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O fetiche pelo referente

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Temos muito o que pensar e aprender depois dessa reação conservadora e absurda à exposição “Queermuseu” no Santander. Não parece a vocês que é justamente na discussão sobre a censura na obra de arte que a gente vê as semelhanças entre alguns movimentos considerados de direita e os de esquerda? Fiquei pensando até ponto os que estão xingando o MBL de moralista não costumam fazer o mesmo, de modo ideologicamente inverso, em outros contextos. Até pouco tempo atrás estavam censurando letra de marchinha de carnaval e agora estão posando de defensores da arte livre. Tá certo que a comparação parece desproporcional, mas tem gente que acha que o problema está sempre nos outros. Não vamos esquecer também do recente caso da “Cantiga” do Chico Buarque e de tantos outros compositores que são linchados nas redes e nos shows por serem confundidos com o conteúdo simbólico das suas obras. Tenho a impressão de que os dois lados do espectro ideológico buscam a todo momento silenciar ideias consideradas “ofensivas”, que afetam sua fé e seus princípios. Os argumentos são os mesmos de ambos os lados: são obras que promovem o machismo, a pedofilia, a pornografia, a homofobia, o racismo a zoofilia e atacam a dignidade da pessoa, a moral e os bons costumes.  Nesse aspecto, são bem parecidos. A reação à censura das pessoas que também censuram em outros contextos fica completamente comprometida. Parece ser uma reação de conveniência que depende do grupo ao qual o sujeito está inserido. Ou seja: arte livre só quando me convém, só quando é a favor da minha causa.

Quando o assunto é obra de arte, os diversos movimentos políticos, identitários ou cristãos, de esquerda ou direita, parecem sofrer do mesmo mal: O FETICHE PELO REFERENTE. Muita gente perdeu a capacidade de metaforizar e de manter uma relação amorosa com as imagens, independentemente daquilo que significam socialmente. Simplesmente não se deixam afetar pelas experiências. São capazes de traduzir o verso “Joga pedra na Geni..” como incentivo explícito à violência contra a mulher. Ou então, confundem a frase “Criança viada deusa das águas” com alguma coisa que estimula pedofilia ou pornografia. Só são capazes de compreender aquilo que é da ordem da semelhança, da ordem do real, do literal e do objetivo. Esquecem que as obras de arte comunicam muito mais a verdade do imaginário do que a imagem da verdade. Magritte nos ensina: “Ceci n’est pas une pipe”. É o olhar iludido de quem toma uma coisa pela outra. Nunca houve ou haverá um cachimbo ali, e sim a imagem do cachimbo. Não digo que não devemos levar em conta a “impressão de verdade” que toda imagem nos passa, mas atentar para o fato de que a realidade do imaginário nem sempre coincide com uma suposta verdade sociológica. A obra de arte é uma criação simbólica, por isso não tem um único referente. Ela é multivocal. São os moralistas que buscam uma relação única, direta e determinista entre o conteúdo e a sua representação.

O ser moral está sempre à caça da fundamentação ideológica das obras e dos atos alheios, dizendo “isso é isso”, “isso é tal”, “isso é aquilo”, “é correto”, “é errado”. Transformam situações particulares em generalizações políticas só por fidelidade ao movimento a que pertencem. No caso do Santander Cultural isso ficou claro, mas não só aí. Qualquer fluxo solto, qualquer experimentação livre parece ser um perigo às estruturas da normalidade, um perigo aos que se julgam reguladores da conduta alheia. E numa época em que a repressão moral atua na produção estética e, consequentemente, na produção dos desejos, eu faço cada vez mais a defesa de uma “ética imoral”.

Lisandro Moura

Publicado no Facebook, 11 de setembro.

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Imagens ausentes

Corolina me falou que quando o corpo morre a imagem ganha vida. Ela perdeu o pai com 25 anos. Hoje tem 36 e acredita que as imagens agem contra a morte. Quando ela nos revelou em aula a sua história, pensei imediatamente na minha vida. Eu também tenho 36 anos e perdi meu pai quando eu tinha pouco mais que 25. E desde então eu me pergunto, meio que secretamente: o que realmente permanece com a morte? Mas não é sobre a morte do meu pai que quero falar. Tampouco sobre as lições de Carolina, minha professora.

Hoje, 23 de agosto de 2017, lua em Virgem, quero falar de uma outra perda. Da dor que me atormenta e que evoca um outro tipo de morte, aquela ocasionada por um rompimento nos laços. Amor, morte e luto. Luto causado pela morte do amor. Morte causada pelo esquecimento do outro, mesmo que esse outro ainda esteja vivo. É possível falar em morte sem o desaparecimento do corpo? Que tipo de morte é essa que insiste em deixar vestígios?

Ao vasculhar minhas lembranças, como forma de conter o luto, vou direto no álbum de fotografias, localizado numa pasta dentro do meu notebook. Fotos dos momentos em que passamos juntos. Ao abrir cada arquivo, o que encontro são imagens felizes. Nenhum indício dos sentimentos que hoje prevalecem: tristeza, mágoa, decepção. Talvez não seja uma boa ideia revirar essas memórias, penso. Nelas não encontro razões para acreditar que tudo foi em vão. Tenho em mim a sensação da beleza de cada momento. Cada foto me mostra que o fim foi como um desvio equivocado da rota já traçada para nós. Ou então, ao contrário, é possível que a imagem tenha mesmo esse poder de maquiar a realidade e construir algo que de fato não aconteceu. Abro uma por uma e pergunto a mim mesmo: o que é real naquilo que as fotos me mostram? Foi tudo ilusão? O que havia de autêntico naquilo que ficcionamos em imagens? Talvez nunca chegarei à resposta, pois ela depende de uma visão compartilhada. Algo impossível para duas pessoas que insistem em morrer uma para a outra. Morte simbólica, é verdade, mas não menos comovente.

