Esboço de um sonho

Por Lisandro Moura

            Levantei com a estranha sensação de ter sonhado algo de misterioso novamente, mas não consigo lembrar. Eu sempre esqueço dos meus sonhos. Aliás, acho que sonho pouco. Só lembro de flashs, imagens desconexas que não são passíveis de explicação. Nunca consigo inventar palavras pra contar um sonho a alguém; mas esse foi diferente. Tenho a sensação de que é importante e por isso preciso lembrar. Para lembrar é preciso esquecer que tenho que lembrar.

            Fiz comida, liguei a TV da sala e estava passando o desfile de carnaval, um samba-enredo que leva o tema da Gaya, a Mãe-Terra. Desfile de índios, serpentes marinhas, fogo, terra, raízes, rituais e, na última ala, o caos, a destruição de Gaya. Toda essa mistura de cores, de ritmos e movimentos me remeteu ao sonho que eu já desistira de lembrar. Não ao conteúdo em si, o carnaval ou Gaya, mas ao mistério que havia por traz daquelas imagens. Aos poucos, uma narrativa própria, de início, meio e fim, começou a se desenhar na minha mente.

            Sonhei que eu estava parado em frente a minha casa natal, na cidade de Tugaré. Eu peço para entrar. Os atuais habitantes saem e me deixam sozinho dentro de casa. À medida que eu caminho, vou revivendo memórias do pai, da mãe e do irmão. Abro gavetas, armários e revivo no cheiro das cosias as memórias da infância. Abro a porta do corredor que levava até a sala de estar. No sofá da sala está sentada uma pessoa que me olha e me sorri. É um guri vestido de azul. É como se eu o conhecesse. É estranho, aquele sorriso me hipnotiza. Eu desvio o olhar depois de fitá-lo por segundos. Dou meia-volta em direção à cozinha, por onde entrei, mas agora a porta está trancada. Os atuais moradores me deixaram trancado. Eu arrombo a porta, numa espécie de desespero e fúria. Antes de sair eu olho para trás, para saber se o guri de azul ainda estava lá. Assim que me viro, enxergo apenas um flash branco. Ele fotografa meu rosto. Os atuais moradores da casa natal estão lá fora e me contam que o guri de azul sentado no sofá, era eu. Acordo.

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Diálogos culturais na cidade

por Lisandro Moura

            Desde que iniciamos as atividades dos “Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação”, no âmbito do projeto de extensão do Laboratório de Produção Textual – LAB/Unipampa (PROEXT-MEC), coordenado pela profª. Clara Dornelles, viemos trabalhando para reafirmar a importância formativa da diversidade cultural e do trabalho coletivo na produção de conteúdo para o Jornal Universitário do Pampa – o Junipampa. Alunos, bolsistas e colaboradores internos e externos atuam em várias frentes para espalhar o propósito original do Jornal, que é a escrita colaborativa em ambiente virtual. De março até o momento, já realizamos oficinas, minicursos e palestras sobre diversos temas: jornalismo literário, fotografia, audiovisual, estéticas e culturas contemporâneas, saída de campo à aldeia indígena, midialivrismo e cultura colaborativa. Até o final do ano, outros projetos já estão previstos, dentre eles a possível vinda de Richard Serraria, numa parceria com o Ponto de Cultura “Pampa sem Fronteiras”. Todos esses eventos e temas convergem para o propósito comum de aliar a escrita experimental aos contextos culturais da sua produção. O objetivo, portanto, é criar na cidade espaços para a socialização de experiências na arte e na cultura, que dialoguem com a comunicação e a educação e contemplem os diferentes grupos culturais da cidade.

            Quando aceitei o convite da professora Clara para coordenar as ações dos “Diálogos”, junto com a amiga Mariane Rocha, aluna bolsista da Unipampa, estava ciente de que o desafio seria grande, uma vez que o cenário cultural em Bagé se caracteriza por uma dinâmica ainda bastante competitiva, com grupos sociais que não têm o costume de costurar ações em conjunto, mesmo trabalhando com temas afins. Como é possível que uma cidade tão positivamente provinciana, cujas relações interpessoais são tão próximas, produza ações tão esparsas e desconectadas? Costuma-se dizer que, em Bagé, as pessoas sabem da vida de todo mundo. O estranho é que, quando algum evento cultural acontece, pouca gente comparece, pouca gente fica sabendo, o que da a entender que cada grupo está atuando separadamente, sem buscar conexões e parcerias. A comunicação pessoal funciona para algumas coisas e para outras não. Cito como exemplo o Atelier Coletivo, um espaço cultural de shows que há oito anos funciona como resistência e contraponto ao monopólio das festas consagradas da cidade. Mas agora, infelizmente, fechará suas portas para a nossa indiferença, a indiferença dos bageenses. O Atelier Coletivo era o lugar por onde passava a vanguarda dos movimentos musicais do Brasil, Uruguai e Argentina. Músicos que costumam lotar auditórios, anfiteatros e parques públicos por onde passam, eram recebidos em Bagé, no Atelier, por cinco ou dez pessoas no máximo!  Há algo de estranho na rainha da fronteira.

            Soma-se a isso o fato de que o espaço da produção artística e cultural local parece estar reservado a algumas poucas pessoas que se autodenominam “especialistas”. São pessoas que têm aversão a tudo o que vem de fora e, mesmo assim, são autorizadas, tanto pelo clã ao qual pertencem quanto pelas mídias locais que as legitimam, para falar em nome da arte com propriedade duvidosa, muitas vezes herdada do passado saudosista, do peso do sobrenome e do grau das relações de compadrio. Ou então, aqueles que se utilizam da instituição a qual pertencem para fazer contraponto às outras, deixando transparecer uma mentalidade cartesiana e competitiva, que separa a cidade por grupos de interesses institucionais excludentes, como se as instituições devessem se preocupar mais com disputas de mercado e de público do que com os benefícios sociais, educacionais, políticos e econômicos para a população local.

            Por outro lado, mesmo que o cenário não seja tão favorável para a integração cultural, o desafio de atuar junto à equipe do LAB é estimulante para quem quer estar numa cidade minimamente habitável, em que o tédio costumeiro ceda lugar ao prazer de viver. A sabedoria trágica de Nietzsche nos serve de exemplo: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. Tenho a impressão de que Bagé sempre foi mais criticada do que realmente vivida. Apesar de todas as objeções que se possa fazer, “o melhor lugar para viver é aqui e agora”, como defendem os nowtópicos. Nossa aldeia é maior que a grande cidade. E já que aqui vivemos, o melhor a fazer não é fugir pra outro lugar, como muitos gostariam de fazer, mas sim reinventar o espaço a partir dos desejos e sonhos da população. O que é bem diferente de pensar a cidade unicamente voltada para os negócios empresariais e econômicos que geram competição, destruição do patrimônio e conflitos de poder.

            Ao contrário da postura individualista, apostamos em um diálogo efetivo com setores, instituições e agentes culturais, sabendo que quanto mais diversificado é o contexto da produção cultural, mais ricas serão as ações e mais eficazes os impactos sociais. Porque, por mais que tenhamos como objetivo ofertar oficinas, cursos e palestras para e com a comunidade, a nossa preocupação mesmo é com os processos, com os contextos formativos de cada atividade, e não tanto com os seus resultados. O nosso interesse, nos Diálogos, é criar novas dinâmicas para o fazer cultural na cidade, em que a parceria, a cocriação e a partilha dos resultados tenham mais importância do que as disputas hierárquicas e conflitos de egos.

            Há muita gente disposta a isso, sem dúvida. Tem surgido na cidade, nos últimos anos, desde a vinda de instituições educacionais que renovaram as formas de sociabilidade na cidade, novas organizações não convencionais engajadas em iniciativas locais que preconizam o “faça você mesmo”. Inteligentemente não esperam pelo calendário cultural oficial do poder público e, assim, congregam segmentos “refugiados” da normalidade institucional. Grupos de dança na periferia, skatistas, rappers, funkeiros, oficineiros, cineastas experimentais, fotógrafos amadores, hackers, ciclistas, pontos de cultura, coletivo feminista Atena, coletivo contra o aumento da passagem (Roletaço), grupos políticos e culturais como o Levante Popular da Juventude, o Juntos!, empreendimentos solidários, agricultura orgânica sustentável, hortas urbanas, músicos de garagem, atores de fundo de quintal, batuqueiros, gaiteiros, ayahuasqueiros, festivais de cinema, de música, de teatro e de dança, jornalistas que criam projetos para além de seus empregos formais, mídias independentes e colaborativas, web jornais, rádio web, projetos solidários práticos etc.

            As experiências são infinitas e estão muito longe de serem mapeadas por completo. O que falta é uma articulação em rede, por afinidades de projetos e sonhos em comum. No momento, o importante é que esses grupos estão, cada um a seu modo, pensando a cultura na sua dimensão simbólica e comunitária, para além de megaeventos empresariais de entretenimento, como as festas e shows com camarotes vip segregacionistas. A cultura tem papel central na produção de subjetividades e na geração de novas formas de viver a urbe. É a matéria-prima da sociedade que valoriza o conhecimento como instância instauradora de múltiplos sentidos para nossa existência, aqui e agora.

Fonte: Publicado originalmente em Junipampa

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Selfies: a mentira é a melhor parte da verdade

Por Lisandro Moura

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Arnold e Helen, pioneiros do pau de selfie. (1926)

 

Fui ao shopping e fiquei estranhado.

Um grupo de adolescentes chega na praça de alimentação, escolhe uma mesa, não pede nada pra beber ou comer e permanece por uma hora fazendo selfies pra postar na rede.

