imaginação sociológica. Estava tão imerso na minha escrita que não via a necessidade de refletir e sonhar com a coruja a olhar. Não percebia que me faltava imaginação, ora justamente aquilo sobre o qual eu escrevia. Faltava-me imaginação para encarar o ato do conhecimento como “intuição admirada do universo”, nas palavras de Maffesoli, ou seja, a “intuição como expressão de um pensamento orgânico”, que vincula o ser humano à natureza e ao mundo cósmico, coisa que a nossa vã sociologia sequer pode ou quer compreender. Na minha ordinária percepção, a coruja não simbolizava outra coisa senão mais um evento, um espetáculo da natureza que não tinha nenhuma ligação comigo e com o que eu fazia. Mas é sabido que a coruja carrega toda uma carga simbólica que alimenta o imaginário dos homens simples, comumente associada à sabedoria, ao conhecimento, à capacidade de observação, de ver em profundidade. Símbolo da filosofia, pássaro favorito de Athena, deusa da sabedoria, tornou-se mascote das ciências humanas e das artes. Estava comigo a todo o instante, não como força sobrenatural ou coisa parecida, mas como imagem, como ideia-força. O resultado final do meu trabalho foi exposto pra banca, mas nem sequer imaginam que ele tem co-autoria, porque foi escrito por duas mãos, ou melhor, por quatro olhos.

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ColetivArte Sul – Bagé

Nasce um novo movimento cultural em Bagé: o Coletivarte Sul.

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Jornal Minuano, 5 de março de 2012.

A noite do último sábado teve clima de poesia, labaredas de fogo, malabarismo, estátua humana que interagia com o público, música latina e um objetivo: espalhar na cidade o Manifesto Cultural do grupo Coletivarte Sul. A declamação poética seguida da apresentação teatral com direito a fogo e malabares, despertou a atenção do público que esperava pelo show da banda da cidade de Pelotas, “Pimenta Buena”, no espaço cultural Atelier Coletivo. O clima era de manifesto, poesia, emoção e música.

O farmacêutico Diego Soares, de 30 anos, que pela primeira vez foi no espaço Atelier achou a iniciativa muito importante para Bagé. “Cheguei para assistir o espetáculo do Pimenta Buena, e me surpreendi com o que foi apresentado.Não conhecia o grupo, achei bem trabalhado a apresentação do manifesto. Acredito que a cidade precise mesmo desse tipo de ativismo para movimentar mais o cenário da cultura local”, diz.

A decoração com cartazes, com frases apelativas ao movimento, manequins vestidos de roupas recicláveis, frases poéticas, contribuiu para incrementar o clima manifesto no cenário. O show pirotécnico esteve a cargo dos bailarinos Roger Borges e Tai Fernandes. “Ensaiamos diversas vezes o número para nos certificarmos de que o público iria sentir a emoção do manifesto através do fogo. Fogo que transmite o espírito, a expressão da vida, o amor, a paixão, a união das chamas. Assim como está a união coletiva”, conta a atriz e bailarina Tai Fernandes.

Após as apresentações teatrais e poéticas, o público pode curtir o e dançar ao som da banda.

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COLETIVARTE: O MANIFESTO

Bagé hoje é palco de diversas formas de expressão artística que se entrelaçam e dialogam. É o ambiente propício para unirmos esforços em prol do desenvolvimento de novas possibilidades. Acompanhamos acontecimentos ímpares nos últimos anos – a comemoração dos duzentos anos deste Município, o sucesso do FIMP (Festival Internacional de Música do Pampa), a terceira edição do Festival de Cinema da Fronteira, festivais de teatro, dança e música – e, a partir dessas ações inspiradoras, promovemos a criação de eventos que se comunicam entre si, inaugurando novos espaços de cultura e lazer para o grande público.

Nós do COLETIVARTE somos um grupo de cidadãos interessados em unir idéias e projetos com o objetivo de incentivar esta cena cultural através de shows, oficinas, intervenções artísticas de livre expressão, e também aprender na prática novas formas colaborativas para a criação da arte, compromissada com o “informal” cotidiano e sua potência produtiva. Utilizamos o espaço do Atelier Coletivo, consagrado por sua irreverência e experimentação, orientados à unificação de pessoas dispostas a trabalhar (n)o meio em que (con)vivemos em busca de matéria-prima para o surgimento de obras inventivas e intervenções diversas.

O nome COLETIVARTE expressa nosso objetivo por um livre coletivo entre artistas, junto aos quais as diferentes artes se comunicam de forma cooperativa e autogestionária, expandindo nossas experiências e conhecimentos de forma autêntica, espontânea e organizada. Nosso símbolo é o favo de mel porque acreditamos na força colaborativa para produzir a arte. Como abelhas nos unimos para produzir nosso néctar e nessa colméia a arte reina soberana!

O movimento pretende ser, acima de tudo, uma experiência coletiva que se abastece nas fontes da sabedoria popular e na mistura entre tradição e contemporaneidade, passado e futuro, local e global, Bagé e mundo. Primamos por tudo aquilo que diz respeito à dimensão comunitária da vida artística que leve em consideração as raízes da cultura pampeana de fronteira aliada às mais novas tendências tecnológicas da cultura brasileira e mundial. Além disso, o COLETIVARTE se expressa na “mística do estar-junto”, uma vivência que prioriza o vínculo solidário entre as pessoas, a união colaborativa, enfim, um sentimento de pertença difícil de se encontrar nas instituições sociais e políticas. Porque o COLETIVARTE é da ordem do instituinte (daquilo que nasce de baixo, que brota da terra) e não do instituído (referente ao “status quo”, ao poder, à competição e à moral). Aqui a moral cede lugar à ética-estética. A política através da poética! No lugar do poder, a imaginação!

Neste sentido, propomos o fundamento da partilha com a comunidade, da exposição de meios e técnicas para o entretenimento culturalmente consciente, abordando arte e cultura em todas as suas ramificações. O COLETIVARTE convida todos a participar, compartilhar e COLETIVAR! COLETIVE-SE!

Bagé, 03 de março de 2012.