Não quero ver as fotografias com o cérebro nem com os olhos. Insisto em vê-las com o coração. Quero usar a tristeza e o luto como movimento, como forma de ultrapassar o sofrimento em direção à criação da vida nova. Eu preciso esquecer. Eu preciso aprender de novo. Preciso recomeçar. Repito mentalmente e diariamente. Neste processo de superação das minhas próprias emoções percebo que algumas imagens já continham em si o germe da desaparição. Era impossível perceber isso no momento mesmo em que eu as produzi, pois tudo era tão lindo e havia tanta presença naquilo que víamos. Agora tudo é um deserto. Ou será que eu já sabia, inconscientemente, que tudo desapareceria um dia? Até que ponto eu sou mesmo o senhor das minhas fotos? Quem de fato olha por trás das minhas lentes? Eu sempre serei um outro improvável?

As fotografias surgem agora como prenúncios do fim. Cada foto me fala da presença de uma ausência, com a qual terei de aprender a conviver. É demais. O vazio é imenso. Dói. É uma expressão rara. Por isso elas me sacrificam. O vazio tornado imagem me sacrifica.

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Deixaram a mesa desarrumada e o café pela metade. Foram embora sem ao menos se despedir. Só restou a marca de um encontro. Algo que foi e já não permanece senão em imagem. Um indício do abandono apenas.

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As ruas que testemunharam nosso olhar admirado já não são capazes de esconder a tristeza de se saberem testemunhas de uma história que afunda em lágrimas. Nem o sorriso restou na lâmpada que agora espreita o vazio. As lâmpadas que posaram tão imponentes para as nossas lentes hoje morrerão de tédio por estarem eternamente encerradas na imagem.

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Nem o banco da praça servirá de testemunha do nosso encontro. Não restou ninguém ali pra contar a história. Não há nada mais triste que um banco solitário numa praça vazia.

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Até mesmo as janelas se fecharam para nós, num gesto de repúdio à presença da morte. Não há mais ninguém para ver passar. Nada faz sentido, mesmo que a luz da lâmpada insista em recordar. A dor que sinto diante da janela cessa todo tipo de representação. Nenhuma máscara, nenhum papel. Só o que fica é o que se é.

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Tento olhar para a imagem como quem pretende vencer o tempo, vencer aquilo que não suporto. É como se a presença dela sobrevivesse ali, parada em frente à porta, de mãos no bolso, deixando transparecer um gesto de inadequação que sempre me encantou. Não sei como é possível que o silêncio da imagem possa evocar tanta presença. Uma dor associada à beleza da certeza de tê-la visto ali junto a mim, tão perto, tão bela, tão só. Nada melhor que a dor para me fazer recuperar o sentido das coisas que importam. Foi tão rápido que não deu pra pensar no que sentimos. Ela escorregou pra fora da imagem e desapareceu da minha vista. Permanece como vestígio nas imagens ausentes, que insistem em vencer a morte. São metáforas do esquecimento.

Hoje, tudo o que eu queria era ao menos ter a chance de dizer, bem próximo, feliz aniversário.

– Lisandro Moura –

Fotobiografia

Fotobiografia (1)

Minha avó, Iracy Lucas de Lima, completou 88 anos de idade no dia 18 de agosto de 2017. Como forma de parabenizá-la e agradecer pela existência dela neste mundo, montei uma fotobiografia inspirado no método da Fabiana Bruno (Antropologia da Unicamp), com algumas adaptações. O trabalho foi motivado e avaliado pela prof. Claudia Turra, na disciplina Antropologia e Imagem do PPG de Antropologia da UFPel.

Iracy Lucas de Lima nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, no dia 18 de agosto de 1929. É conhecida por todos como Dona Negrinha, apelido que ganhou logo quando nasceu. Filha de João Inácio Lucas de Oliveira e Dalmácia Porcelis Lucas, casou-se com Fausto Gonçalves de Lima aos 18 anos de idade, com quem teve quatro filhos: João Felipe, Loiracy, Estela e Rosilene. Possui uma sabedoria de vida ancorada na na simplicidade, na preservação dos costumes dos antepassados e num inteligente senso de humor que serve de lição a todos. É considerada a raiz portadora da memória afetiva e religiosa da família. Tem nove netos: Lisandro, Caroline, Daniel, Daniele, Vinícius, Rodrigo, Thaisa, Melissa e Alexandre. E um bisneto, o Luis Fernando. Prestes a completar 88 anos, tem vontade de estudar e aprender a usar a Internet. Adora cantar nos almoços de família e pronunciar palavras de trás pra frente.

A seguir, a partir da seleção, montagem e organização de fotografias de acervo pessoal, ela contará um pouco da sua longa história de vida.

FOTOBIOGRAFIA

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Foto-poema pra ver se ando na linha

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Foto e poema: Lisandro Moura

Foto-poema pra atravessar a madrugada a nado

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Foto e poema: Lisandro Moura

Belchior, super-homem

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Nos últimos meses eu vinha publicando seguidamente algumas coisas sobre Belchior. Era como se a obra dele estivesse repercutindo ainda mais forte em mim. Talvez por exigência do nosso tempo ou mesmo por disposição minha, por estar vivendo situações que me levam a ter maior abertura em relação a sua poesia e uma afinidade pela forma como ele encarava o mundo. Ou as duas coisas, não sei explicar. Não é por acaso que ele tenha partido justamente no momento em que suas ideias parecem fazer mais sentido que nunca. Não me refiro aqui a sua filosofia ou às ideias políticas, que são fundamentais, mas à intensidade da presença dele, que ecoava mesmo estando fora de cena. É o tom profético e messiânico, o ritmo amargo, a lâmina da voz, o gesto ácido e gentil, que variam entre sentimentos sinceros de amor e fúria.

Tive a oportunidade de assistir ao show dele no Bar Opinião, em Porto Alegre. Foi lá que eu me convenci de que não se tratava de mais um artista-cantor-poeta-filósofo, mas de alguém cuja missão era dar vida às coisas que estão no fundo de algum lugar meio secreto e selvagem. A ressonância da palavra poética em suas canções da uma dimensão real aos fenômenos da experiência humana que evitamos ou que julgamos inacessíveis. Imagina como seria se não apenas ouvíssemos as músicas do Belchior, mas também a vivêssemos?