Uma menina produziu o cabelo e a maquiagem para isso. Faz horrores de careta. Cada clic um gesto distinto: língua pra fora, coração, beijinho no ombro. Não conversam entre si e não fazem nada além de fotos. Depois se dispersam e cada um segue seu rumo.

Eu sei que as pessoas buscam inconscientemente formas de reinventar e burlar os espaços usando tecnologias, ainda mais no shopping, lugar artificial que só oferece consumo e nada de estímulos criativos.

Mas o que mais me impressiona é que as fotos postadas não são mais consequências de uma determinada experiência vivida e sim a causa principal para forjar experiências na aparência da imagem.

A vida anda tão chata e pobre em acontecimento que fazer selfie em lugares diversos parece ser o nosso único estímulo pra sair de casa. Faz de conta que estamos lá.

Não é o instante da vivência que interessa e sim como ficcionamos a realidade e inventamos uma suposta felicidade na ilusão de estar vivendo.

O resultado disso é o olho iludido de quem vê as imagens na tela e pensa que a vida do outro está melhor e mais divertida que a sua.

A mentira é a melhor parte da verdade.

 

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O monstro da Panela do Candal

Filme-carta realizado pelos alunos do IFSul Câmpus Bagé, nas oficinas do projeto “Inventar com a Diferença: cinema e direitos humanos”, projeto coordenado pela UFF-RJ, em parceria com Unipampa-Bagé e IFSul-Bagé.. O curta é uma adaptação do conto do escritor bageense Pedro Wayne, extraído do seu livro “A Lagoa da Música”, e narra a lenda do mostro da Panela do Candal pelo olhar dos jovens. Levando em conta o tempo presente, o sentido que sobressai a partir dos fragmentos do conto e da lenda, está na importância de cuidarmos do Arroio Bagé, pois as águas que ainda hoje abrigam o monstro caolho já não são mais as mesmas… Recebeu o Prêmio Memória & Patrimônio na categoria Lendas e Mitos, do 6º Festival Internacional de Cinema da Fronteira.

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“Escrevo. E só”: quando a literatura vira imagem

escrevo e só - capa

“Escrevo. E só”: quando a literatura vira imagem

por Lisandro Moura

A imagem é uma forma de escrita. A escrita tem a forma de imagem. O documentário “Escrevo. E só”, da Giuliana Bruni, busca o encontro dessas duas linguagens numa escrita imagética, ao mostrar a presença da criação literária no audiovisual. Da relação entre literatura e cinema surge, assim, uma poética visual, uma expressão singela das formas pelas quais a literatura concebe-se visualmente.

A intenção aparente da Giuliana era fazer o inverso: retratar no audiovisual a relação de seis escritores bageenses com a literatura local. Mas o cinema pertence ao domínio do imaginário e do simbólico, por isso as coisas são bem mais complexas. O que parece nem sempre é.  Aquilo que se mostra é na verdade aquilo que está oculto. Ou seja, o filme implica algo mais do que o seu significado evidente. Giuliana chega a sugerir esse significado oculto especialmente nas cenas iniciais e finais do curta. Ela usa a literatura para ir ao encontro de si mesma. Nesse sentido, o curta é mais um testemunho do olhar da diretora, da sua visão de mundo, do que propriamente do olhar dos escritores bageenses sobre a literatura local.

O curta intercala imagens oníricas e poéticas com a fala dos entrevistados, dando mais credibilidade aos seus processos de criação. As imagens surgem em momentos recorrentes provocando um corte na narrativa e na própria percepção do espectador. Uma sensação de estranhamento nos toma à medida que a subjetividade das imagens poéticas entram em cena, não para ilustrar os poemas escolhidos pelos personagens, mas para estimular a entrega afetiva do espectador à poesia. Uma forma de expressar em sentimento visual o arrebatamento que o poema escrito pode nos causar. O close nos olhos, a lata que rola sob o chão em preto e branco, as árvores que balançam sob o céu desbotado, o relógio antigo que abriga as horas, a chaleira que esquenta no fogão à lenha, a esperança dos cemitérios… Esse mosaico de poemas visuais, roteirizado por Giuliana e operado pela câmera de Jeferson Vainer, nos convida a imaginar e a sentir a poeticidade do mundo ao redor. É um convite à introspecção.

Os elementos estéticos que compõem a cena dialogam com aquilo que a própria diretora acredita. Aliás, a seleção e o recorte da fala dos personagens dizem muito sobre o que a Giuliana pensa sobre o ato da escrita, pois ela mesma é uma escritora em processo. Como jornalista, acredita na força da subjetividade e da imaginação autoral e, por isso, deixa transparecer um pouco de si quando busca uma forma de olhar o mundo da literatura a partir da mediação das lentes. Por isso também a sua opção pelo Jornalismo Literário, que tem muito a ver com o próprio documentário em questão. Diferentemente da tradição positivista que ainda ronda as redações de jornal, cuja característica principal é a neutralidade do repórter e sua não-intervenção no assunto abordado (o jornalista como pessoa escondida), há, no trabalho da Giuliana, uma contaminação saudável e criativa entre o sujeito que narra e a história narrada, um “entranhamento” entre literatura e cinema, entre imagem e poesia. Ela vai buscar no outro aquilo que ela gosta de dizer, mas sem se esconder. O título já indica, pois está escrito em primeira pessoa. Giuliana narra em primeira pessoa, mesmo que por meio de outros autores. E isso fica claro na passagem final do curta: “enquanto busco respostas para meus anseios, encontro pessoas que são o mesmo eu. Elas tentam tatear, no claro e no escuro, palavras certas para designar sentimentos que são comuns a todos. Viver é escrever. Escrever é viver.”

Giuliana escreveu poesia com imagens.

Rincão do Inferno, uma terra mítica

 

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Rincão do Inferno, uma terra mítica

Por Lisandro Moura

Publicado originalmente na revista O Viés

A região do Rincão do Inferno constitui-se como um dos quatro núcleos populacionais do Quilombo de Palmas, junto com Rincão dos Alves, Campo do Ourique e Rincão da Pedreira. O território foi reconhecido como região quilombola a partir do laudo sócio-histórico e antropológico realizado por pesquisadores(as) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Localiza-se na microrregião de Palmas, distrito de Bagé, quase divisa com Caçapava do Sul, Lavras do Sul e Santana da Boa Vista. Ao todo, segundo Janaina Lobo e Bertussi (2010, p.207), cerca de quarenta famílias residem no Quilombo de Palmas, “fortemente articuladas através de relações de parentesco e pela manutenção secular de trocas simbólicas, desde o período pós-abolição”.

Dentre essas famílias, somente uma vive no núcleo Rincão do Inferno: Dona Onélia, Seu Alcíbio e Seu Nidinho, que passam os dias e noites acompanhadas do porco de estimação chamado Baby, dos cachorros Alambique, Vigilante, Urso e Miúcha, dentre outros animais. Uma grande e bela família.

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O Rincão do Inferno é, hoje, considerado um lugar de forte potencial turístico para a população gaúcha e motivo de muitas reportagens originadas de relatos admirados de viajantes aventureiros que adentram aos mistérios e à beleza da paisagem intocada. O Rincão é um paraíso disfarçado de inferno.

Mas a tradição do lugar nos ensina que, aquele que está disposto a se aventurar nas terras quilombolas do Rincão, precisa manter uma postura de peregrino. A peregrinação representa a ideia de que é preciso caminhar para ver/conhecer. O peregrino faz do seu próprio caminho o objeto principal da viagem. O turista também caminha, mas algumas vezes superficialmente. O psicólogo Yves de La Taille (2009) caracteriza muito bem esses dois tipos de viajantes. Segundo ele, o turista viaja por recreação, e seu tempo de viagem é um tempo programado. Não costuma dar atenção aos detalhes, aos objetos, e tampouco se importa com a história, as condições sociais, naturais e culturais do local. Assim, limita sua viagem ao prazer e conforto dos espaços de consumo já destinados a ele. Já o peregrino é diferente: viaja porque quer buscar alguma coisa, uma identidade ou uma experiência de vida.

Viver a experiência e participar do cotidiano simples dos moradores do Rincão é também uma forma de conhecer e aprender. A vivência no Rincão nos ensina a partilha da vida, do alimento, das histórias que se transformam em sabedoria popular. A convivência com a natureza e com os animais transforma-se numa mística, marcada pelo acento ritualístico, presente praticamente em todo o cotidiano dos moradores. Os rituais promovem uma espécie de retorno ao tempo da unicidade primordial, quando os humanos e a natureza viviam em constante comunicação e interação.

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Dentre as situações presentes no Rincão, os causos ocupam um papel importante, como os da cobra papa-pinto, o do lobisomem, o do tesouro enterrado, a história das bordolezas… Dentre essas, certamente a da cobra papa-pinto é a que causa mais espanto nos visitantes peregrinos. Certa época, quando amamentava uma de suas filhas, Onélia tinha o costume de pegar no sono. Acontecia que vinha sempre uma cobra sugar o leite do seu peito, colocando o rabo na boca da criança, sem que Onélia percebesse. Certo dia, Alcíbio viu a cena e deu uma “machadada” no meio da serpente, que jorrou leite para todo lado (!).

Não se pode compreender adequadamente a sociabilidade de um determinado espaço sem estas situações imperceptíveis, aparentemente triviais, que compõem o imaginário do Rincão. Pois é a relação dos moradores com o lugar, relação entre natureza e cultura, que da solidez à formação comunitária e que serve de base para a sobrevivência. A espacialidade quilombola é o elemento importante na constituição da comunidade, pois oferece as condições necessárias para a reprodução do modo de vida do homem e da mulher da tradição.