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III Festival de Cinema da Fronteira – Bagé RS

Tem início no dia 10 de dezembro deste ano o III Festival de Cinema da Fronteira, em Bagé (RS). A cidade prepara-se para um grande espetáculo cultural nos seus 200 anos, recebendo pessoas de várias regiões do Brasil e de países visinhos. O cinema vem ganhando espaço na agenda das instituições políticas e educacionais de Bagé. O Festival é idealizado pela Secretaria Municipal de Cultura e conta com o apoio das principais instituições de ensino da cidade (Unipampa, IFSul e Urcamp), que vem percebendo o potencial da sétima arte como instrumento de conhecimento das raízes culturais da região e de desenvolvimento local. O fortalecimento das redes de cultura e arte na cidade, especialmente da produção de filmes, passa, necessariamente, pela inserção de novas perspectivas econômicas fundadas no trabalho coletivo e solidário em substituição às velhas práticas competitivas e excludentes. Fator de coesão, de construção de laços entre habitantes da cidade, o cinema contribui para a valorização da memória coletiva, estimula a diversidade cultural, além, é claro, de promover a inclusão social. Espera-se que o Festival de Cinema da Fronteira, na sua terceira edição, cada vez mais gigante, possa mexer com corações e mentes dos bageenses durante uma semana de atividades intensas. Confira a programação completa:

Curadoria:

Aurora Miranda Leão – auroraleao@hotmail.com

(51) 9715.2578 e (85) 8793.8767

Comissão Artísita: Carmem Barros, Eliane Pacheco, Fabiane Lázzaris, Lisandro Moura, Sandra Camerini, Vera Medeiros e Zeca Brito.

Juri: Boca Migotto, Frederico Ruas, Mariana Xavier e Virgínia Simone.

PROGRAMAÇÃO DO III FESTIVAL de CINEMA DA FRONTEIRA

BAGÉ, DE 10 A 17 DE DEZEMBRO

SMC – Secretaria Municipal de Cultura

CHST – Centro Histórico Vila de Santa Thereza

CCPW – Centro Cultural Pedro Wayne

LCA – Largo do Centro Administrativo 

MDDSMuseu Dom Diogo de Souza

10/12 – sábado

18h – ABERTURA OFICIAL – BOSQUE SMC

19h – ESPETÁCULO MITOLOGIAS DO CLÃ – GRUPO FALOS & STERCUS (RS)

21h – SHOW DA BANDA VIAJANTES DO ÉDEN – BOSQUE SMC

22h – EXIBIÇÃO DO FILME ANAHY DE LAS MISIONES, DE SÉRGIO SILVA  (co-produção Brasil-Argentina) – CINE 7

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

11/12 – domingo

14h – MOSTRA YAYA VERNIERI – ASILOS: Vila Vicentina/ Auta Gomes

14h – EXIBIÇÃO DO LONGAMETRAGEM ANTES QUE O MUNDO ACABE  (RS), DE ANA LUIZA AZEVEDO – CHST

16h – MOSTRA YAYA VERNIERI –  CHST (CENTRO DO IDOSO)

17h – PROJETO DANÇA NOS BAIRROS –  CHST

17h30  MOSTRA BINACIONAL  – CHST

18h – COQUETEL –  ESPAÇO MADRE MARIA / VOLTA AO MUNDO NAS CORDAS DO VIOLÃO – EDEMAR SANTOS – CHST

18h – EXIBIÇÃO DE NETTO PERDE SUA ALMA (RS), DE TABAJARA RUAS E BETO SOUZA – CINE 7

20h – BÊNÇÃO AOS ARTISTAS DA SÉTIMA ARTE – MISSA CELEBRADA PELO BISPO DOM GILIO FELÍCIO, ACOMPANHADO DO CORAL AUXILIADORA E DO TENOR FLÁVIO LEITE – CATEDRAL SÃO SEBASTIÃO

21h30 – EXIBIÇÃO DO FILME EL BAÑO DEL PAPA (UR), DE CÉSAR CHARLONE E ENRIQUE FERNANDÉZ – Projeto RODACINE – PRAÇA DA CATEDRAL

23h45 – FESTA NO ESPAÇO MADRE MARIA COM EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO O ANJO PRETO (ES) DE GUI CASTOR

12/12 – segunda-feira

15h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA – CHST

17h – EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO LUTZENBERGER: FOR EVER GAIA (RS), DE FRANK COE e OTTO GUERRA, PARTICIPAÇÃO DE ALEXANDRE FREITAS, DA FUNDAÇÃO GAIA, 52min –  CHST

18h – DEBATE COM GRUPO ECOARTE (ecologia e cultura)

19h – MOSTRA BINACIONAL  – CHST

20h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA  – APRESENTAÇÃO DA REALIZADORA ADRIANA NIEMEYER – UNIPAMPA

20h – EXIBIÇÃO DO FILME DEU PRA TI ANOS 70 (RS), DE GIBA ASSIS BRASIL E NELSON NADOTTI – CINE 7

21h – EXIBIÇÃO DO FILME OLGA, DE JAYME MONJARDIM – PROJETO RODACINE NA PRAÇA RIO BRANCO – PRAÇA DE DESPORTOS     

22h – EXIBIÇÃO DE INVERNO (RS), LONGA DE ESTREIA DE CARLOS GERBASE – CHST

 

13/12 – terça-feira

15h – EXIBIÇÃO DO FILME O CAMINHO DE KANDAHAR (IRÃ), DE MOHSEN MAKHMALBAF – CHST

16h – DEBATE FRONTEIRAS POLITICAS –  FILÓSOFO LUIS RUBIRA  (UFPEL)  – CHST

18h – MOSTRA BINACIONAL – CHST

18h – EXIBIÇÃO DO FILME NOITE DE SÃO JOÃO (RS), DE SÉRGIO SILVA – CINE 7

19h30 – EXIBIÇÃO DE O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, DE ROGÉRIO SGANZERLA –  CHST

21h – HOMENAGEM À ATRIZ HELENA IGNEZCHST

21h – EXIBIÇÃO DO FILME EM TEU NOME (RS), DE PAULO NASCIMENTO – Projeto RODACINE – PRAÇA HABITAR BRASIL

21h30 – EXIBIÇÃO DO FILME LUZ NAS TREVAS, DE HELENA IGNÊZCHST

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

14/12 – quarta-feira

14h – MESA REDONDA CULTURA SEM FRONTEIRAS –  Salão Nobre da Prefeitura Municipal

17h – MOSTRA BINACIONAL  – CHST

18h30 – CAMERATA DE FLAUTAS DO IMBA – CHST

19h – HOMENAGEM A JEAN-CLAUDE BERNADETCHST

20h – PROJETO DANÇA NOS BAIRROS & ACADEMIA BIOCENTER – PRAÇA DE DESPORTOS

21h – EXIBIÇÃO DO FILME HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES (RS), DE JORGE FURTADO –projeto RODACINE  – PRAÇA DE DESPORTOS