Fico feliz que as canções estejam soltas por aí, causando perigo. Não é só um perigo ao sistema do mundo, mas a cada um de nós. Embora eu ainda esperasse uma volta triunfante dele nos palcos, fico satisfeito que tenha morrido assim sem dar satisfação a ninguém. Há um conteúdo trágico na morte do Belchior que também nos serve de lição.

– Lisandro Moura –

Belchior desafinado

“É preciso desafinar de novo, é preciso desenrolar o carretel da linguagem até onde dá, desafinar o coro dos contentes”.

Belchior na intimidade, no início de carreira, bem novo e já possuidor de uma aura profética. Nesse programa ele se mostra um conhecedor profundo do nordeste, intercala músicas com impressões antropológicas sobre a cultura popular. Fala da sua origem, da influência ibérica na música nordestina, a importância do messianismo, de quando ele cantava nas festas religiosas, seu apreço ao “sentimento místico da multidão”, fala de sua partida para São Paulo e o quanto ele sentia na pele o desenraizamento que a cidade lhe proporcionava, em comparação com o estado de comunhão que havia no norte, no seu chão. Fala também da ligação com a Tropicália e com Caetano, Gil e Torquato. O Tropicalismo lhe proporcionou uma abertura ao mundo contemporâneo ou, como ele mesmo diz, permitiu “dar um grito na hora certa”. Antes de tornar-se músico, foi um conhecedor da poesia, “menino de colo” que ganhava uns trocados para recitar poemas de Rimbaud, Baudelaire, Pessoa, entre outros que foram responsáveis por dar a sua música um sentimento poético e filosófico. Diz que veio pra trazer uma nova linguagem à música popular brasileira, “novas palavras, novos signos, novos símbolos”, e faz uma crítica contundente a todo tipo de idolatria, o que talvez explique hoje o seu desaparecimento. Então, fico só imaginando a grandiosidade de uma pessoa que mistura tradição nordestina messiânica firmada em João Cabral, Luiz Gonzaga, João do Vale e Jackson do Pandeiro com o pop do anos 60, Beatles e Tropicália, e que ainda consegue ir além disso tudo. Não é pra qualquer um… Belchior, cadê você?!

“Tudo é norte, tudo é sul. Tudo é leste, tudo é oeste. Tudo é sol e tudo é lua. Todo tempo é tempo. Todo tempo é contratempo.”

Vídeo-Poema ao Mar

Poesia visual: memórias, sonhos, poemas e imagens no fundo do mar. Por Lisandro Moura

 

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Cosmologia guarani

por Lisandro Moura

Texto publicado na Revista Colabore: articulando saberes, n. 2. Bagé: Universidade Federal do Pampa, set 2016. p. 22 – 24.

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Itacoatiara, pintura rupestre astronômica Tupi-Guarani, no Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil – Créditos Wikimedia Commons

A palavra “cosmologia” tem sido usada com frequência no campo das Ciências Humanas, notadamente na Antropologia, para designar o estudo da visão de mundo como totalidade existencial de um povo, sua relação com o universo, com o cosmo. Denota, assim, uma relação diferenciada que a cultura de um povo, enquanto sistema simbólico de organização social, estabelece com a organização material e espiritual da vida, uma ética planetária que remete ao sentimento de unidade com o universo. Talvez seja difícil pensar o conhecimento da vida humana em termos cosmológicos, tendo em vista o longo processo de racionalização das ações humanas a que estamos submetidos desde o Iluminismo. A aposta no progresso linear e inconsequente se expressa naquilo que Max Weber (2004) chamou de desencantamento do mundo, ou seja, o momento da modernidade marcado pela separação entre cultura e natureza, entre corpo e espírito, momento em que as pessoas são desenraizadas do seu passado primordial, no qual a imagem do mundo era predominantemente mágica e mitológica, e os sentimentos acerca do universo não separavam o ser humano do seu chão e do seu cosmos.

Falar em cosmovisão implica levar em conta as narrativas míticas que justificam a existência de uma ordem social (cosmo) contra os efeitos da incerteza (caos), sendo a principal delas os mitos cosmogônicos, ou seja, os mitos de criação do universo. A mitologia, enquanto pensamento simbólico, não é uma prerrogativa somente de povos e comunidades tradicionais, como as populações indígenas. Nós, modernos e ocidentais, também temos os nossos mitos, que ora justificam nosso modo de vida e ora nos impulsionam para mudanças no nosso modo de existência. A diferença é que muitos de nós acreditamos no discurso de que a ciência representa a única forma válida de conhecimento, e todo o tipo de saber popular não passa de uma falsa consciência do mundo. O mito para nós está frequentemente associado à mentira ou à superstição. É assim que o programa do desencantamento tentou reduzir a ordem cósmica e mitológica à ordem histórica e política.  Entretanto, a História, a Ciência e a Tecnologia, que equivalem ao totem das sociedades modernas, não passam de um microcosmo de uma cosmologia maior que é o mito. É o mito que explica a ciência e não o contrário, como nos lembra a narrativa mitológica de Prometeu, por exemplo.

A cultura dos povos ameríndios da nação Guarani, que habitam as regiões da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil (RS, SC e PR), exemplificam muito bem a indissociabilidade entre natureza e cultura, corpo e ama, terra e céu. É possível afirmar que todo o universo guarani é conduzido pelos céus e todo sistema de crenças, enquanto cosmovisão de mundo, segue as intimações celestes, como evidenciam os estudos de Cadogan, (1992), Fonseca (2007), Afonso (2006). Essa afirmação é válida também para a comunidade mbyá-guarani da Tekoá Koenju (Aldeia Alvorecer), localizada em São Miguel das Missões. Nas saídas de campo que realizo todo o ano, desde 2011, com meus alunos do IFSul, observo o quanto as ações cotidianas estão relacionadas a uma ordem cosmológica diversa da nossa, pois os mbyá dão muita importância aos fenômenos celestes antes de tomar qualquer decisão que envolva o coletivo. Isso porque o ethos do guarani, denominado de Nandereko ou Teko, equivale à máxima “viver como os antigos”, que para eles pode ser traduzida como “modo de ser verdadeiro” (CADOGAN, 1992). As plantações, as colheitas, as decisões políticas (cosmopolítica) o trabalho com artesanato, a organização social e os os ensinamentos dos karaí obedecem aos eventos míticos estruturados como mediação simbólica entre a terra e o céu. Dentre os principais eventos míticos está a busca da Terra sem Males ou Terra Celestial (Yvy Marãey), motivação vital de todo Guarani. Desse modo, podemos dizer que as mensagens vindas do céu se entrelaçam com as vivências do cotidiano. Por exemplo, o nome que as crianças Guarani recebem do xamã (Karaí), através da mediação dos deuses, e que representa a sua “alma-palavra”, está associado aos quatro pontos cardeais e aos ancestrais (clãs) associados ao sol (kuaray), ao relâmpago (werá), ao mar e oceano (Pará), às flores (Poty), ao universo (Yva) etc. Assim também funciona a construção da casa de rezas, denominada de Opy, cuja porta de entrada precisa estar posicionada na direção leste, exatamente onde cai o primeiro raio de sol do dia.