Além dos causos, provavelmente os visitantes ouvirão também o som das cordas do violão, tocadas com maestria por Alcíbio. Porque o Rincão soa como música, soa com a música. As cordas sonoras evocam imagens-lembranças de um passado arcaico, ainda presente nas nossas representações. O timbre da viola é agudo e forte, as cordas parecem distorcer o som, dão o aspecto chiado como se estivéssemos ouvindo o rádio ao longe, o antigo rádio. Traz-nos lembranças da vida no campo, a vida que nunca vivemos, mas desejamos viver. Alcíbio não se cansa de dizer aos visitantes: “eu aprendi a tocar violão ouvindo radinho de pilha. Meu sonho era ter um rádio de tomada pra poder tirar as músicas do rádio.” Depois da chegada da luz elétrica, em 2006, finalmente ele virou um cantor de amplo repertório.

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As histórias de vida contadas por Alcíbio, Nidinho e Onélia revelam um ambiente complexo e ambíguo, onde há lugar tanto para os problemas de estrutura local (por exemplo, a distância em relação à cidade, a dificuldade de atendimento médico em caso de urgência, estrada precária etc.) quanto para questões afetivas, de solidariedade, bastante presentes na personalidade e no modo de vida dessa pequena população.

Os moradores demonstram uma inegável riqueza existencial, uma bondade extrema difícil de ver em qualquer lugar. Bondade essa que, paradoxalmente, convive com as adversidades da vida. Porque a vida não é fácil para os moradores do Rincão. Mas, estranhamente, o que chama a atenção nas nossas visitas e nos relatos de viajantes, é que da precariedade das condições materiais pode surgir os grandes ensinamentos sobre o amor, a alegria e a compaixão. Todos que lá estiveram sabem muito bem disso.

É justamente esse imaginário afetivo e solidamente arraigado que assegura a prosperidade coletiva das terras no Quilombo de Palmas. A demarcação do território, para os quilombolas, vai muito além daquela legitimada pela institucionalidade do Estado, e transcende as áreas reconhecidas formalmente como “propriedade privada”. Pois trata-se de uma “terra mítica”, um lugar espiritualmente relevante que remete à memória dos antepassados. O reconhecimento vem da experiência vivida num passado mítico que perdura através dos costumes ancestrais e da tradição oral. São, portanto, códigos cosmológicos distintos da razão econômica ou de Estado. Algo que os depositários da fé desenvolvimentista e mercantil não podem compreender e nem aceitar.

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No Rincão estão presentes todos os elementos fundamentais da natureza: ar, água, terra e fogo. O Rio Camaquã traz repouso, fluidez e bem-estar para todos os que contemplam seu espelho. O fogo de chão está sempre acesso, à espera de um bom papo e de um assado. E o vento que balança as árvores traz lembranças dos que se foram. Mas talvez o Rincão seja mais bem simbolizado pelo elemento terra, por seu caráter de resistência. A terra-território assegura um povo no seu lugar de origem e de destino. O apego à terra é típico da cultura do gaúcho, já estudado e constatado por Barbosa Lessa (2008). O solo do Rincão é duro, forte, rochoso. A terra é resistente, assim também como as pessoas que nela vivem. É ela que liga o ser ao mundo, que nos enraíza e nos convida a viver o mundo na sua intimidade. Acompanhar os moradores do Rincão nas suas tarefas diárias, por exemplo, é um convite ao enraizamento à terra.

Portanto, o Quilombo enquanto terra-território é arquétipo dos refúgios coletivos. É no Quilombo que as pessoas encontram a familiaridade afetiva, o repouso, a tradição e a amizade que tornam a vida admissível, apesar das adversidades. É a reapresentação figurativa da resistência negra, símbolo do anseio pela liberdade. Os sonhos de liberdade ainda são frequentes no Rincão do Inferno, seja na mata, na casa, no rio, no canto do galo ou no voo dos sabiás… O Rincão é a dialética do inferno e do paraíso. Nele, o passado ecoa através da paisagem natural. Para perceber isso, há que ser peregrino.

Referências

LESSA, Barbosa. Nativismo, um fenômeno social gaúcho. 2ª. ed. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 2008.

LOBO, Janaína; BERTUSSI, Mayra. O Legal e o Local: relações de poder, conflitos e a titulação da terra na comunidade quilombola de Palmas/Bagé RS. Caderno de Debates Nova Cartografia Social – Territórios quilombolas e Conflitos, 2010.

LA TAILLE, Yves de. Formação ética: do tédio ao respeito de si. Porto Alegre: Artmed, 2009.

 

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Estamos “comendo” a FIFA

por Lisandro Moura

 Publicado originalmente em Outras Palavras, em 11 de junho de 2014

Publicado em Instituto Humanitas Unisinos, em 12 de junho de 2014

Antropofagia, por Túlio Tavares

Antropofagia, por Túlio Tavares

“O Brasil não é para principiantes”. Essa frase, atribuída a Antonio Carlos Jobim, corresponde a uma advertência para quem coloca em questão o Brasil de hoje e de ontem e de sempre. Em tempos de Copa do Mundo, nosso país está mais do que nunca sintonizado com sua verdadeira vocação antropofágica, tão bem descrita no manifesto oswaldiano: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”[1]. Temos aversão a todo tipo de ordenação, de disciplina, de racionalização que caracterizam o pensamento burocrático impessoal e as economias de todo o tipo. Somos atrapalhados e nos metemos em grandes confusões. Na verdade, essa é a nossa maior riqueza. É que não somos afeitos à domesticação. Nem a FIFA, nem o mercado, nem o Estado e nem ninguém conseguem amansar esse povo complexo e controverso. A FIFA já constatou: o Brasil é o pior país para se trabalhar a sério na organização do Mundial. Não há elogio mais gratificante do que esse. Estamos com as obras atrasadas. Pois que atrasem! Somos originais. Vangloriamo-nos da dor de cabeça que causamos ao inimigo externo. Sairão daqui com o desejo de nunca mais retornar. Mas os traremos de volta, daqui uns anos mais, para causar-lhes uma dor de cabeça renovada.

Aqui no Brasil, nós devoramos o inimigo pela adesão a ele. Uma adesão relativa, é certo, e avessa aos compromissos de filiação. Aceitamos a Copa para mostrar ao mundo quem somos e o que desejamos ou não desejamos. Para mostrar que o país do futuro se constrói na incerteza do presente. Na aceitação do presente como um devir. Aceitamos a Copa para combatê-la através do que ela nos proporciona de melhor: o futebol. Ah, o futebol… O combate acontece na forma de entrega nada maniqueísta. Vai ter Copa e não vai ter. Vai ter jogo e protesto, farras e vaias, sangue e gols e punhos cerrados. O corpo inteiro como experiência coletiva. Abrimos as portas de casa para o mercado financeiro, para a especulação imobiliária, para a violência internacional, violência policial. Dormimos abraçados com o inimigo. E acordamos em festa. No entanto, mal sabem os analistas principiantes que, durante a noite, nós é que “comemos” o inimigo. Assimilamos seus valores e os transformamos de acordo com uma lógica interna, própria do espírito carnavalesco. Tal como nas palavras de Haroldo de Campos sobre o sentido do Brasil canibal: “assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais iniludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar por sua vez, num confronto internacional, como produto de exportação.”[2]

Esse é o alicerce da nossa nacionalidade. A verdade subtropical do pensamento selvagem, o pensamento da fundação da nova civilização planetária. Homo Novus Bresilensis. Eis a virtude do jeitinho brasileiro e do “homem cordial” como produto de exportação. Porque essa é nossa herança mais profunda, nossa ontologia cultural brasileira. Boicotamos o Estado antes que ele boicote nossa espontaneidade. Driblamos os governos e o mercado e apresentamos ao mundo uma nova Copa do Mundo, onde a bola dividirá o campo com os protestos. Usamos a Copa para revelar ao mundo as mazelas do mundo. Nossa luta é contra as instâncias referendadas pelo Estado e pelo mercado, que tentam controlar as efervescências e organizá-las de acordo com a lógica normativa do poder. O poder que vem de cima e que é avesso ao húmus, aos que vivem no chão. Nossa filosofia é chã, como a do Manoel de Barros. Nossa tática é irracional, é anti-tática. O fim da política como estratégia de guerra. A refundação da política como experiência interna, regada à festa. A ordem primitiva. A vitória de Dionísio sobre Apolo. A derrota da ciência pela astúcia do mito. A superioridade da magia frente à desencantada religião. Não seria isso o verdadeiro “ateísmo com Deus” do manifesto antropofágico?

De fato, não há compatibilidade entre o nosso turbante de bananas e a gravata engomada dos executivos da Copa. Aqui a periferia (aqueles do chão) impera antes, durante e depois do carnaval. É ela quem civiliza. Essa é a nossa virtude. Por isso, a tradicional fórmula “colonizadores versus colonizados”, com a superioridade dos primeiros, não se encaixa no nosso perfil. Nossa fórmula é tupi: a anti-fórmula. Somos potência econômica. Mas o que temos com isso? Não partilhamos a riqueza. Dominamos pelo imaginário, esse sim bem distribuído e cada vez mais real e potente.

Não basta a FIFA ter o poder do capital para financiar o espetáculo artificialmente midiatizado e ordenar a cidade de acordo com interesses financeiros. Aqui nos trópicos, capital não é suficiente. Tem que ter jogo de cintura, saber sambar e rebolar na boquinha da garrafa. Caso contrário, damos de 10 a 0 com direito a drible à la Garrincha, balãozinho e bola por entre as canelas. Não basta ter poder, tem que ter espírito. Isso nós temos de sobra. Com o espírito do Exu tranca-copa, o espírito do povo das ruas, dos bêbados e equilibristas, dos palhaços de circo, dos bufões de esquina, dos mascarados, dos craques da várzea… nós vamos, aos poucos, “comendo” a FIFA.