22h – EXIBIÇÃO DO FILME EM TEU NOME (RS), DE PAULO NASCIMENTO – CINE 7       

22h – EXIBIÇÃO DE A ÚLTIMA ESTRADA DA PRAIA(RS), DE FABIANO DE SOUZA – CHST

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

15/12 – quinta-feira

15h – SESSÃO ESPECIAL – EXIBIÇÃO DO FILME ANJO PRETO (ES), DE GUI CASTOR – CHST

18h – MOSTRA BINACIONAL – CHST

20h – EXIBIÇÃO DO FILME O GURI (RS), DE ZECA BRITO – CHST

22h – EXIBIÇÃO DO FILME CONTOS GAUCHESCOS (RS), DE HENRIQUE DE FREITAS LIMA – PRESENÇA DO DIRETOR – CINE 7

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

15/12 – quinta-feira – Aceguá

15h – EXIBIÇÃO DO FILME EL BARRIO DE LOS JUDIOS (UR), DE GONZALO RODRÍGUEZ FABREGAS – AUDITÓRIO MUNICIPAL

16h – RODA DE SAMBA NA LINHA IMAGINÁRIA – GRUPO MESA DE BAR

17h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA  – AUDITÓRIO MUNICIPAL

19h – EXIBIÇÃO DO FILME EL CÍRCULO (UR), DE JOSÉ PEDRO CHARLO E ALDO GARAYAUDITÓRIO MUNICIPAL

21h – EXIBIÇÃO DO FILME NETTO PERDE SUA ALMA (RS), DE TABAJARA RUAS – PRESENÇA DO DIRETOR – Projeto RODACINE – LINHA IMAGINÁRIA

23h – PROGRAMAÇÃO SOCIAL

16/12 – sexta-feira

14h – EXIBIÇÃO DO FILME GIGANTE (UR), DE ADRIAN BINIEZ  – CHST

16h – EXIBIÇÃO DO FILME DANÚBIO (RS), DE HENRIQUE DE FREITAS LIMA – CHST

17h – DANÇA DE RUA COM O GRUPO STREET BLACK MOVIMENT – CHST

18h – EXIBIÇÃO DE WHISKY (UR), DE JUAN PABLO REBELLA E PABLO STOLL  – CHST

20h – MOSTRA REGIONAL – BAGÉ 200 ANOS – CHST

23h – FESTA CELEBRAÇÃO AO URUGUAI / BIG BAND (IMBA) e BANDA DEDOCHES – CHST

24h – SESSÃO BANDIDA – EXIBIÇÃO DO FILME O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, DE ROGÉRIO SGANZERLA –  CHST

 

16/12 – sexta-feira – Candiota

17h – EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO LUTZENBERGER: FOR EVER GAIA (RS), DE FRANK COE e OTTO GUERRA, PARTICIPAÇÃO DE ALEXANDRE FREITAS, DA FUNDAÇÃO GAIA, 52min –   SALÃO SINDICATO DOS MINEIROS

21h – EXIBIÇÃO DO FILME CONTOS GAUCHESCOS (RS), DE HENRIQUE DE FREITAS LIMA  –  Projeto RODACINE

17/12 – sábado

15h – ENTRE ARTE E CIÊNCIA: OS USOS DO AUDIOVISUAL NA PESQUISA EM CIÊNCIAS HUMANAS – CONFERÊNCIA COM LUCIANA HARTMANN (UNB) – CCPW

18h – EXIBIÇÃO DO FILME JAMÁS LEÍ A ONETTI (UR), DE PABLO DOTTA   – CINE 7

21h – SOLENIDADE DE PREMIAÇÃO – MDDS

GRUPO DE DANÇA DO IMBA – A SAGA DOS COLONIZADORES

MESTRES DE CERIMÔNIA INGRA LIBERATO e LEONARDO MACHADO

NÚMEROS MUSICAIS COM LORENA VIEIRA & IVON LEO MONTEIRO – MDDS

21h – FESTin BAGÉ: MOSTRA DA LUSOFONIA  – LCA

22h – SHOW  LISANDRO AMARAL E GRUPO – LCA

23h – FESTA DE CONGRAÇAMENTO  –  ATELIER COLETIVO

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III Festival de Cinema da Fronteira – BAGÉ RS

AURORA DE CINEMA BLOG – http://auroradecinema.wordpress.com/2011/11/25/setima-arte-vai-aportar-em-bage-a-partir-do-dia-10/

Em suas duas primeiras edições, 2009 e 2010, o Festival de Cinema da Fronteira foi praticamente uma experiência desbravadora. Realizado com vontade e determinação pelos voluntários do centro Histórico Vila de Santa Thereza, pessoas interessadas em propagar a arte do cinema e que tinham por objetivo resgatar os laços históricos da cidade com a Sétima Arte, além de valorizar a produção regional estabelecendo diálogos com o cinema contemporâneo e latino.

Em 2011, celebrando os 200 anos de Bagé, o Festival assume novas dimensões. Sendo realizado pela Secretaria de Cultura da Prefeitura e produzido pela Primeiro Corte Produções.

O crítico e ensaísta Jean-Claude Bernadet ministará seminário e será homeageado

A ideia é tornar a região um pólo cinematográfico, já que Bagé é uma referência de produção artística, iniciada com o lendário grupo de Bagé, nas artes visuais. Atualmente, a cidade abriga quatro universidades, as quais, juntamente com a Secretaria de Cultura,  vem fomentando a produção regional por meio de ações prévias ao Festival.

O Programa Cinema da Fronteira, idealizado pela Secretaria de Cultura de Bagé, vem oferecendo oficinas gratuitas de audiovisual, fomentando ações cineclubistas e mostras informativas em escolas e espaços públicos. A região foi uma das locações do premiado filme uruguaio O Banheiro do Papa e, atualmente, é a locação principal de O Tempo e o Vento, novo longa-metragem de Jayme Monjardim. Para tanto, está sendo construída a cidade cenográfica de Santa Fé, contando com mão-de-obra local. Os realizadores do Festival de Cinema da Fronteira acreditam no cinema como alternativa de desenvolvimento econômico e social para a região.

Duas mostras competitivas – Bagé 200 anos e Mostra Binacional – e três mostras não competitivas – Yaya Vernieri, Festin Bagé – Mostra da Lusofonia, e Mostra de Longas-Metragens, compõem o III Festival de Cinema da Fronteira que será uma janela de exibição da produção regional, brasileira e uruguaia, criando um espaço de confluência cultural na região da campanha.

Com o empenho e dedicação com os quais a Prefeitura de Bagé e todas as entidades ligadas ao evento estão consagrando ao Festival, e ainda através de uma cuidadosa curadoria, estima-se uma profícua contribuição deste evento para a formação do olhar e consolidação do enorme manancial artístico-cultural bageense, além do salutar exercício prático de aprendizado cinematográfico através da realização de seminários, debates e intercâmbios culturais.

Paralelamente a esses objetivos, o festival busca a integração dos municípios de Candiota, Hulha Negra e Aceguá, cidades ligadas por laços afetivos e históricos. A produção cinematográfica uruguaia também será contemplada em mostra especial, visando à integração entre os povos da fronteira sul.