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As crianças mbyá-guarani recebem nomes associados a elementos da natureza. Foto: Gabriela Avello. Aldeia Koenju.

Um fato curioso desse aspecto da cultura Mbyá-Guarani foi narrado pelo documentário Bicicletas de Nhanderú, dirigido pelos cineastas indígenas Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, moradores de Koenju. O filme mostra o cotidiano dos Mbya-Guarani da aldeia Koenju, em São Miguel das Missões. Na primeira cena do filme, um raio cai próximo às moradias e atinge parte de uma árvore. Algo que poderia ser visto como um fenômeno natural, uma simples descarga elétrica, é visto pela comunidade como algo mais, como prenúncio dos deuses, que dará sentido ao desenrolar da trama fílmica dali em diante. O fato mostra o quanto a comunidade orienta suas práticas a partir de referenciais mais amplos. Na ocasião, os moradores da aldeia explicam o acontecimento como sendo um gesto de descontentamento de Tupã, deus mensageiro dos Guarani, que se manifesta na forma de trovão. Assim que a chuva passa, os moradores se dirigem ao local do raio e apanham o galho espesso que caiu da árvore devido à força do relâmpago. Observam o galho demoradamente, com muita atenção, querendo encontrar ali algum tipo de resposta. “Será que matou o espírito dela?”, pergunta o cinegrafista indígena. “Não sei”, responde o companheiro, “acho que ele [Tupã] só quis dar um susto. Não foi um espírito ruim, ele só estava bravo.” Após, o rapaz que está filmando pega o pedaço da árvore e leva até a anciã (cuña karaí) para que ela faça um colocar para seu filho. “Quando caiu aquele raio, eu senti uma dor nas costas”, diz ela, demonstrando o quanto seu corpo funciona também como força cósmica, pois está conectado ao universo. O Karaí, liderança espiritual da comunidade, professa suas belas-palavras sobre o ocorrido: “Os Tupã são assim… Eles não vêm só para trazer chuva, vêm também para nos proteger. Eles não caminham em vão… Pois nós não vemos os seres que nos fazem mal. Somente eles podem ver.”

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Imagem de Bicicletas de Nhanderú. (Fonte: videonasaldeias.org.br)

Esse breve relato demonstra, portanto, o quanto o pensamento Guarani possui uma concepção unitária do cosmo, não separando, portanto, o mito da realidade, o real do imaginário, uma vez que o mito opera justamente como modelo exemplar da conduta humana (ELIADE, 2010). A cultura guarani contem em si o saber que caracteriza o universo cosmológico de praticamente todas as sociedades tradicionais, cuja característica foi bem compreendida por Gilbert Durand (2008, p. 49): “Para o pensamento tradicional, não existe nada indiferente na natureza: cada situação na dimensão remete a um aviso no tempo; cada lugar e cada tempo são os sinais de um destino.”

Referências

AFONSO, G.B., Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil. (Edição Especial: Etnoastronomia), v. 14, p. 46-55, 2006.

CADOGAN, Leon. Ayvu rapita: textos míticos de los mbyá-guarani del Guairá. Biblioteca Paraguaya de Antropologia, 1992.

DURAND, Gilbert. Ciência do homem e tradição: novo espírito antropológico. São Paulo: TRIOM, 2008.

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Coleção Debates. São Paulo: Perspectiva, 2013.

FONSECA, O.; PINTO, S.; JURBERG, C. Mitos e constelações indígenas, confeccionando um planetário de mão. X Reunión de la Red de Popularización de la Ciencia y la Tecnología en América Latina y el Caribe (RED POP – UNESCO) y IV Taller “Ciencia, Comunicación y Sociedad” San José, Costa Rica, 9 al 11 de mayo, 2007.

WEBER, Max. A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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Incipit Vita Nova

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A cada ano meu que passa fica sempre um pouco de dó do que deixei de ser. Daqui de dentro as lembranças chegam como intrusas e insistem em permanecer. 36 anos é toda uma vida que distrai meu olhar. 36 anos de sons e palavras soltas ditas em vão, perdidas no vácuo de movimentos impensados. Quero, pelo menos, mais 36 de absoluta certeza de que não posso ter certeza de nada. Estou ciente dos desdobramentos de cada gesto meu, por isso agora ajo pouco. Sou meu maior desafio.

Que daqui pra frente a vida se apresente como eterno ritual de celebração por tudo o que ela me deu e me tirou, por tudo o que sou, sendo eu esse ser imperfeito, assim como todos vocês.

– Lisandro Moura –

 

 

Pampa: metáfora visual

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Foto: Lisandro Moura

Pampa sem fronteiras: metáfora visual e liminaridade cultural

Dia 21/01/17 – às 19h30 – no Clube de Cultura – Porto Alegre.