Estamos na véspera da Copa que não vai acontecer. Cabe aqui uma última advertência a todos os que pensam poder colocar o Brasil em xeque. A advertência já foi dada por Hélio Oiticica, o herói marginal, mas poderia ter saído de qualquer outro anti-herói Macunaíma, ou seja, de qualquer um de nós: “quem ousará enfrentar o surrealismo brasileiro?”[3]

[1] ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago. In: A Utopia Antropofágica. Obras Completas de Oswald de Andrade. São Paulo: Globo 1990.

[2] Citado por VELOSO, Caetano. Antropofagia. São Paulo: Penguin Classics / Companhia das Letras, 2012, p. 54.

[3] OITICICA, Hélio. Brasil Diarréia (1973). In: In DERCON, Chris et all (org). Hélio Oiticica (catálogo). Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1998.

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A cidade imaginada I

por Lisandro Moura

Aquilo não era uma cidade, nem uma igreja, nem um rio, nem cor, nem luz, nem sombra; era devaneio. Fiquei imóvel por muito tempo, deixando me penetrar suavemente por esse conjunto inexprimível, pela serenidade do céu, pela melancolia da hora. Não sei o que se passa no meu espírito, nem poderia dizê-lo; era um desses momentos inefáveis, em que sentimos em nós alguma coisa que adormece e alguma coisa que desperta. (Victor Hugo)

       São 380km de viagem, repletos de horizontes e imensidões. A travessia é de dúvida, medos e esperanças. “Alguma coisa que adormece e alguma coisa que desperta”. Foi exatamente isso que senti quando pus os olhos naquela cidade que antes eu rejeitava. Para além das desavenças que eu havia alimentado com a cidade de Bagé, tanto pelo ambiente provinciano e coercitivo quanto pelo conservadorismo moral de dominação familiar que ainda existe nesse lugar, e que, inclusive, me motivou a buscar novos horizontes na capital, para além de tudo isso, eu estava de volta e parecia que eu havia retornado a um lugar que já estava em mim. Era um retorno a mim mesmo. A fotografia, neste reencontro, desempenhou papel de guia imaginário, conhecedora dos caminhos, auxiliou-me na tarefa de percorrer a cidade. E eu fotografo tudo, como quem admite que precisa reaprender a ver.

Ruelas. Foto: Lisandro Moura

Ruelas. Foto: Lisandro Moura

Tudo o que briva vê

Tudo o que brilha vê. Foto: Lisandro Moura

       Que cidade deserta é essa? Tem casas antigas e todas elas baixinhas, ruas largas de paralelepípedo onde antigamente circulavam carretas de boi. Cidade de fronteira por onde correm ventos ancestrais. A terra, que sustenta o fardo dos antepassados, é firme e seca. Ao caminhar por estas ruas de pedras portuguesas, povoadas de histórias, os pensamentos voam longe até ceder lugar aos devaneios. As luzes amarelas pintam a noite e as horas da cidade com um tom melancólico e belo, convidando os habitantes para momentos constantes de introspecção. Dizem as pessoas de senso prático que a iluminação de cor amarela tem a função de afastar os cascudos que costumam infestar a cidade nas noites de verão. Mais do que isso, a lâmpada que espreita a rua é um refúgio para os pensamentos dos caminhantes solitários. “Tudo o que brilha vê”, resume a cosmologia imaginada de Bachelard, que eu mesmo posso sentir agora ao estar presente na luz amarela da imagem fotográfica. Já não sou eu que vejo a cidade, é ela que me vê.

          Ao retornar ao pago, visitei lugares onde eu vivi quando criança, a primeira casa onde morei, as ruas por onde passei, o arroio que já secou, os trilhos por onde passava o trem e ainda passa… Redescobri o valor de um “ó de casa”, de cumprimentos de desconhecidos que cruzavam meu caminho, “Buenas tarde, vizinho!”. Presenciei situações extremamente enraizadoras e raras nos dias de hoje, como as tardes que abrigam rodas de chimarrão em frente às casas ou na sombra das árvores.

Cadeiras na calçada. Foto: Lisandro Moura

Cadeiras na calçada. Foto: Lisandro Moura

       Quem passa diante de uma cena dessas e realmente vê, não consegue mais acreditar na máxima do burguês americano que ainda povoa nosso imaginário moderno: Times’s maney (“Tempo é dinheiro”). Ficar sentado em frente à casa, tomando chimarrão e “jogando conversa fora” com o vizinho pode ser um insulto à lógica instrumental predominante do nosso tempo. Através da foto, as pessoas me comunicam, sem que eu precise chegar perto e puxar assunto. “Parem tudo”, dizem-me os habitantes imaginários em frente à casa, “sentem-se e permaneçam em silêncio, observem a rua e vejam como ela passa. Não há mais o que fazer porque tudo já foi feito. Vamos frear a marcha do progresso. Recolham-se e aprendam a ver, ouvir e falar em silêncio… Pra que tanta correria se o que vocês procuram está nos seus próprios olhos?”. Tempo não é dinheiro. Tempo é instante… Carpe Diem! Ao escutar a fotografia, eu descubro aos poucos o que eu havia perdido.

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Texto publicado originalmente em Junipampa

Conselhos de Classe 1

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por Lisandro Moura

Para quem não sabe, o Conselho de Classe é um ritual secreto e soberano que acontece ao final do período letivo das escolas. É quando nós, professores, munidos de documentos, planilhas, números enigmáticos, classificações diversas, nos reunimos para decidir a vida escolar, profissional e afetiva de jovens adolescentes matriculados na escola. Nesse caso, o poder do cerimonial serve para legitimar o professor como o indivíduo mais poderoso da hierarquia dessa micro-sociedade que é a escola. Por isso nós somos os únicos habilitados a participar do Conselho. Esse mérito advém de algumas provas iniciáticas pelas quais passamos em nossa trajetória profissional.

Assim, sob as influências mágicas do ritual e do recital de Notas, podemos avaliar secretamente a trajetória acadêmica dos alunos e proferir algumas palavras depreciativas ou elogiosas de acordo com o desempenho do neófito. Raramente temos sucesso nas nossas evangelizações ou missões educativas, mas exigimos o máximo do aluno. Este é considerado um ser sem luz, aquele que não sabe, enfim, um bárbaro a quem devemos educar em troca de dádivas substanciais (também chamadas de salário). Educar significa, aqui, inculcar valores normatizantes provenientes dos saberes especializados da divindade superior chamada Ciência. Esses saberes são reorganizados pelo Ministério da Educação, uma espécie de divindade inferior, e transmitidos aos iniciados pelos professores, por meio de “aulas” ou slides em Power Point. Todo o ritual é protegido e garantido pelo Deus Instituição, a quem servimos com muita devoção. Todo professor que afronta o poder das divindades Instituição, Ciência e/ou Ministério, sofrerá algumas sanções. Por isso obedecemos e somos fiéis.

Normalmente, no Conselho, sentamos em forma de círculo sagrado, de portas fechadas, e evocamos o nome do aluno para, com a ajuda dos computadores, classificá-los de acordo com valores morais: bom, ruim, fraco, forte, preguiçoso, interessado, participativo, inteligente, querido, chato, burro, bonito, sujo, e assim por diante. Classificamos também de acordo com os modos de agir, além de critérios psicologizantes: “tem dificuldade”, “problemas de atenção”, “não consegue aprender” etc.

Nossa arma simbólica e sagrada, a mais poderosa de todas, chama-se Reprovação Escolar. Ela corresponde ao nosso Totem. Quando alguém anuncia a reprovação de um neófito, nosso olho brilha, nosso poder aumenta, pois essa arma é a única que nos assegura algum tipo de status frente à completa falta de autoridade social que o nosso clã enfrenta na atual sociedade. Queremos que o nosso Totem vire Tabu, pois ele nos protege diante da genialidade dos estudantes, que resistem ao sistema de todas as formas. A violação do interdito provocaria um castigo divino. Por isso, a Reprovação é a nossa única garantia para nos mantermos na hierarquia superior do processo de ensino e aprendizagem, diante dos poderes influentes da vida lá fora, que também educa.

A Reprovação é, hoje, a única razão de existência e de reconhecimento desses profissionais do Ministério da Educação, que servem ao Deus Instituição, contra as forças emergentes dos jovens estudantes. Estes estão cada vez mais bem sintonizados com o fluxo da vida contemporânea, e são possuidores de habilidades sociais refinadas e de muita sensibilidade. Esses jovens também são chamados de Rebeldes, Futuro do país, Índigos, Cristal, Geração Y, Z etc. Mas nós, professores, preferimos dizer “bárbaros”. Estudamos muito para chegarmos até aqui. Mas nosso salário (ou dádiva) não condiz com o importante trabalho que fazemos para a Nação e para o povo. Eis a nossa crença.

A pedagogia simbólica dos Narradores de Bagé

Texto de Lisandro Moura,

professor de Sociologia do IFSul

Narramos quando vemos. Porque ver é complexo como tudo.