As questões de fronteira estarão permeando as diversas discussões e debates, sejam elas políticas, étnicas, religiosas, e, sobretudo, as fronteiras da linguagem.

A curadoria do Festival é assinada pela jornalista e realizadora Aurora Miranda Leão, contando com a colaboração de uma comissão artística formada por Carmem Barros, Eliane Pacheco, Fabiane Lázzaris, Lisandro Moura, Sandra Camerini, Vera Medeiros e Zeca Brito, artistas de Bagé.  No júri de seleção da mostra competitiva Binacional, os realizadores gaúchos Boca Migotto, Frederico Ruas, Mariana Xavier e Virgínia Simone. Ao todo, foram inscritos mais de 120 filmes.

Além das mostras, o festival apresenta uma programação paralela envolvendo shows, performance do grupo Falos e Stercus, apresentações ao ar livre, gastronomia e ações sócio-ambientais, estas  um dos carros-chefe do evento. Para a abertura, o tenor Flávio Leite irá cantar, ao lado do Coral Auxiliadora, a belíssima Missa Crioula de Ariel Ramirez, conduzida pelo bispo Dom Gilio Felicio.

Em 2011, Bagé, conhecida como Rainha da Fronteira por sua localização geográfica estratégica nas demarcações territoriais brasileiras, completa 200 anos de fundação. Para assinalar a celebração, a Prefeitura vem firmando parceria com diversas instituições, unindo-se à comunidade de modo a marcar indelevelmente esta passagem de tempo. O objetivo maior do III Festival de Cinema da Fronteira é cunhar a marca do Cinema na história presente da bicentenária Bagé.

O III Festival de Cinema da Fronteira é uma realização da Prefeitura Municipal de Bagé – Secretaria Municipal de Cultura, com patrocínio do Banrisul e Supermercados Peruzzo, apoio institucional da Unipampa, IFSul e Urcamp, e produção da Primeiro Corte Produções.

  • A lista de selecionados do Festival deve ser divulgada na próxima segunda-feira.

Fonte: Aurora de Cinema Blog: http://auroradecinema.wordpress.com/2011/11/25/setima-arte-vai-aportar-em-bage-a-partir-do-dia-10/

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15ª Mostra do Filme Etnográfico – RJ

Cinema e Antropologia. Mostra Internacional do Filme Etnográfico no Rio de Janeiro, com a presença dos mais importantes nomes do cinema etnográfico:

Rolf Husmann, diretor do Festival de Gothingan (Alemanha) e do filme “The Professional Foreigner: Asen Balikci and Visual Ethnography”; Nora Bateson, diretora de “An ecology of mind”, sobre as ideias de seu pai, o antropólogo Gregory Bateson; Emmanuel Grimaud, do Centre national de la recherche scientifique (CNRS) e diretor de “Kings of the beetle”; Takumã Kuikuro e Leonardo Sette, diretores de “As hiper mulheres”, premiado em Gramado; Chico Guariba, diretor de “Os Japoneses no Vale do Ribeira”; Rose Satiko, antropóloga da USP e diretora de “Lá do Leste”; Carlos Alberto de Mattos, crítico de cinema; e Joel Pizzini, diretor de “Elogio da graça”.

Site: http://www.mostraetnografica.com.br/

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Cinema e Educação em Debate + Oficina de documentário com Isaac Chueke

Oficina de Filme Documentário com Isaac Chueke (RJ)

De 26 a 30 de setembro, no Campus do IFSul

Horário: das 9h às 12h e das 14 às 17h

             Antecipando as atividades do III Festival de Cinema da Fronteira, o IFSul e a Secretaria Municipal de Cultura trazem a Bagé o diretor de cinema Isaac Chueke, que fará uma oficina sobre a produção de filmes documentários. Isaac é formado em jornalismo na PUC-RJ, e atua na área de cinema e vídeo desde 1989 como diretor, roteirista, editor e fotógrafo. Isaac produziu e dirigiu duas séries de documentários exibidas no Canal Brasil, chamadas “Conversa Fiada“.

            Nestes filmes, Isaac retrata com bom humor a manifestação oral dos moradores de diversas cidades brasileiras, que vivenciam as ruas de maneira espontânea e profundamente vinculada às suas necessidades práticas. Uma verdadeira teia de acontecimentos pitorescos protagonizados por figuras populares tipicamente urbanas.

            Ao final da Oficina, os participantes produzirão dois filmes de curta duração sobre aspectos sociais e culturais da cidade de Bagé. Os filmes produzidos serão inscritos no III Festival de Cinema da Fronteira, que acontecerá em novembro, em Bagé.

Cinema e Educação em Debate

27 e 28 de setembro, às 19h no auditório do IFSul

Aproveitando a presença do diretor carioca, Isaac Chueke, e a série de oficinas cinematográficas que estão acontecendo em Bagé, oferecidas pela Secretaria de Cultura, o IFSul, em parceria com Unipampa, Secretaria de Educação e Secretaria de Cultura, está organizando um evento sobre as relações entre cinema e educação. A ideia é refletirmos sobre práticas pedagógicas a partir do uso e da produção de filmes na escola, evidenciando a importância de qualificarmos o trabalho com o cinema na sala de aula.

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Turista aprendiz: impressões de viagem. Curitiba

Rua das flores

Lisandro Moura

pelos caminhos que ando

 um dia vai ser

   só não sei quando

(Paulo Leminski)

Sempre preferi o termo peregrino à turista. O primeiro representa a ideia de que é preciso caminhar para ver/conhecer. O olhar atento aos detalhes e às contradições do cotidiano em uma determinada cidade só pode ser definido se mantivermos uma postura de peregrino, ou seja, fazer do próprio caminho o objeto principal da nossa viagem. O turista também caminha, mas superficialmente. Não dá atenção aos detalhes, aos objetos, tampouco se importa com a história, as condições sociais e culturais do local. Não lhe interessa compreender os lugares por onde passa, e sim buscar algum prazer e conforto nos espaços de consumo já destinados a ele. Lembro de uma palestra de Yves de La Taille sobre o assunto, quando comparou o turista ao peregrino: o primeiro viaja por recreação, o tempo de viagem é um tempo programado, enquanto que o peregrino viaja porque quer buscar alguma coisa, uma identidade ou uma experiência de vida.

Estive em Curitiba durante nove dias para participar do II Encontro sobre Ensino de Sociologia na Educação Básica e do XV Congresso Brasileiro de Sociologia. Fui para apresentar um trabalho intitulado A educação do olhar no ensino da Sociologia, que trata justamente da habilidade para ver o visível e o invisível, pois nem sempre olhamos aquilo que vemos.. Para os estudantes que desejam apreender o olhar sociológico é necessário passar por um processo de reeducação do olhar, cuja principal característica é a atenção imaginante (termo emprestado de Gastón Bachelard). Mas este texto não é um relatório de trabalho.