Programação do Fronteiras Culturais/Fronteras Culturales – Fórum Social das Resistências

A força que a imagem do pampa exprime orienta o fazer cultural na região fronteiriça, criando um vínculo fundamental entre as pessoas e o seu contexto de referência. Nas minhas errâncias por este pago, tenho buscado transformar a imensidão horizontal do pampa, que caracteriza a fronteira com o Uruguai, em metáfora visual e matriz epistemológica do meu trabalho como professor-pesquisador e como agente (inter)cultural. Pensar a fronteira como espaço metafórico pressupõe dar a ela um conteúdo político imaginado fora dos parâmetros da racionalidade usual que associa os lugares unicamente à ordem do controle e do instituído. Com as produções audiovisuais e musicais do Ponto de Cultura Pampa sem Fronteiras, localizado no município de Bagé-RS, procuramos evidenciar essa qualidade imaginária e metafórica das relações na fronteira e pensar até que ponto ela pode ser aceita como legítima pela gestão estatal na formulação de políticas públicas na região. A fronteira nos afeta por ser um espaço simbólico desterritorializado, que escapa às tentativas de colonização devido à sua condição liminar. É o ‘entre-lugar” dos saberes compartilhados e das possibilidades culturais criativas associadas às diferentes formas de viver a vida. O simbolismo do pampa é, portanto, um convite à reflexão sobre a vastidão que existe neste canto do mundo.

Lisandro Moura
Prof. de Sociologia do IFSul – Campus Bagé
Doutorando em Antropologia (UFPel-Leppais Lab)
Ponto de Cultura Pampa sem Fronteiras

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Ao mar, Almar

por Lisandro Moura

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o mar é o tempo estático do desejo
é o vazio imenso que nos preenche de ilusão
é quando o mundo repousa diante de nós
é como estar só na presença do universo
na intimidade das ondas
é querer contemplar a própria imagem
no espelho profundo das águas
é quando a superfície do tempo escorre pra dentro de nós
quem está aí?
não ouso mais olhar
o mar tem águas anônimas
que sabem de todos os segredos

vontade de mergulhar no infinito…

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Hoje tenho como certeza íntima
que o mar é capaz de ouvir
o lamento dos homens solitários.
Ele trouxe de volta um desejo antigo
que depositei nas ondas melancólicas
da Praia dos Pescadores.
Tudo se me inquieta…
Vontade de beijar o infinito
ao teu lado.

Vaga-lumes

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Na minha infância eu os via com frequência, hoje não os vejo mais. Onde foram parar os vaga-lumes? Essa mesma questão foi posta pelo cineasta Pier Paolo Pasolini num artigo de 1975, onde expressou com espanto o desaparecimento dos vaga-lumes na época do fascismo italiano. O ensaio poético-político é brilhante, mas melhor ainda foi a resposta dada por Didi-Huberman no livro “A Sobrevivência dos Vaga-lumes”, de que os insetos não desapareceram, apenas se retiraram estrategicamente para continuarem brilhando longe dos holofotes. E que para poder vê-los é preciso antes saber deslocar o olhar, mudar de posição, saber acompanhar a iluminação alegre e fugidia:

“Tal seria, para finalizar, o infinito recurso dos vaga-lumes: sua retirada, quando não se tratar de fechamento sobre si mesmo, mas “força diagonal”; sua comunidade clandestina de “parcelas de humanidade”, esses sinais enviados por intermitências, sua essencial liberdade de movimento; sua faculdade de fazer aparecer o desejo como o indestrutível por excelência (…) Os vaga-lumes, depende apenas de nós não vê-los desaparecerem. Ora, para isso, nós mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que não seja fechamento sobre si, a força diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrutível. Devemos, portanto, – em recuo do reino e da glória, na brecha aberta entre o passado e o futuro – nos tornar vaga-lumes e, dessa forma, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir. Dizer sim na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca.” (p.154-155).

Aprender a ver vaga-lumes em tempos de cisões sociais horrendas, de destruição do mundo e de rompimentos irreparáveis dos laços que nos unem, é aprender a ser “luminescente, dançante, errático, imprevisível e resistente”.

Lisandro Moura

A ideologia da profissionalização no dia do professor(a)

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Por Lisandro Moura

Bate o ponto, assina a folha, registra a falta. E a presença também. O horário é fixo, o tempo é curto e, se chegar atrasado, a supervisão registra. Formula ementa, plano de aula e plano de ensino e cronograma de atividades. No mínimo duas avaliações objetivas com registro em ata e com assinatura de ciência dos educandos. Corrigir provas e fechar as médias. Não se esquecer de passá-las para o sistema. Reuniões com os pais e alguns projetos de ensino, pesquisa e extensão. E, no mínimo, centenas de alunos para ensinar e acompanhar. Pega mal esquecer o nome de alguém. Entre uma aula e outra, um tempo de sobra para preencher formulários e escrever memorandos e ofícios de solicitação.

No discurso da Educação existe uma ideia generalizada, quase um senso comum, de que a valorização do trabalho docente passa pelo reconhecimento de um valor de ordem profissional, reconhecido pelas leis do “contrato social” republicano. Penso, ao contrário, que a precarização do trabalho docente é uma tragédia que tem origem, justamente, na ideologia da profissionalização. Essa ideologia faz de tudo para situar o professor numa relação de submissão ao Estado ou à empresa privada. Ao identificar os professores e professoras como “categoria profissional”, o conjunto das instituições sociais nada mais faz do que objetificar ainda mais o trabalho docente, proletarizando-o, ao invés de emancipá-lo.

A ideologia da profissionalização, dentro da lógica de poder, funciona como produtora de generalidades. Transforma vidas humanas reais e diversas em simples entidades classistas homogêneas e abstratas. E assim, o ofício de educar, que tem suas raízes históricas no trabalho primordial do mestre, passa a ser identificado como mera ação instrumental a serviço dos tecnocratas do poder de cima. Ação essa que é tomada somente enquanto parte da ordem econômica e jurídica da divisão do trabalho. Na escola-fábrica tentam nos identificar como trabalhadores multifuncionais, polivalentes, gestores de subjetividades, fazedores de café, cumpridores de horários, batedores de ponto, especialistas em tabelas orçamentárias e formulários de gestão, meros cumpridores de editais. Não que devêssemos estar livres desses procedimentos tão comuns nas mais variadas profissões. O problema é que o trabalho do professor está cada vez mais dependente das amarras institucionais puramente formais e que gozam de uma certa “legalidade” ilegítima.