– Fernando Pessoa –

O que aprendi do cinema foi desfocar o universo

– Manoel de Barros –

 O vídeo-documentário Narradores de Bagé (uma referência ao filme Narradores de Javé, de 2003) é um breve resumo de dois anos de trabalho realizado no âmbito das disciplinas de Sociologia e História do IFSul Câmpus Bagé, a partir de uma metodologia compartilhada com jovens estudantes do ensino médio e técnico. Os cinco episódios que compõem o curta nos falam do encontro da instituição escolar com os saberes e crenças populares de comunidades tradicionais do município: apostadores de carreiras de cavalo, quilombolas, ciganas, benzedeiras e comunidades de terreiro. As imagens evocam paisagens culturais que são redundantes da nossa experiência de (auto)formação. São fabulações sobre o ato de ensinar e pesquisar a vida comunitária da cidade, em que a invenção da imagem não é somente meio para obter informações, mas é também o grande tema do processo de ensino.

A experiência dos narradores situa-se no contexto de reformulação dos meus fundamentos pedagógicos e das formas de produção do conhecimento em Sociologia. Essas formas de fazer e ensinar sociologia nos convidam a adentrar nas imagens poéticas dos espaços comunitários para praticar, assim, uma sociologia da imaginação poética, profundamente enraizada ao solo da tradição. Um ensino que implica numa religação dos sujeitos com o espaço referente, o que faz do professor de Sociologia um verdadeiro iniciador de cultura.

A palavra cultura, nesta prática, denota as raízes do solo, da terra: o húmus. As forças telúricas e o cultivo da tradição mediante o ensino da Sociologia. Não a tradição marcada pelas ideologias regionalistas, mas a tradição de uma ordem interna que subsiste, apesar dos tempos, nas nossas representações imaginárias e que é anterior à formação do “espírito científico”. Isso não significa um retorno ao passado, mas uma tentativa modesta de romper com os anacronismos e revelar o que tem de tradicional na própria contemporaneidade.

Em outras palavras, trata-se de revelar os componentes atuais do arcaísmo, de voltar as atenções ao ser humano, na sua dimensão sacralizada. É justamente isso que observamos na nossa convivência fraternal com o Alcíbio, Onélia e Nidinho, moradores do Rincão do Inferno, ou nas lições dionisíacas da cigana Anita, ou nas palavras mágicas das benzedeiras da cidade, bem como nos rituais festivos da Umbanda e Kimbanda. Em Bagé, todo ato, por mais cotidiano que seja, torna-se uma comunhão com o sagrado. Cada gesto revela uma cidade mítica e reencantada.

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Ao mesmo tempo em que há, por parte dos alunos, um percurso em direção ao redescobrimento de Bagé, por meio da interlocução com novos atores da cultura popular, há também, no vídeo, uma dinâmica ficcional que narra os narradores no momento espontâneo da narração. É a narração do ato de narrar. A câmera trêmula, a imagem por vezes desfocada (não por gosto, mas por erro mesmo), e os enquadramentos amadores revelam uma estética dos Narradores bastante característica desta experiência de ensino com pesquisa. Nela, os estudantes não filmam de maneira planejada e recomendada pelos manuais do cinema. Eles vivem enquanto filmam. Há, portanto, uma correspondência entre viver e filmar. A câmera é uma extensão do espanto do olhar, da tremedeira das mãos. A máquina filmadora é um apêndice do nosso corpo e está a serviço da nossa imaginação. Na dinâmica da vivência, o tripé ficou pra trás, pois a estabilidade que ele propõe não condiz com a aventura narrativa.

O cinema, assim como toda narrativa visual, nos auxiliou a exercitar uma sociologia do instante, que marca a presença do sujeito no momento da imagem. O olhar participa do instante, ou melhor, ele intensifica o instante. Assim, não estamos apenas no cotidiano, contemplando-o. Estamos com o cotidiano, vivendo-o e recriando-o através da imagem.

É nesse sentido que o vídeo, editado pelos alunos Marcelo Fróes, Luciana Gonçalves e Maurício Barañano, tem a função de interrogar-nos sobre o “fazer-se” do ensino da Sociologia na escola para além da escola. Em alguns episódios, ficam evidentes os nossos procedimentos de aproximação às pessoas e ao universo da cidade, com o auxílio das câmeras digitais. As câmeras mostram a intimidade do ato de observar e de conviver com o outro. Elas alargam nossas fronteiras em direção ao tema da cultura popular de Bagé. O que se denota é a tendência cada vez mais acentuada do caráter concreto e virtual do trabalho de campo.

De alguns anos pra cá, a presença das câmeras na minha atividade docente vem cumprindo um papel fundamental na construção do conhecimento, do ensino e da aprendizagem. Além de elas nos forçarem a ver com atenção, também nos dão autoridade para narrar. Sobre esse ponto, estou amparado nos trabalhos desenvolvidos por Luciana Hartmann (2012; 2009), que sugerem múltiplas reflexões sobre as implicações do uso da filmadora e da fotografia nas pesquisas acadêmicas, especialmente na área da Antropologia. Segundo a autora, a utilização do audiovisual em trabalhos de campo facilita a comunicação com os sujeitos, mediante o fortalecimento dos laços com a comunidade.

Da mesma forma, acredito que a simples presença dos aparelhos audiovisuais não só estimulou os meus alunos a saírem a campo como também permitiu o contato mais seguro com os seus interlocutores. Eles conversaram com pessoas, observaram comportamentos, ouviram histórias, enfim, protagonizaram situações diversas com o pretexto de filmar e fotografar. Pois, quando se está com a câmera fotográfica em mãos, tem-se o dever de estar atento, de não perder sequer o movimento das mãos, a expressão do olhar, o suspiro do silêncio.

A importância das câmeras digitais (fotográficas e filmadoras) na pesquisa sociológica de rua está na possibilidade de deslocarmos o olhar e transformarmos as minúcias do cotidiano e dos gestos aparentemente banais em experiências formadoras significativas. Pois as relações sociais de um determinado espaço são compostas por situações imperceptíveis, aparentemente triviais, mas sem as quais não se pode compreendê-las adequadamente. A linguagem visual nos permite compor quadros figurativos do espaço, revelando sua dimensão estética e poética, que nem sempre se pode observar com acuidade.

A forma com que interagimos com o espaço e como traduzimos a vivência em um documentário de 18 minutos, deixa a entender que algum tipo de aprendizagem emergiu. Uma aprendizagem mais formativa do que propriamente informativa, e impossível de ser quantificada e classificada. No episódio do Rincão, por exemplo, as imagens sugerem que bastou as alunas sentirem o sabor do churrasco feito pelo Seu Alcíbio e o arroz com feijão feito com carinho pela Dona Onélia, disputado até pelos cachorros da volta, para apreender os acontecimentos na forma de sentimentos. Isso tem muito mais a ver com educação do que a simples transmissão de conteúdos em sala de aula.

Contudo, há que se levar em conta que, no vídeo, os episódios não foram muito bem explorados em suas nuanças e contradições. Nossa opção foi fazer um apanhado geral da nossa imersão junto às comunidades, não ultrapassando os 18 minutos. Temos a intenção de explorar os detalhes das entrevistas mais adiante, na publicação de um livreto de textos e fotografias, que reunirá os diários de campo escrito pelos estudantes.

Penso que essa aprendizagem tem a ver com uma postura de admiração e adesão ao território da tradição. Uma aventura narrativa de entrega afetiva, em contraposição à postura de desconfiança, de separação entre sujeito e objeto, que comumente caracteriza os estudos do campo da Sociologia. A espontaneidade do ato de pesquisar e filmar traduz a alegria do ato educativo na sua perspectiva simbólica. E o símbolo, como nos lembra Jung (2008, p.64), é tudo aquilo que implica algo a mais do que o seu significado manifesto.

Assim, para além da aparência visível das imagens, e sob a perspectiva de uma pedagogia simbólica (PERES, 1999), vemos que o vídeo contém também um dado oculto que expressa o desejo de ligação com o espaço, uma vontade de viver o instante, criando-o, de misturar-se com ele de forma alegre e espontânea. Viver o espaço com felicidade é reconhecer a alma do lugar. Viver a experiência é também uma forma de conhecer e aprender.

A lição que aprendi na companhia dos narradores de Bagé é de que a prática de ensino em sociologia adquire mais valor se nos entregarmos ao espaço com a cordialidade das experiências oníricas, estimuladas pela linguagem audiovisual. Para que o(a) estudante possa experimentar a atmosfera íntima de um determinado lugar, para que possa compreender o mundo das crenças, é necessário uma dose de distração e divertimento, uma entrega ingênua e apaixonada ao espaço.

 

Referências

HARTMANN, Luciana. Revelando Histórias: os usos do audiovisual na pesquisa com narradores da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai. Campos – Revista de Antropologia Social, América do Norte, 5, jul. 2004.

HARTMANN, Luciana. Do vídeo etnográfico, ou de como contar histórias com imagens. In: Sociais e Humanas, v. 22, p. 55-63, 2009.

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. 2ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2008.

PERES, Lúcia Maria Vaz. Dos saberes pessoais à visibilidade de uma pedagogia simbólica. Porto Alegre: FACED/UFRGS, (tese de doutorado), 1999.

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Moradas esquecidas

Texto de apresentação da exposição “A poética da morada”, de Lisandro Moura. Curadoria de Joba Migliorin. Bagé-RS

 

De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio.