Considero nove dias suficientes para conhecer a cidade de Curitiba na sua dimensão aparente, mas insuficiente para compreendê-la na sua totalidade essencial. Por isso, uso no título deste texto o termo turista ao invés de peregrino. Mas um turista aprendiz, que tenta vivenciar uma experiência peregrina. Uma referência ao livro de Mario de Andrade.

            Curitiba, assim como qualquer outra cidade, tem as suas contradições. Para um bageense, é uma cidade quente que fez o pessoal do norte passar frio. Nas pesquisas e no imaginário da população brasileira ela aparece como a melhor cidade do mundo para se viver (Revista Veja 2007), a mais sustentável do mundo (Globe Fórum, Suécia 2010), a cidade mais “esperta” do mundo (Revista Forbes, 2009), pólo de inovação tecnológica do Brasil (IPEA). Na experiência vivida cotidianamente é uma cidade tensa, violenta até, e durante o dia se pode presenciar um grande número de moradores de rua; uma cidade moderna sem alma, sem espírito, sem aura, sem identidade, fruto do progresso. Cidade desencantada, onde a dimensão simbólica foi praticamente apagada pelo desenvolvimento econômico que a fez cidade-modelo para os negócios (Revista Veja, 2007). Curitiba é o exemplo daquilo que Juremir Machado da Silva defende em seus livros: todo imaginário é real e todo real é imaginário. Mito e realidade não se separam.

UFPR

Mas tem sim seus encantamentos: possui ruas belíssimas, mulheres encantadoras, canteiros floridos, prédios históricos restaurados, uma universidade pública esplendorosa e linhas de ônibus super tecnológicas (qual não foi o meu estranhamento ao entrar num ônibus e ouvir música clássica durante o trajeto! Fiz cara de intelectual). Tem o Museu Oscar Niemeyer (MON), conhecido como Museu do Olho, onde pude apreciar novamente a linda exposição de fotos da Maureen Bisilliat, que já havia passado por São Paulo, e cujo olhar poético sobre o passado do Brasil, ainda tão presente, faz dela uma fotógrafa que escreve com a imagem e vê com a palavra. São mais de 200 fotos que sintetizam a visão da fotógrafa sobre os universos do real e do imaginário, tanto em fotografias como em livros e documentários. No museu havia também a exposição Dores da Colômbia, do colombiano Fernando Botero, que mostra em suas formas arredondas uma Colômbia dilacerada pela violência. Infelizmente, não pude ver tudo o que havia, o tempo era curto. O turista não fica mais do que 15 segundos em frente a uma obra de arte. Precisa correr para não furar a programação.

Museu Oscar Niemeyer (MON)

fotografia de Maureen Bisilliat


Alguém já deve ter dito que é durante a noite que se pode conhecer profundamente um lugar. Tenho total acordo. Não se pode visitar uma cidade sem passar pelos seus bares, cenas noturnas onde os espíritos são livres e as relações interpessoais são dionisíacas. Viver a noite nos traz fôlego para enfrentar o dia. O bar do Torto, o Lado B, o Blues Velvet, a Casa Verde, a festa do DCE, botecos onde se pode ver que os curitibanos não são tão frios assim como muitos comentam. As gurias até gostam do sotaque gaúcho. Bah! Mas e a música? A final, que música representa o povo curitibano? O que caracteriza o paranaense? O fandango, gênero musical e coreográfico fortemente associado ao modo de vida da população caiçara tem pouco espaço na capital. Mesmo assim, pude assistir ao show da Orquestra Rabecônica do Brasil, constituída por músicos de diversas regiões do país que vivem no Paraná. O espetáculo busca representar a cultura popular paranaense através de canções e bailadas que reúnem Fandango, Folia do Divino, Boi de Mamão, Terço Cantado… Pude observar que a tradição sempre convive com a modernidade, mas não sem contradições e percalços. Faltava ginga no corpo dos jovens músicos e dos dançarinos urbanos, “mestres” da cultura caiçara. A representação acaba sempre sendo algo diferente daquilo que pretende representar. Era bonito, mas havia um desencontro entre tradição e modernidade.

Orquestra de rabecas

Na culinária, só comi uma comida típica: o barreado. Aliás, muito gostoso! O resto foi hambúrguers, pizzas e comida de restaurante chinês! Cidade globalizada é assim…

            Por fim, só me resta dizer que as cidades são constantemente reinventadas a partir de experiências particulares, formadas por aqueles que caminham e tecem as tramas urbanas. Cada pessoa constrói trajetos pessoais numa determinada cidade, as vezes são percepções por demais diferentes daqueles dados oficiais. Curitiba é tudo e não é nada ao mesmo tempo. O excesso que se esvazia. E que se enche de novo a partir das impressões “individualmente coletivas” sobre o cotidiano das ruas. Neste caso, sei que minhas impressões são rasas, dignas de um turista. Um dia quero ser peregrino em Curitiba…

            Ontem cheguei a Porto Alegre, e aqui sou peregrino. A primeira coisa que fiz foi andar pelo centro. Andar para ver, ver para conhecer. Tenho que concordar com uma conclusão bairrista de Mário Quintana sobre a cidade: “não perderíamos nada se o universo todo fosse reduzido ao centro antigo de Porto Alegre”. Volver al sur é sempre bom!

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À espera de La Perseguida: entre a paixão e a decepção

Texto de Lisandro Moura, professor do IFSul, publicado no Jornal Folha do Sul Gaúcho, edição de 15 de julho de 2011.

            “O homem é um ser que espera, e por isso não pode evitar a decepção.” É assim que resumo o espetáculo La Perseguida, do Teatro VagaMundo, que estará em Bagé de  15 a 17 de julho, por ocasião das comemorações do bicentenário da Rainha da Fronteira. Tive a oportunidade de ver o espetáculo por três vezes, uma em Santa Maria e duas em Porto Alegre. O Grupo já percorreu importantes cidades do Brasil e alguns países vizinhos, como Colômbia e Uruguai. Com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, o espetáculo protagonizado pelo ator bageense, Daniel Lucas, finalmente chega a nossa cidade num momento histórico para a cultura local.

            O espetáculo conta com a presença em cena do palhaço Rabito, que vem esbanjar alegrias e expor as contradições entre o desejo e a realidade, entre a paixão e a decepção. Estamos sempre em busca de um sentido maior para as nossas vidas, para além do eterno presente, muitas vezes dilacerado pelas circunstâncias sociais. Sonhamos com o (im)possível sem nunca atingi-lo. Rabito vive a esperar a sua tão “perseguida” amada, mas a vida já não é simpática àqueles que amam e que esperam. Temos a tendência a encarar a espera como momento improdutivo, como um vazio, um insulto à lógica e ao ritmo do nosso tempo. Tempo é dinheiro e ninguém gosta de perdê-lo.