Pergunto a mim mesmo: o que eu faço com tudo isso? O que estamos fazendo realmente com o nosso tempo de trabalho? E no intervalo do pensamento, no desvio da atenção, quando a vigília está suspensa, o sonho pede passagem e um lampejo de fantasia vem à tona na forma de lição, que aprendi com as professoras e professores que cruzaram meu caminho: o ensino implica algo a mais do que o seu significado manifesto. Vai muito além da objetividade funcionalista da escola-fábrica. O trabalho da educação é, no fundo, “um trabalho de nós próprios sobre nós próprios”. Um trabalho sobre a manifestação da nossa própria existência. Haja coragem!

Gratidão aos meus alunos e alunas por darem sentido a minha vida.

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Histórias de Trabalho em Bagé

Texto de apresentação da Revista Histórias de Trabalho em Bagé, intitulado Escritas do mundo do trabalho.

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Capa da revista. Arte: Hiago Faria. Foto de capa: Diego Lameira

por Lisandro Moura

As histórias aqui reunidas resultam de um trabalho de sala de aula realizado com estudantes do IFSul Campus Bagé, na área de Sociologia e no contexto do projeto Narradores de Bagé[1]. Os alunos e alunas do 6º semestre dos cursos de Agropecuária e Informática, integrados ao Ensino Médio, tiveram como tarefa a elaboração de narrativas literárias baseadas em histórias reais do cotidiano de quem vive do e para o trabalho. Os protagonistas são pessoas da cidade de Bagé e região, muitas delas próximas do convívio familiar dos estudantes-autores, o que faz da escrita um gesto de afeto ao próximo.

Os textos selecionados comportam imagens e personagens do mundo do trabalho, que em meio às adversidades da vida conseguem evocar um horizonte de possibilidades para quem busca uma vida com sentido. Captando com sensibilidade as minúcias laboriosas do cotidiano de cada personagem, os(as) jovens autores(as) nos convidam a visitar as memórias pessoais e coletivas que dão o tom das mais diversas profissões e ofícios. Vidas narradas de personagens profundamente humanos, que nos ensinam valores e atitudes indispensáveis pelo modo como vivenciam as contradições sociais do trabalho e as condições de suas próprias limitações.

O dilema das prostitutas e transexuais que vivem e sobrevivem nas calçadas e becos noturnos da cidade; a valsa imaginada pelo autor do texto, que dá ritmo às batidas repetitivas do antigo ferreiro; as resignações e relações afetivas do coveiro com o cemitério onde trabalha há anos; o solitário escritor-inventor que cria cenários a partir do alto da sua janela; o cotidiano arriscado de um trabalhador quileiro da região de Aceguá; a emoção remota que a parteira deixa transparecer ao realizar o milagre do seu trabalho; a fé e a generosidade da benzedeira Doninha; a dimensão trágica e heroica que se manifesta no trabalho de um bombeiro… São tantas histórias e lições de vida que não cabem neste texto. Todas elas falam da vida como trabalho e do trabalho como vida. Falam, sobretudo, do trabalho que não se deixa capturar pelo emprego formal, pois está associado à manifestação de um valor pessoal e afetivo. O trabalho com sentido em meio a uma vida de incertezas. O trabalho como espaço do devir e não apenas como produto de uma relação alienante, mesmo que ele esteja, quase sempre, situado numa estrutura de exploração e expropriação. A vivência subjetiva do trabalho ganha aqui um destaque superior ao modo como o trabalho se realiza no plano objetivo das relações sociais.

A cidade de Bagé é o palco onde as ações do enredo se desenvolvem. No entanto, apesar do cenário ser local, as narrativas sugerem também indícios do drama universal vivido pelos sujeitos do trabalho. A universalidade das histórias ganha relevância porque a forma de contá-las é figurativa, o que pode levar o leitor a se identificar com cada uma delas e, ao mesmo tempo, indagar se são histórias reais ou imaginadas, suprimindo assim os limites entre a realidade e a ficção. A escrita assume dimensões subjetivas importantes de modo que a imaginação passa a orientar o processo narrativo. A imaginação como matriz do ato criativo, como faculdade que permite revelar a veracidade do irreal ao transpor a objetividade desencantada dos “fatos sociais”.

O sentido pedagógico pensado nesse projeto está situado justamente nesse limiar entre o real e o imaginário. Estamos trabalhando com uma sociologia que se preocupa mais em mostrar as minúcias do labor diário do que explicar, julgando, suas causas e contradições. É o olhar que descreve os acontecimentos habituais em torno do trabalho para amplificar nossa percepção sobre os mesmos. Uma perspectiva, portanto, que investe com prioridade nas figurações do trabalho e nas formas sensíveis da vida cotidiana. Podemos falar, assim, de uma experiência de ensino que tem como finalidade a aprendizagem de um olhar fértil sobre os fenômenos sociais, um olhar atento aos pequenos gestos que são quase imperceptíveis ao observador apressado. Essa atenção imaginante está fundamentada na aproximação intuitiva entre o sujeito que narra e o objeto narrado, devido ao envolvimento dos estudantes que, em alguns momentos, se colocam também como participantes das histórias contadas.

Por fim, antes de mergulharmos nas figurações, memórias e afetos do mundo do trabalho, é imprescindível dizer que a organização desta revista surgiu de uma parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB) e foi acompanhada e sustentada por pessoas valiosas que, de uma forma ou de outra, foram corresponsáveis pela inspiração e finalização deste material. Menciono, em primeiro lugar, a Prof.ª Clara Dornelles, coordenadora do LAB, que gentilmente abraçou a ideia de publicar este trabalho realizado por alunos do IFSul, com recursos do projeto de extensão da Unipampa, Escrita colaborativa e experimental no Jornal Universitário do Pampa (PROEXT-MEC). Em segundo lugar, meus agradecimentos especiais à jornalista Giuliana Bruni por espalhar a magia do jornalismo literário em oficinas realizadas no LAB e em outros espaços da cidade, como no IFSul, universidades e escolas. Graças ao trabalho que ela realiza, em colaboração com o jornalista Felipe Laud, em projetos como o Pessoas de Bagé (Facebook) e nas oficinas voltadas para a escrita criativa de não-ficção, é possível pensar na literatura como substrato rico para o aprendizado e o exercício do olhar sociológico na escola.