“De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio.”

por José Francisco Botelho

Uma constelação de casarios e ruas, um microcosmo de limiares que ao mesmo tempo ocultam e sugerem, enquadrando os segredos de tantas moradas esquecidas e de tantas vidas silenciosamente contempladas – esse é o milagre pontual que o olhar de Lisandro Moura criou nesta exposição. Captando cores, padrões e minúcias inusitadas, a sensibilidade poética de Lisandro traz à tona uma face às vezes invisível do Brasil: os excêntricos recônditos da Campanha profunda, em que o arrabalde se mistura ao ermo, e onde a existência parece transcorrer ainda em uma toada própria, telúrica, mergulhada na densidade do tempo e da memória. O ritmo das janelas, o traçado dos telhados e paredes, o detalhe casual de uma bicicleta enviesada ou uma criança abanando a mão atrás do poial – um rancho simples e altivo na manhã de inverno – os pastos chamuscados de branco pelas geadas – o olhar melancólico de um cavalo solitário – um fusca vermelho, nas sombras de um galpão – o mistério gentil de uma tapera perdida na suavidade do campo – o musgo e as rachaduras em uma parede anônima – um terneiro guaxo na solidão de um velho pátio – o jogo de cores, às vezes vivas, às vezes desbotadas, que fazem dançar nossa mirada ao longo das esquecidas casinhas que costuram a paisagem urbana à vastidão do pampa – todas essas peças vão sendo montadas em um mosaico de cidade e campo, um compenetrado caleidoscópio de mínimas e calorosas realidades.  O olhar de Lisandro – um olhar que passeia, por um caminho imaginário, sem jamais adentrar as fachadas que carinhosamente observa – fez mais do que pintar um retrato: transformou o exterior dessas moradas em um infinito santuário humano.

Cartaz de Ana Remonti

Cartaz de Ana Remonti

A poética da morada

Exposição fotográfica realizada com base no livro A poética do espaço, de Gaston Bachelard. Curadoria de Joba Migliorin.

Cartaz de Ana Remonti

Arte de Ana Remonti

por Lisandro Lucas de Lima Moura

As fotografias desta exposição procuram dar um sentido visual à poesia do verbo habitar, reforçando a noção de casa como morada e como lar. O trabalho surgiu da leitura do livro A poética do espaço, de Gaston Bachelard, dentro do GEPIEM – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Imaginário, Educação e Memória, da UFPel. Surgiu também do meu reencontro com a vida interiorana da cidade de Bagé e seus cenários repletos de arcaísmos e horizontes, que nos convidam para o exercício do olhar criador.

No livro, Bachelard examina, sob o ponto de vista da fenomenologia da imaginação poética, as imagens dos espaços simples, ou, como ele diz, “as imagens do espaço feliz”. Para isso, elege a casa como símbolo predileto dos valores da intimidade.

A intenção do trabalho é transformar os devaneios íntimos propostos por Bachelard em fotografias de casas antigas, de lares que remetem aos elementos da intimidade, e que têm a força de despertar os valores da imaginação que ele propõe. Bachelard considera a imagem da casa como sendo a “topografia do nosso ser íntimo” e a “maior força de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos”.

Fotografar casas foi o meu passatempo favorito desde que retornei a Bagé. Eu vagava com displicência pelos vilarejos, estradas e ruelas da cidade e do campo, bem como de algumas regiões do Uruguai, e deixava meu olhar vagabundo se entregar à simplicidade das casas circundantes. Bachelard me ensinou que as casas não são somente algo que possamos reduzir a objetos físicos e geométricos. Elas são fenômenos da imagem poética, ou seja, “quando a imagem emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado em sua atualidade.” Representam mais do que uma obra arquitetônica. São as marcas do cuidado de seus moradores. São, acima de tudo, espaços vividos, espaços da memória. Com a poética da morada fotografada, passamos do mundo geométrico para o mundo sonhado.

A fotografia desempenha, para mim, um papel de guia imaginário: é conhecedora dos caminhos e auxilia-me na tarefa de percorrer os lugares. Não sendo fotógrafo de formação nem de profissão, considero o ato fotográfico como velho hábito displicente de registro de impressões, como se a fotografia tivesse o poder de me fazer ver melhor, de intensificar o instante e, também, de projetar pensamentos sobre aquilo que vejo. Utilizo a câmera como forma de me aproximar das coisas e das pessoas, como se ela fosse uma espécie de justificativa para o meu olhar intruso. O ato fotográfico, nesse caso, intensifica o instante poético e assinala minha presença no tempo mesmo da imagem.

As fotos que compõem a exposição foram selecionadas com o cuidado e a dedicação do fotógrafo Joba Migliorin, que assina a curadoria do trabalho. Joba construiu uma narrativa visual coesa sobre o tema da morada, sobre o tema do lar como arte de viver bem. Na montagem da exposição, privilegiou a interação do público com as imagens e as frases de Bachelard, relacionando linguagem e conteúdo de forma harmônica e em perfeita relação com A poética do espaço. As citações do livro desempenham uma função de “legenda” e dão sentido às imagens para além da própria imagem. As fotografias se entrelaçam à teia de sisal e dão vida às casas olvidadas, movendo nosso imaginário habitado em direção às lembranças e sonhos de aconchego.

As casas simples das cidades do interior me chamam a atenção pelo aspecto indefinido de sua composição estética. Não são reformadas, não carregam intenções artísticas formais em suas fachadas, não são consideradas patrimônio histórico, tampouco são objetos de adoração da população. No entanto, são essas casas que me interessam, justamente porque têm a força de atrair imagens primordiais. Elas fazem eco aos valores do homem contemporâneo entregue às situações primitivas. Quanto mais simples elas são, maiores serão as nossas lembranças.

Sintam-se em casa…

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Vista intimamente, a mais simples moradia não é bela?

A seguir, fotos do coquetel de inauguração da exposição, feitas por Joba Migliorin:

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Nós, ruínas. Vós, terra.

Tava Miri - espiritualizada aldeia de pedra

Tava Miri – espiritualizada aldeia de pedra. Foto: Lisandro Moura

Lisandro Moura

Nos dias 18 e 19 de abril de 2013, os alunos do IFSul Campus Bagé visitaram a Aldeia Alvorecer (Tekoá Koenju) e o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, denominado pelos Mbyá Guarani de Tava Miri (Espiritualizada Aldeia de Pedra). A atividade foi coordenada por mim, prof Lisandro Moura, e pela professora Laura Ferrazza, e constitui-se como momento fundamental do Plano Curricular das disciplinas de Sociologia e História para os alunos(as) do 2º semestre dos cursos de Informática e Agropecuária. Para esta etapa, os alunos estudam noções de cultura e diversidade cultural brasileira, tendo como um dos enfoques a cultura ameríndia no Brasil e, especificamente, no Rio Grande do Sul. Em sala de aula, foram abordados assuntos e conceitos importantes para a formação dos jovens no que diz respeito à predisposição para o diálogo intercultural com os povos nativos: etnocentrismo, relativismo cultural, multiculturalismo, mitologia e cosmovisão indígenas, além do estudo sobre a história dos povos missioneiros. Sendo assim, as saídas de campo à Aldeia Koenju e à Tava Miri são oportunidades únicas de vivenciarmos na prática a história das Reduções Jesuíticas, bem como conhecer de perto o modo de vida das comunidades indígenas, da etnia Mbyá Guarani, cuja história está profundamente vinculada à formação do estado do Rio Grande do Sul.

Esta é a segunda viagem a São Miguel das Missões realizada pelo Campus Bagé, e a nossa intenção é que ela aconteça uma vez ao ano, como ação integrada ao NEABI (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do IFSul Campus Bagé). A justificativa diz respeito a necessidade, cada vez maior, de se fazer cumprir a Lei nº 11.645, de 2008, que alterou o Art. 26A da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira) para estabelecer a obrigatoriedade da inserção da temática da história e cultura dos povos indígenas nos currículos oficiais das redes de ensino públicas e privadas. Deste modo, é papel das Ciências Humanas e áreas afins desconstruir a predominância da visão eurocêntrica e etnocêntrica sobre os povos nativos do sul do Brasil, produtora de preconceitos e discriminações, e trabalhar, assim, a cultura ameríndia na sua complexidade, valorizando a sabedoria popular destes povos e sua importância para a autoformação humana e para a formação da identidade cultural nacional.

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju. Foto: Millena Rodriguez

Mais do que um simples projeto curricular, a viagem foi uma forma de participarmos do drama antigo (e sempre atual) que destruiu toda uma civilização inspirada na justiça, na solidariedade e na vida comunitária. Fomos em busca da Terra sem Mal (Yvy Mara ey), da reconexão com a nossa ancestralidade indígena. Fomos invocar a sabedoria daqueles homens, mulheres e crianças que continuam a pelear em nome da liberdade. Nos juntamos a eles e sentamos à beira do Rio Inhacapetum, bebemos a água da fonte missioneira e pisamos o chão daqueles que nos ensinam a amar e a conviver com a natureza.  A Tekoá, lugar por excelência do viver guarani, não é somente espaço físico, mas é também um território simbólico que nos causou encantamento. O imaginário que envolve a Tekoá Koenju tem poder de influência nas pessoas que lá chegam. “Afetam” nosso estado de espírito e nos fazem ver o mundo por outro ângulo. Por isso, a permanência das populações ameríndias nos seus espaços de origem é de suma importância para a continuidade da vida, para a manutenção dos costumes tradicionais, pois trata-se de uma “terra mítica”, algo que os depositários da fé econômica e desenvolvimentista não podem compreender e nem aceitar.

Foto de Lisandro Moura

Foto: Lisandro Moura

A Tekoá vai muito além da simples tradução de “Aldeia”, pois esta se refere unicamente à noção fundiária, ou seja, áreas reservadas e demarcadas pelo Estado. Quando os juruás (não indígenas) reindicam a terra, é para transformá-la em mercadoria; já para as comunidades tradicionais, sobretudo as indígenas, reivindicar a terra é transformá-la num lugar espiritualmente relevante. A Tekoá é muito mais do que Aldeia, é o espaço da vida, o lugar que permite o modo guarani de estar no mundo.