            Mas a imagem do palhaço rompe com essa verdade provisória e faz da espera um momento vivido com a intensidade dos sonhos, da alegria, da estupidez, do erro, da embriaguez… O palhaço devolve ao mundo o que a modernidade lhe roubou: a imaginação criadora e a capacidade de reencantar a vida. Em oposição ao nosso tempo da falta de tempo, o palhaço Rabito faz do presente um momento vivido com sentido, mediante brincadeiras e fantasias. É na aparência insignificante do presente que a vida ganha sentido. A rotina e a banalidade transformam-se em instantes de pura elevação.

            Vejo no palhaço Rabito um ser total, capaz de nos fazer chorar e sorrir. Um palhaço dócil e, ao mesmo tempo, bruto, competente em arrancar do público aplausos e gestos de condenação. É porque ele não age mais sob a lógica da moral e das certezas. Ele não aceita a separação entre o bem e o mal, entre a alegria e a tristeza. O palhaço Rabito é, paradoxalmente, um ser humano completo e inacabado, que revoluciona a vida ao transformar a espera num momento simbólico e imprevisível.

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Ficha Técnica: Direção: Gabriela Amado. Atuação: Daniel Lucas. Música: Márcio Echeveria. Ilustração: Paulo Trarbach. Produção Artística: Teatro VagaMundo. Operação de Luz: Juliet Castaldello. Técnico de som: Régis D’Ávila.

http://teatrovagamundo.wordpress.com/

Fonte:

http://www.folhadosulgaucho.com.br/?p=9&n=11162

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Identidade de Fronteira

Teve início no último sábado, 3 de junho,  o projeto de ensino Identidade de Fronteira: práticas sociais e culturais no território bageense, coordenado pelos professores Lisandro Lucas de Lima Moura (Sociologia) e Ariel Salvador Roja Fagúndez (História). A proposta faz parte do Projeto Integrador do Departamento de Ensino, cujo tema geral deste semestre é a Gestão Territorial. O Projeto Integrador é uma atividade de caráter interdisciplinar promovida semestralmente pelo IFSul, do qual participam todos os professores e alunos, em diferentes projetos.

A gestão do território refere-se à forma com que atores sociais e econômicos ocupam um determinado espaço geográfico, imprimindo nele sua cultura, usos e costumes diversos, enfim, o seu modo de produzir, de pensar e de agir.

A proposta do Grupo de Trabalho Identidade de Fronteira: práticas sociais e culturais no território bageense, é identificar, na simplicidade da vida cotidiana, os aspectos sociais, históricos e culturais do território bageense. Esse território compreende um espaço fronteiriço, onde se misturam as práticas culturais de brasileiros e uruguaios, formando uma identidade própria que pode ser visualizada nos ritos, nos mitos, na fala, nas festas populares, na religiosidade, etc. Essas manifestações culturais devem ser levadas em conta quando se pensa em formas alternativas de desenvolvimento econômico, baseadas numa cultura solidária, participativa e coletiva.

O primeiro encontro do Grupo aconteceu no Parque do Gaúcho, lugar onde se pode apreciar os costumes e a simplicidade do povo do sul. A primeira palavra que parece se ouvir destes campos é imensidão. Dizem que o homem e a mulher do pampa enxergam mais longe.. É verdade. E que coisa mais sem graça é não sentir o pé no chão.. A sabedoria indígena nos ensina isso. Nestes pagos é impossível não perceber a força telúrica que liga o ser humano ao seu contexto, ao seu chão, a sua terra.

http://nasombradoumbu.blogspot.com/

http://www.ifsul.edu.br


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Imaginário Educacional

Começa amanhã, 9 de maio de 2011, o mini curso Contribuições do Imaginário na Educação Acadêmcia e Profissional, com a participação do prof. Alberto Filipe de Araujo, da Universidade do Minho.

O curso tem como finalidade apresentar e desenvolver temas e conteúdos do Imaginário Educacional com vistas a proporcionar a interlocução e a interdisciplinaridade entre a educação acadêmica e a educação profissional; mostrar o valor do trânsito entre as vertentes diurnas e noturnas do imaginário, presentes na vida e no conhecimento como artes de ser, de viver e de formar. E como princípios, a abertura deste campo de estudos junto aos estudantes, profissionais e pesquisadores de diferentes áreas do saber e instituições; o respeito pelo debate e experimentação da construção coletiva de conhecimento, na perspectiva da superação dos lugares institucionalmente legitimados de saber.

GEPIEM – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Imaginário, Educação e Memória

http://wp.ufpel.edu.br/gepiem/

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Os usos da imagem nas aulas de sociologia

O campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) recebe nos dias 5, 6 e 7 de maio acadêmicos e pesquisadores de diferentes países para o I Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnológicas para la Integración en el Conosur (ECHTEC). Vinte e seis simpósios e 535 propostas de trabalhos para apresentação já foram inscritos no evento, que integra várias instituições acadêmicas associadas à Internacional del Conocimiento, grupo de pesquisa do Instituto de Estudos Avançados – IDEA, da Universidade de Santiago do Chile (USACH).

Na acasião, vou apresentar minha pesquisa realizada em 2010 sobre o uso imagem no ensino da Sociologia:  fotografias, vídeos, filmes, documentários, etc.

Título do Trabalho: Os usos de recuros didáticos visuais no ensino da Sociologia

Autor: Lisandro Lucas de Lima Moura

Resumo do trabalho:

O trabalho é resultado de uma pesquisa qualitativa realizada com professores(as) de Sociologia de escolas de nível médio do Brasil sobre os usos de recursos didáticos visuais na sala de aula (filmes, vídeos, fotografias etc..) O objetivo é compreender de que forma as linguagens visuais podem contribuir para a compreensão da vida social e enriquecer a prática pedagógica de professores(as) de Sociologia, para além da simples informação sobre temas e conteúdos curriculares. Através de um trabalho pedagógico com imagens, busca-se ampliar as possibilidades de uma prática interdisciplinar, de modo a privilegiar a dimensão do estético, do poético e do imaginário nas Ciências Sociais. A busca por uma metodologia de ensino inovadora no uso de imagens em sala de aula precisa levar em conta o conhecimento produzido pelo campo da Sociologia Visual (ou Sociologia da Imagem) como forma de possibilitar o exercício da imaginação sociológica mediante a educação do olhar.