[1] Projeto de ensino com o qual viemos desenvolvendo, desde 2011, trabalhos que apresentam em textos e imagens a diversidade das manifestações sociais e culturais da cidade de Bagé.

Fotos do lançamento, na Livraria Café & Prosa

Figura 2 - Autores e organizador da revista durante lançamento - Foto Giuliana Bruni

Autores e organizador da revista durante lançamento

Figura 3- Coordenadora do LAB, professora Clara Dornelles ao lado do coordenador e organizador da revista, professor Lisandro Moura - Foto Giuliana Bruni

Coordenadora do LAB, prof. Clara Dornelles e Lisandro Moura.

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A inadequação do palhaço

palhaço

Desenho de Gabriela Weber

Por Lisandro Moura

Publicado originalmente em Junipampa

Você tem coragem de viver alegremente a sua vida, mesmo que ela não seja um produto da sua vontade? Dificilmente, não é? Grande parte de nós hesitaríamos em reafirmar nossa vida tal como ela tem sido vivida atualmente. Somos seres fugidios, por isso recusamos a atitude de entrega e optamos pela segurança dos valores moralizantes, que sugerem alguma promessa de salvação. Negamos o mundo porque gostaríamos que ele fosse diferente, e assim deixamos de viver. Criamos uma imensa carcaça de proteção, máscaras e ideologias para agir conforme as expectativas que julgamos necessárias e corretas, pelo simples fato de que elas nos confortam.

O palhaço é uma das poucas figuras capazes de afirmar a existência diante de uma situação trágica, sem os dogmas do politicamente correto e seu avesso. Ele está sujeito a retaliações por assumir sua carência a tal ponto de abraçar o ridículo que há em si, fazendo dele uma grande piada. O palhaço corresponde a nossa sombra, tal como descrita na psicologia profunda de Carl Jung, ou seja, corresponde aos aspectos reprimidos pela nossa consciência. A máscara do palhaço revela aquilo que rejeitamos em nós mesmos, aquilo que não se encaixa em nossos princípios, sejam eles bons ou maus. Aliás, o palhaço só existe para embaralhar nossas certezas sobre o bem e o mal. Ele não age pela lógica unilateral do isso ou aquilo, do justo ou injusto, ele é um ser completo e complexo que abriga em si todas as virtudes e imperfeições. Daí nosso desconforto diante das suas brincadeiras um tanto perversas. A ação do palhaço provoca em nós uma vergonha alheia, um choque perceptivo, porque ele traz à tona o que em nós já está domesticado. Ao agir com o corpo e não com a razão, ele exterioriza os impulsos selvagens da natureza humana, que podem chocar as pessoas de bons sentimentos.

É insuportável demais reconhecer que nada podemos fazer contra nós mesmos e contra o mundo. Nada pode causar mais desconforto do que a descoberta da nossa própria imperfeição. Para driblar nossa impotência erigimos um mundo agressivamente artificial, em contraste com o ciclo natural das coisas, só com a força da nossa espada que a tudo transforma. E assim pousamos de deuses ou heróis, por não admitirmos nossa pobreza, mesmo sabendo que ela é, em realidade, a nossa maior riqueza, conforme revela a sabedoria contida nas leis herméticas: “O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima“.

Por isso, a arte do palhaço não é a da ação que transforma, mas a do ato que instaura. O ato é uma decisão instantânea dotada de originalidade, enquanto que a ação é sempre uma decisão objetiva e esquemática, como nos lembra Roupnel (citado por Bachelard, em A intuição do instante). Ao atuar sob a lógica orgânica do corpo e dos gestos pulsionais, o palhaço está contestando a supremacia da consciência e dando vazão aos fatores que ele mesmo não controla, e que provêm da potência do seu inconsciente, não só pessoal, mas, sobretudo, coletivo e transpessoal. É aí que se encontra o perigo que muitos procuram evitar: o perigo da imprevisibilidade das ações humanas.

Já está suficientemente demonstrado que a história do processo civilizador e educacional é a história da repressão dos impulsos criativos do corpo[1], uma vez que ele corresponde ao lugar onde habita nossa memória mais remota, aquela que precisa ser contida. É a história da tentativa fracassada de ajustar o ser à ordem institucional e moral do “contrato social”. É assim que o arquétipo do selvagem vai sendo, aos poucos, subtraído pelo anseio desesperado de controlarmos as incertezas e os mistérios da vida. Eis, então, que nos deparamos com uma sociedade empobrecida simbolicamente, que minou a experiência mágica do mundo em detrimento do “cálculo racional com relação a fins”, como diria Max Weber. O desencantamento do mundo é, justamente, a operação racional que provocou o descentramento entre o ser humano e o seu cosmos, a separação entre natureza e cultura, entre corpo e espírito. Por isso não é difícil imaginar o quanto o riso, o sonho e a magia são vistos com certa desconfiança pela consciência desperta e objetiva.

A experiência lúdica propiciada pelo riso é reveladora da saúde mental e espiritual do homo symbolicus. Muitas vezes, quando estamos diante de um ato cômico, somos defrontados com a vigilância inibidora da nossa consciência repressora e dos princípios socialmente arraigados, que nos impedem de achar graça de tal situação. Logo, o nosso corpo é impedido de entrar em sintonia com o instante por conta de uma racionalidade crítica e sistêmica que entra em jogo para nos distanciar do ato e, assim, produzir reflexões e análises orientadas pelo cogito. Provavelmente, essas reflexões revelarão algo de inaceitável para o meio social, podendo ser um preconceito, uma brincadeira de “mau gosto”, um ato sectário, machista etc. Frutos da operação do pensamento, as análises reflexivas que se utilizam de juízos de valor historicamente datados são o exemplo maior do quanto estamos socialmente condicionados, ou seja, o quanto o indivíduo/pessoa está subtraído perante a razão de Estado, a ponto de reduzir sua capacidade imaginativa e sua potencialidade humana ao contexto histórico e social do que é permitido e proibido dizer e/ou fazer.