Percebemos isso logo que chegamos em Koenju. Já pela janela do ônibus avistamos a imagem que poderia ser muito bem representada pela ideia de “paraíso”. A imagem que se formava era a da vida comunitária em harmonia com a natureza. Obviamente que a noção comunitária não está desprovida de conflitos. Dentro do território, há sub-territórios, sub-regiões não tão harmoniosas e de difícil compreensão. Mas o que ficou mesmo foi a imagem das crianças brincando descalças, sorrindo e rolando pelo chão. Em frente às casas, as famílias nos olhavam de longe, com o chimarrão em mãos e o fogo aceso no chão. A música cantada e dançada pelos(as) jovens do Coral Guarani (coordenado pelo indígena Floriano Romeu), o artesanato esculpido por mãos obreiras, as histórias contadas pela Kerexu Rete (Patricia Ferreira), cineasta indígena e professora bilíngue da Escola Estadual Indígena Igíneo Romeu Koenju, ficarão pra sempre guardadas na nossa memória como verdadeiras lições de vida.

Crianças mbyá brincando

Crianças mbyá brincando. Foto: Diovanna da Luz

Não há dúvidas: retornamos da viagem com a força daquelas pessoas e daquele chão. Agora, temos em nós a melodia arquitetônica da Tava Miri e o espírito guerreiro de Sepé Tiaraju, que sobrevive na memória dos vivos. Somos brasileiros, gaúchos, com sangue índio nas veias.

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(des)encontro à beira-mar

O mar é o universo perto de nós.

O mar é o universo perto de nós.

Quando dois seres se encontram numa longa extensão de areia, à beira-mar, sob o som agitado das ondas, está certo que isso não é só o encontro de dois corpos, mas de duas almas em completa comunhão com a natureza e consigo mesmas.

No final da tarde, entre 17h e 18h, eles se encontraram para mais uma peregrinação. Cada um vinha de um lado e combinaram no mesmo ponto 60. “Vi de longe que era tu”, disse a moça, que encantava o rapaz pela forma com que seu corpo comunicava os traços subjetivos da personalidade. O simples andar à beira-mar, postura ereta, passos lentos, cabelos soltos e vestido ao vento, revelam por trás uma mulher segura e independente. O rapaz a observava de longe também, e gostaria de poder ficar escondido só pra demorar o olhar sobre o corpo deslizante. “Ela é uma paisagem toda”, pensava. Ela é livre, nada possui, nem a si mesma. Ela pertence à praia, a praia é toda ela. Quando a moça se aproximou, o rapaz teve a estranha vontade de olhar para o interior das coisas. Olhar para ela é como se ele a visse toda nua.

Ao iniciar a peregrinação em direção ao norte, conversaram sobre o tempo, o espaço, as nuvens, a própria praia, sobre a história do lugar, sobre a justiça brasileira, a situação dos presídios, sobre Luis Eduardo Soares, trocaram ideias sobre o aborto e o ato de ter filhos, família, trabalho… O assunto variava de acordo com a intensidade do vento e do sol. De vez em quando ficavam em silêncio, mas era só o tempo das garças apresentarem sua performance, vangloriosas da habilidade de pescar com o bico. E os dois continuaram a conversa, agora sobre sociologia, psicologia, psicanálise, e entre uma citação e outra, lá estava Wilhelm Reich e Carl Jung. Tinham o costume de mesclar assuntos sem a necessidade de um fio condutor, fazendo referência ora à relação das crianças pequenas com o mar, ora com os mistérios da Mãe Terra. Ele falou também do “sagrado selvagem” e ela do “sagrado feminino”, e concordaram sobre a necessidade do “feminino selvagem”. Concordaram também sobre a existência dos ET’s e, juntos, chegaram a uma conclusão de como eles se manifestam em cada ser, enquanto mais uma garça aterrizava na água.

No final da caminhada os dois sentaram-se de frente para o mar, um ao lado do outro, sob a canga preta que ele carregava, desejoso de poder dividir com ela um espaço pequeno para que, enfim, pudesse ao menos senti-la mais próxima. Ela tinha um beijo acelerado e ansioso pela saliva alheia. Durante a caminhada nenhum dos dois havia bebido água. O beijo fazia jus a toda personalidade dela. O rapaz tem mania de se enamorar por todas as mulheres livres e independentes, que não necessitam dele e nem de ninguém. Depois do beijo rápido, permaneceram em silêncio e se despediram, indo cada um para o seu lado. Nenhum dos dois sequer sabia quando voltariam a se ver novamente, talvez amanhã ou talvez nunca mais. Não importava. Os dois estavam em acordo, em comunhão com a natureza e consigo mesmos, e cientes de que a vida só vale a pena se for feita de encontros.

Narradores de Bagé

O projeto Narradores de Bagé é resultado da pesquisa Cultura Local e Tradição Popular em Bagé, coordenada pelos professores Lisandro Moura (Sociologia) e Rafael Lima (História), do IFSul Campus Bagé. O Projeto faz referência ao filme Narradores de Javé, de Eliane Caffé, e tem como finalidade a construção de narrativas visuais e textuais sobre a cidade de Bagé em conjunto com 24 os estudantes do IFSul. Ao longo do ano de 2012, através de pesquisa bibliográfica e etnográfica, observações participantes e entrevistas, mapeamos e analisamos informações sobre diversos aspectos culturais tradicionais da cidade: carreiras de cavalo, vida cigana, futebol de várzea, atos de fé e comunidades quilombolas. Uma pequena demonstração do trabalho pode ser visualizada neste vídeo de curta duração, elaborado por Luciana Gonçalves e Marcelo Fróes, ambos estudantes do IFSul.

IFSul no 4º Festival Internacional de Cinema da Fronteira

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O IFSul Campus Bagé recebeu na noite do dia 25/11/2012 uma homenagem por apoiar e estimular o IV Festival Internacional de Cinema da Fronteira. O Campus ainda levou o troféu de Menção Honrosa por conta da produção do filme-documentário “Atos de Fé em Bagé“, realizado pelas alunas Luciana Gonçalves, Tamíris Soares, Andressa Lencina, Amanda Thomazi e Natalie Scherer. O trabalho originou-se do projeto de ensino e pesquisa chamado Narradores de Bagé, coordenado pelos Professores Lisandro Moura e Rafael Peter. A produção foi exibida durante a Mostra Regional do Festival, juntamente com outros filmes realizados na cidade de Bagé e região.

O documentário narra uma importante manifestação cultural-religiosa da cidade: a Procissão Luminosa de Nossa Senhora Auxiliadora, também conhecida como “Festa das Velas Votivas”. A procissão é uma prática tradicional que acontece oficialmente desde 1943, sendo parte do patrimônio histórico e cultural da cidade.

Desde 2011 o IFSul vem apostando na formação dos estudantes para o uso das tecnologias audiovisuais, especialmente o cinema, mediante projetos de extensão coordenados pelo professor de Sociologia Lisandro Moura, tais como o Cinema e Educação em Debate, o Cine Matinal, o Narradores de Bagé e o Projeto Cinema e Cultura Indígena, o qual contou com a participação da cineasta da etnia Mbya-Guarani, Patricia Ferreira (Keretxu), que vive na Tekoá Koenju (Aldeia Alvorecer), localizada na região de São Miguel das Missões. Assim, com o apoio do IFSul, foi aberto um espaço na programação do IV Festival Internacional de Cinema da Fronteira para a discussão a respeito de questões étnico-culturais a partir dos filmes dirigidos pela cineasta indígena.

Durante a 4ª edição do Festival, foi lançado também um manifesto pela criação de uma Film Comission, com representação do IFSul, a instalação de um estúdio e laboratórios de áudio e vídeo na Secretaria Municipal de Cultura, a criação de um projeto modelo RodaCine municipal, o fortalecimento do Programa Cinema da Fronteira, da Secretaria de Cultura, a expansão do Festival Internacional de Cinema da Fronteira e a criação de uma curso de Cinema na Unipampa. O manifesto, lançado na presença do Prefeito Dudu Colombo, tem amplo apoio da população e de uma rede extensa de artistas, professores, estudantes, jornalistas, que vêm trabalhando para transformar Bagé numa cidade referência na produção cinematográfica.

Lançamento do Manifesto pelo Cinema em Bagé. Foto de Franciele Teixeira

Lançamento do Manifesto pelo Cinema em Bagé. Foto de Franciele Teixeira

Equipe do Grupo Narradores de Bagé que produziu o vídeo Atos de Fé em Bagé

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Peixe Morto

Recomendo aos cronópios este livro organizado pela colega Fabi Borges, que contém textos sobre a “história da cultura digital brasileira, sobre os festivais de midia como midia tática Brasil, Digitofagia, Submidialogias, sobre questões mais filosóficas como matéria e natureza, ou ainda ecologia digital, tem também reciclagem de computadores, rituais tecnomágicos, sexo na internet, entre outras coisas. É possível folhear o livro e se surpreender com algumas discussões de ponta, ou críticas duras à orgãos financiadores do Brasil, ou ainda um texto poético sobre a primavera Árabe.” Pra ler, é só clicar aí.

http://pt.scribd.com/doc/101040475/Peixe-Morto-Submidialogias

Mais informações em Submidialogias

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Flash Mob de Leitores: um recreio inusitado

por Lisandro Moura

No dia 22 de junho de 2012 aconteceu o primeiro Flash mob no IFSul-Campus Bagé! Assim que se ouviu o sinal para o intervalo, os alunos da tarde foram surpreendidos por leitores espalhados pelo pátio da escola. O recreio se transformou num palco para uma encenação lúdica e educativa promovida pelos alunos do 2º semestre de Informática e previamente planejada durante as aulas de Sociologia. A atividade contou também com a colaboração e participação do prof. Nei, da Filosofia. Todos com um livro em mãos, lendo concentradamente, como se tudo fosse normal. Quem dera. Não é natural encontrar vários alunos e alunas sentados ou deitados na grama do pátio, imersos na leitura. Simplesmente o espaço foi modificado pela ação coletiva inusitada, aparentemente espontânea, que deu um novo significado para a vivência do recreio. Quando os demais alunos saíram de suas salas perceberam algo de estranho, uns comentaram “Olha, que bonito, todos estão lendo! Temos que tirar foto!” Outros, sem entender direito, perguntavam: é aula de que? Aula de leitura? O que ta acontecendo?!” Outros mais chegados, foram logo pegando o seu livrinho pra se juntar a comunidade de leitores, sem perguntar o motivo de tudo aquilo. Simplesmente porque era bonito de ver e, melhor ainda, bonito de fazer. A presença do sol fez com que a leitura-performance ficasse mais prazerosa e a cena ainda mais bela. Como é bonito ver alguém lendo, e mais bonito ainda é ler coletivamente, mesmo que por um curto período de tempo. É assim que funcionam os flash mobs pelo mundo todo. As pessoas se reúnem num determinado local e hora marcada com o intuito de causar espanto no público, mediante encenação ligeira sem objetivos explícitos. Depois todos se dispersam como se nada tivesse acontecido. Nonsense.