Dia: quinta-feira, 5 de maio de 2011

Horário: 9h

Local: IFSul – Campus Pelotas

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Ensino de Sociologia na escola – O que é etnocentrismo

Nas minhas aulas de Sociologia costumo trabalhar com os estudantes o pequeno texto abaixo para fazer-lhes compreender o significado do conceito de Etnocentrismo. Os exemplos são muitos, porém acredito que este textinho, extraído do livro introdutório “O que é Etnocentrismo”, de Evandro Guimarães Rocha – da Colação Primeiros Passos – é fundamental e exemplar para se trabalhar em sala de aula, pois nos traz o verdadeiro sentido do conceito. O etnocentrismo, visão de mundo onde nossa própria sociedade é tomada como centro de tudo, passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da nossa própria cultura.

“Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc.; modesto, comprou para si mesmo apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as burocracias inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio.

A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.

Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Levantou-se, deu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez. Era hora de ir. Como que buscando inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio.”

O que não pensaria o índio se visse seus objetos pendurados na parede do escritório do nosso pastor??

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XXVIII Congresso ALAS “Fronteiras Abertas da América Latina”

O prazo para inscrições de trabalho para o XXVIII ALAS 2011 foi prorrogado  para o dia 30 de março! Para conhecer os Grupos de Trabalho acesse  http://www.alas2011recife.com/


Recife – 06 a 10 setembro de 2011

No ano de 2011 a ALAS completa 60 anos de existência na renovação contínua de seus congressos. Nesta trajetória, constituiu-se numa referência importante para o pensamento crítico latino-americano e continua a sê-lo no momento presente. Neste século XXI, os desafios da América Latina e do Caribe na organização de um planeta mais equitativo, justo e plural vêm se ampliando, colocando-nos novos desafios.

A crise global vem obrigando a América Latina a renovar sua compreensão sobre si mesma e sobre o mundo, sobretudo quando ela passa a ser vista pelas forças progressistas, em nível mundial, como um lócus renovador, por excelência, dos movimentos sociais, políticos, culturais e intelectuais. Também, a América Latina é fonte de recursos naturais e ambientais fundamentais para a sobrevivência da espécie humana, o que é decisivo em uma conjuntura mundial de escassez de alimentos e fontes energéticas. Nesta mesma direção, é de se ressaltar que o português e o espanhol constituem em conjunto as bases de uma importante comunidade lingüística que ancora parte significativa da produção cultural mundial.

A percepção do significado da América Latina nas atuais reconfigurações do mapa mundial é tarefa que urge e chama à reflexão esta comunidade de sociólogos ao lhes propor revisões de seus paradigmas, reconhecidos, enfim, como tendo se pautado em binarismos que pouco ajudam à compreensão dos processos híbridos, das liminaridades, das tensões, das fronteiras, das criações que têm seu lugar num continente que não se explica unicamente por meio dos manuais secularmente consagrados. A nós é exigido o esforço hercúleo de legitimar narrativas ainda inéditas sobre nós mesmos.

Ora, ainda há muito que se fazer para nos percebermos como “nós”, latinos, e favorecer a ampliação do leque de atores e pesquisadores que interrogam a América Latina. Há desafios importantes para se avançar numa práxis teórica renovadora que articule o pensamento e a ação, que coordene as  instituições sociais, políticas, culturais, artísticas, econômicas e jurídicas com vistas à produção de um pensamento democrático e plural contemplando o local, o nacional, o pós-nacional, transnacional e suas metamorfoses. Entre as áreas a serem incorporadas ao pensamento latino-americano há de se ressaltar os estudos sobre as regiões da América Latina que permanecem ainda não suficientemente discutidas, a exemplo do norte e o nordeste da América do Sul, entre outras. Essas regiões são palco de profundas transformações sócio-econômicas, culturais e ambientais que têm impacto sobre o conjunto da América Latina, e, igualmente, de importantes mobilizações políticas e intelectuais voltadas para questionar em profundidade as raízes das desigualdades e injustiças sociais em planos diversos: étnico, econômico, de gênero, geracional e religioso. Há de se interrogar e contrapor, pois, com certa urgência, os vários campos de saberes e experiências liberadoras que ocorrem dentro e fora dessas regiões.

Nesta linha de reflexão, a escolha da cidade do Recife para a realização do XXVIII Congresso ALAS “Fronteiras Abertas da América Latina”, em 2011, tem uma importância simbólica e estratégica particular. Recife é uma importante metrópole histórica e econômica cujas origens remontam aos primeiros séculos da colonização ibérica, mantendo-se, até hoje, como importante centro cultural e intelectual. Entre os principais intelectuais e homens de ação que aqui desenvolveram parte significativa de suas obras estão Abreu e Lima, Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Paulo Freire, Celso Furtado, Dom Helder Câmara e Miguel Arraes. Do ponto de vista geopolítico, a localização da cidade do Recife possibilita-nos articular as diversas cidades do norte e nordeste brasileiro, desde Manaus até Salvador, que guardam as memórias da colonização e da luta anticolonial. As lutas e mobilizações que ocorrem nessas áreas não se restringem a suas delimitações geográficas, mas se conectam com outras regiões do continente latinoamericano. A questão amazônica, para tomar o exemplo de uma das grandes regiões latino-americanas, não é apenas brasileira, do mesmo modo que a questão ambiental do nordeste não toca apenas os estados desta região. As desigualdades sociais, os desequilíbrios ecológicos, a fome e a miséria assim como a presença dos movimentos sociais que combatem este estado de precariedade, refletem situações mais amplas que concernem cada país e cada região da América Latina e do Caribe. Nesse sentido, a idéia de FRONTEIRAS ABERTAS como palavra-chave da ALAS 2011 justifica-se pela importância de se colocar como pauta de pesquisa e debate público atores, práticas, instituições e saberes que evidenciam os limites dos nossos modelos analíticos.

O propósito do ALAS 2011 é de consolidar os esforços de articulações realizados em Buenos Aires, Guadalajara, Porto Alegre, Arequipa, Antígua, São Paulo e demais encontros anteriores, ampliando a construção do pensamento crítico latino-americano. Neste sentido, há que se favorecer parcerias e cooperações entre países e regiões nas quais vêm se desenvolvendo novos saberes e práticas implicados com a construção democrática numa gramática moral cujo “bem viver”, de diversos, se traduz no alcance de metas coletivas em torno da dignidade humana.

O contexto de grandes mudanças geradas pela crise global e a organização de experiências marcadas pela reação anti-neoliberal contribuem para a reflexão sobre os modelos de desenvolvimento em termos culturais, políticos, econômicos da América Latina e sobre os modos de cooperação igualitária com outros blocos continentais, no diálogo Sul-Sul, atento a tais questões, o XXVIII Congresso ALAS “Fronteiras Abertas da América Latina” propõe cinco temas centrais, a saber:

  • Memórias, entre o passado e o futuro.
  • Políticas públicas e identidades, entre as singularidades e as universalidades.
  • Modernidades alternativas: política, cultura e sociedade na América Latina, África e Ásia.
  • Disciplinaridades dialógicas, entre o humanismo reflexivo e a variedade epistemológica e técnica.
  • Amazônia e ecossistemas, entre a depredação econômica e a sustentabilidade planetária.