 Como todos os flash mobs, este também não surgiu do nada. O flash mob de leitores faz parte de uma proposta de ensino que venho desenvolvendo nos últimos anos. Trata-se de exercitar uma nova forma de aprender sociologia através de vivências coletivas, sempre pensando no objetivo final de produzir o estranhamento e a desnaturalização de fenômenos sociais – que segundo as Orientações Curriculares Nacionais, correspondem à finalidade principal da Sociologia no Ensino Médio. Isso pode ser feito de várias formas: saídas de campo, aulas em formato de assembleia, caminhadas pela cidade, etnografias em comunidades tradicionais ou em ambientes urbanos, rituais imersivos (ou experimentações imersivas: aulas em ambientes específicos, regada a comida, bebida e música) e, sobretudo, na forma de performances coletivas, ao estilo dos flash mobs e smart mobs, que nada mais são do que ações espontâneas, efêmeras e previamente combinadas que visam provocar o estranhamento e a desintitucionalização de práticas cotidianas.

Antes do flash mob de leitores, os alunos foram estimulados a pensar sobre as formas de se ocupar lugares, a pensar sobre as nossas instituições que, muitas vezes, orientam condutas e definem padrões de comportamento. A sociologia nos ajuda a entender o quanto nossas vidas são regidas por “forças invisíveis”, por normas previamente enraizadas no inconsciente coletivo. Essas normas, ao mesmo tempo que são fatores de coesão social e protegem a sociedade contra estados de “anomia”, são também coercitivas e reduzem nossa capacidade de intervenção, limitam a nossa autonomia. Pensar sobre elas já é um convite à transgressão e à subversão de valores socialmente aceitos. Uma vida, para ser vivida em sua plenitude, depende dessa capacidade de transformação dos nossos hábitos rotineiros, de nossa percepção subjetiva e objetiva do espaço, enfim, de nossa maneira de estar presente no presente. Trata-se de pensar sobre nossos ritos.

Os flash mobs produzem deslocamentos de olhar e deslocamentos do corpo, pois os espaços passam a ser imaginados e ocupados de forma pouco convencional. Na verdade, os espaços passam a ser desorganizados e redefinidos. Se nada disso aconteceu, pois muitos alunos sequer notaram a presença estranha de leitores, o que é extremamente preocupante(!), ao menos o flash mob de leitores nos proporcionou um rico momento de leitura ao sol. Estudantes, aguardem as cenas do próximo capítulo!

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Banca de Qualificação – Imaginário e Ensino de Sociologia

Banca de qualificação de mestrado – UFPel/FaE

As horas se alternam entre a responsabilidade de saber e a liberdade das fantasias, esta liberdade fácil demais do homem solitário.  (Gaston Bachelard)

A escrita da minha pesquisa de mestrado vem acompanhada por um dilema saudável que, inclusive, foi ressaltado pela banca de qualificação nesta manhã do dia 11 de junho de 2012. De um lado, deixo a escrita ser guiada pela liberdade das fantasias e dos sonhos que me fazem voar alto. Busco a autonomia do pesquisador-escritor-artista que sabe que a ciência e a docência devem, ao invés de convencer, seduzir. Ser professor é , ao mesmo tempo, ser pesquisador e mágico-feiticeiro. De outro, a certeza de que quanto mais alto o vôo maior é o tombo e que, portanto, devo ter um pé no chão, alicerçado no saber acadêmico – o porto seguro. No equilíbrio entre um e outro, saio da banca acreditando ainda mais de que a subversão acadêmica, tanto pela escrita quanto pelas idéias e propostas metodológicas, é condição necessária para a sobrevivência da inteligência humana e sobrevivência da própria ciência. Digo isso porque a parte do meu trabalho que mais foi elogiada pela competente banca é aquela em que o meu texto corre livre das censuras. Nesta parte, imerso no imaginário do pampa, eu discorro sobre os processos autoformativos que me levaram a pesquisar o que eu estou pesquisando. O cientista é um escritor disfarçado. Portanto, aqueles que querem dar alguma contribuição ao processo de construção do conhecimento precisam buscar referências não só nos manuais do trabalho científico mas na própria vida, muitas vezes ignorada pela ciência. O cientista hoje é apenas um administrador do pensamento enquanto que o escritor é o criador, potencializador de utopias. O cientista enquadra, o escritor desata e desorganiza os dados. O cientista é o eliminador de ruídos. O escritor sabe que são os ruídos que movem a ciência e o pensamento em direção a novos mundos. Eu tenho os dois em mim.

Projeto de mestrado aprovado pela Banca de Qualificação do PPGE-UFPel, às 11h15min do dia 11 de junho de 2012.

Título: Imaginário e Ensino de Sociologia: a “atenção imaginante” nas narrativas visuais sobre a cidade de Bagé

Autor: Lisandro Lucas de Lima Moura

Orintadora: Profª Drª Lúcia Maria Vaz Peres (UFPel/GEPIEM)

Professores(as) componentes da banca:

Prof. Dr. Alexandre Virgínio Assunção (IFSul-Campus Pelotas)

Profª. Drª. Denise Marcos Bussoletti (UFPel/RS)

Profª. Drª. Luciana Hartmann (UnB/DF)

Profª. Drª. Marta Nörnberg (UFPel/RS)

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Olhos de Coruja: confissões acadêmicas

Lisandro Moura

No verão de 2010 eu estava em um apartamento beira-mar que me cederam para poder escrever minha monografia durante as férias. Tema da pesquisa: o olho sociológico. Foram momentos felizes, de escrita solitária, de contato com a natureza, tendo como única companhia o cheiro da praia, o barulho do vento e os olhos da coruja. Sim, havia uma coruja. Todas as noites ela chegava no mesmo horário, colocava-se no mesmo lugar, num poste de luz que não ligava e ali ficava observando a noite, vendo não sei o que. E todas as noites, madrugada adentro, eu continuava a escrever no aposento aconchegante que me fora emprestado e que, por hora, era meu. De vez em quando ia até a janela de forma inconsciente, mecânica, como quem sai pra buscar inspiração no simples caminhar. E lá estava ela, me olhando. “Que engraçada essa coruja”, pensava. Mexia a cabeça a todo o instante, tinha olhos que mais pareciam óculos. Devia ver o invisível. Passaram-se semanas, e todas as noites era a mesma coisa. Às vezes ela demorava pra chegar, sem me dar por conta, eu começava a ficar preocupado. Mas logo em seguida percebia a estupidez da minha atitude. Afinal, era só uma coruja, e ela não estava nem aí pra mim. Mas, atrasada ou não, ela sempre chegava e isso me era motivo de alívio. Eu seguia lendo e escrevendo, olhando a janela, cuidando a coruja. Até hoje me arrependo de não ter prestado mais a atenção a esse acontecimento, de não ter mostrado esse episódio no meu próprio trabalho, pois ele era, no fundo, o motivo da minha escrita e do tema que nela pulsava a todo instante: o olhar como forma de conhecer, como ato da imaginação sociológica. Estava tão imerso na minha escrita que não via a necessidade de refletir e sonhar com a coruja a olhar. Não percebia que me faltava imaginação, ora justamente aquilo sobre o qual eu escrevia. Faltava-me imaginação para encarar o ato do conhecimento como “intuição admirada do universo”, nas palavras de Maffesoli, ou seja, a “intuição como expressão de um pensamento orgânico”, que vincula o ser humano à natureza e ao mundo cósmico, coisa que a nossa vã sociologia sequer pode ou quer compreender. Na minha ordinária percepção, a coruja não simbolizava outra coisa senão mais um evento, um espetáculo da natureza que não tinha nenhuma ligação comigo e com o que eu fazia. Mas é sabido que a coruja carrega toda uma carga simbólica que alimenta o imaginário dos homens simples, comumente associada à sabedoria, ao conhecimento, à capacidade de observação, de ver em profundidade. Símbolo da filosofia, pássaro favorito de Athena, deusa da sabedoria, tornou-se mascote das ciências humanas e das artes. Estava comigo a todo o instante, não como força sobrenatural ou coisa parecida, mas como imagem, como ideia-força. O resultado final do meu trabalho foi exposto pra banca, mas nem sequer imaginam que ele tem co-autoria, porque foi escrito por duas mãos, ou melhor, por quatro olhos.

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