1. Memórias, entre o passado e o futuro

A América Latina tem uma importante tradição de autores e atores que se dedicaram a construção de um pensamento voltado para a compreensão de nossos dilemas fundamentais. A releitura crítica desta tradição intelectual e das lutas sociais constituem um aspecto a ser considerado na análise dos novos cenários culturais, políticos, econômicos que desafiam a inteligência latino-americana no presente com vistas à construção de um futuro.

Cabe debater as tensões intelectuais fundadoras das ciências sociais para formular teorias, metodologias, epistemologias e éticas, ao mesmo tempo em que encoraje a incorporação de novos conteúdos e novas práxis sociais na produção do conhecimento.

2. Políticas públicas e identidades, entre as singularidades e as universalidades.

Desde a segunda metade do século XX, a América Latina constituiu o palco de grandes lutas democráticas, algumas sendo conduzidas dentro dos cânones institucionais e jurídicos, outras se insurgindo contra tais cânones. Essas lutas foram e são vividas pelos camponeses, povos indígenas, quilombolas, mulheres, crianças e idosos excluídos, trabalhadores sem-terra, sem-teto e sem direitos à participação nos mecanismos de distribuição dos bens de cidadania. Ricas trajetórias nos impõem a tarefa de analisar os avanços e as resistências nas lutas dos diversos povos, movimentos sociais e culturais em diferentes áreas como as das economias plurais, as de gênero, etnias e novas religiosidades. Tal conjuntura demanda mudanças no nível do Estado, fazendo emergir e consolidar direitos mediante políticas públicas inovadoras, a serem examinadas. Frente a esse quadro, o XXVIII Congresso ALAS se propõe a impulsionar conhecimentos transversais que contemplem a diversidade de experiências em diferentes planos analíticos.

3. Modernidades alternativas: política, cultura e sociedade na América Latina, África e Ásia.

A pretensão de um universalismo iluminista capaz de colonizar todas as áreas do planeta teve como reação a liberação de forças antiutilitaristas, descolonizadoras e pós-coloniais que ainda lutam pela releitura de tradições e por modalidades próprias de inserção no mundo globalizado, como sujeitos. Faz-se necessário cultivar um diálogo visando compartilhar as universalidades possíveis geradas por forças intelectuais e políticas criativas que se expandem na América Latina, África e Ásia, expressão das novas fronteiras geopolíticas. Os esforços de democratização implicam a valorização de modo mais transparente e eqüitativo das diversidades no interior das universalidades. Há que se construir, por conseguinte, um diálogo de novo tipo entre os diversos atores transnacionais, ampliando a compreensão coletiva sobre a América Latina e sobre o diálogo Sul-Sul.

4. Disciplinaridades dialógicas, entre o humanismo reflexivo e a variedade epistemológica e técnica

Diante do cenário contemporâneo de rápidas mudanças, coloca-se a urgência de repensar as instituições acadêmicas e os campos de saberes, assim como as articulações entre saberes locais e saberes universais, e interrogar sobre a delimitação de fronteiras entre saberes e entre pesquisa, ensino e extensão.

No plano epistemológico, o trabalho de organização de novos conhecimentos deve permitir articular saberes reflexivos e informações técnicas e pragmáticas do mesmo modo que deve favorecer novas modalidades discursivas entre ciência e arte, entre ciência e tecnologia, entre ciência e movimentos sociais, entre ciência, direitos humanos e bioética. No plano científico e tecnológico, pensar a instauração de direitos sociais universais e participação na criação de conhecimentos, motivações éticas e universalidades na apropriação pública e social do saber.

Se as singularidades não têm que ser reificadas em assimetrias e as diferenças não equivalem a desigualdades imutáveis, nossos estudos até então erguidos sobre as virtudes da civilização ocidental estão desafiados a dar conta, hoje, da civilização planetária, que não se pretende homogênea, mas se deseja plural e justa, com a verbalização das significações de mundo também daqueles historicamente silenciados. A transdisciplinaridade e as redefinições do colonial x moderno longe de projetar essencialismos e fundamentalismos espera inaugurar releituras de pensadores clássicos e contemporâneos capazes de configurar uma intervenção epistêmica e política a fundar uma intersubjetividade mais ampliada entre pessoas, povos, línguas, experiências e projetos de vida.

5. Amazônia e ecossistemas, entre a depredação econômica e a sustentabilidade planetária

A realização do XXVIII Congresso da ALAS na cidade do Recife é um momento importante para se incorporar como problemática sociológica o “patrimônio dialógico” que representou o Fórum Social Mundial, em Belém (2009), no que diz respeito à luta contra a depredação do meio ambiente, aos conflitos decorrentes da ameaça aos territórios e às culturas de povos indígenas e camponeses e ao imbricamento entre a depredação ambiental e os conflitos sociais. Essa é uma base para uma refletir sobre conflitos, contradições, proposições e articulação de atores e instituições voltadas para a busca da sustentabilidade social e ambiental na América Latina e no Caribe.

A gestação da sociologia latino-americana

Considerando que a América Latina é cada vez mais visualizada como um cenário de grandes mudanças do Século XXI, compreende-se que a ALAS assuma papel de destaque nesse debate na medida em que sua tradição constitui o próprio aval necessário para se promover o novo pensamento crítico nas diversas linhas de ação e reflexão acima sugeridas.

Enfim, há que se assinalar que Recife é uma cidade que tem sua história marcada pelas águas. Águas das navegações marítimas e das navegações ribeirinhas. Águas de seus mangues e rios. Nos versos dos poetas e músicos recifenses as águas lembram sempre os sonhos e esperanças de novos mundos. Esta mensagem que é a própria imagem do Recife serve também como metáfora de outra América Latina possível, como emblema dos sonhos de um mundo latino-americano mais amistoso e justo.

A construção do conhecimento latino-americano neste século XXI exige o desafio de se atravessar as águas da história e dos horizontes possíveis. Assim, com este espírito de renovação que nos oferece as águas dos mares e dos rios que atravessam Recife, o Comitê Organizador agradece a todos os comitês que o antecedeu e prepararam as bases para o XXVIII Congresso ALAS “Fronteiras Abertas da América Latina”, em setembro de 2011, na cidade do Recife, dizendo aos que nos lêem/ouvem: sintam-se bem-vindos ao diálogo!

 

 

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