O riso provocado pelo palhaço é um canal por onde fluem a embriaguez, o caos e a desordem, tão necessárias para nosso equilíbrio bio-psico-social. Por isso ele é considerado devoto de Dionísio, o deus da imaginação expansiva, do entusiasmo primordial e da ruptura com as convenções sociais. Poderíamos compará-lo também ao Exu da mitologia africana. Observemos a descrição sobre o orixá feita por Pierre Verger[2]:

Exu é um orixá ou um ebora de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-lo de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente (…). Exu revela-se, talvez, o mais humano dos orixás, nem completamente mau, nem completamente bom.”

Impossível não relacionarmos a figura do palhaço ao arquétipo de Exu. Para ambos, as suas maiores qualidades são os seus defeitos. A incoerência do palhaço desestabiliza nossas certezas. Ficamos sem chão. Por onde ele anda, leva junto o picadeiro, que é seu universo simbólico, a sua egregore, que prepara o terreno para instauração do caos através da brincadeira. A máscara do palhaço é o espelho que reflete a autenticidade do ser.  A ingenuidade do palhaço não permite que ele julgue ou entenda as coisas que faz. Ele atua pela lógica da compreensão e não da explicação. Ele é fluxo contínuo no tempo e no espaço, é entrega constante ao que está posto. É nesse jogo de entrega e abertura ao instante que acontece a subversão do sistema do mundo. A inadequação do palhaço é total, pois ele não se encaixa ao ritmo da sociedade. Não é possível questionar as normas estando apartado delas. O palhaço está sempre aberto ao porvir e seus atos não se enquadram em reflexões sociológicas. A tarefa primordial do palhaço é fazer do ser humano aquilo que ele é, e não fazer do mundo aquilo que ele gostaria que fosse. A lógica do palhaço, portanto, corresponde a uma ordem interna. Algo que soa um tanto incompreensível para quem busca lá fora, na consciência exterior, as razões para fugir, inutilmente, de si e da inevitabilidade do seu próprio fracasso.

[1] A esse respeito, ver o filme Tarja Branca: a revolução que faltava (2014), dirigido por Cacau Rhoden.

[2] VERGER. Orixás: deuses iorubas na África e no Novo Mundo. 6ªed. Salvador: Corrupio, 2002, p. 76.

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Tambor, Canção e Poesia, com Mimmo Ferreira e Richard Serraria

Por Lisandro Moura e Matheus Leite*

E o tambor bate para não se deixar esquecer

(O Grande Tambor)

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique), Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)  Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

Tambor de Sopapo, Ilú, Tambores de Candombe (Chico e Repique),
Tambor de Maçambique, pandeiro e agês. (Foto do grupo Alabê Ôni)
Fonte: http://alabeoni.blogspot.com.br/

              No início do documentário O Grande Tambor, realizado pelo Coletivo Catarse, vemos a seguinte mensagem: “Elo de ancestralidade com a Mãe África, ritual de permanência, objeto de eternidade: o sopapo, enquanto instrumento profano, exige apenas mãos para ser tocado. Enquanto instrumento sagrado, exige apenas devoção das mesmas mãos que faziam a carne de sal e que ainda hoje fazem o carnaval.”

            O filme reúne diversos artistas, mestres da cultura ancestral e pesquisadores dos ritmos afro-gaúchos, e nos convida a um passeio pela memória do povo sul-rio-grandense através das raízes do tambor de sopapo. Memória essa que foi invisibilizada tanto pela mentalidade colonialista como pela cultura tradicionalista do gaúcho canônico, que fizeram do homem e da mulher negra personagens secundários na formação identitária do estado. Visto pela ótima descolonizada, o tambor é um instrumento musical que agrega em si um misto de sagrado e profano, uma confluência entre trabalho e devoção.

             Atualmente, é possível ter acesso a uma história diferente do nosso território, devido ao legado deixado por Mestre Giba-Giba e Mestre Baptista, e aos trabalhos de difusão realizados por Mestre Chico, Mestre Paraquedas, Dona Sirlei e tantos outros Griôs presentes no sul do Brasil. Grande parte desses profetas das sonoridades negras e mensageiros da oralidade africana reside nas cidades de Pelotas e Porto Alegre. Preciosidades que estão tão próximas de Bagé e ainda assim tão pouco conhecidas entre nós.

           Entretanto, é possível observar o resgate da cultura negra em projetos realizados por Richard Serraria e Mimmo Ferreira, que nesta semana estarão em Bagé para apresentar a arte e a poesia dos ritmos afro-brasileiros num projeto integrado, denominado Tambor, Canção e Poesia. Os músicos compreenderam o significado sagrado da batida do tambor, atenderam ao chamado dos antigos e tomaram para si a missão de dar novos significados à música popular cantada pelos povos de terreiros, misturando ritmos como ijexás e toques de batuque com milongas e samba rocks. Uma mistura de elementos que vai da tradição à contemporaneidade, dando um tom mais universal à música afro-brasileira.

            Os músicos estarão na cidade nos dias 19 e 20 de agosto, realizando oficinas de percussão para alunos do curso de Música da Unipampa, palestras musicadas para professores da rede municipal, estadual e federal e um show de encerramento na Sociedade Uruguaia. Uma oportunidade única de revivermos a história do Rio Grande do Sul através de ritmos batucados, canções e composições próprias dos artistas. Temos diante de nós, portanto, uma chance de repensarmos os caminhos da mitologia gaúcha na cidade, reconhecendo os saberes, fazeres e crenças da população negra como chave para a compreensão da nossa origem mais profunda.

         Mais do que a apresentação musical, o evento propõe fomentar espaços de reflexão e formação a partir da educação musical. Por isso é de extrema importância que os estudantes de música da Unipampa e professores comprometidos com a educação intercultural estejam presentes e se sintam partícipes dessa nova história. Pensar e praticar a música nas universidades e nas escolas da educação básica é, sobretudo, lançar olhar sobre os diferentes códigos culturais do nosso país, os múltiplos “brasis”.  É também pensar a diversidade musical brasileira com seus diferentes significados, usos e funções estabelecidos pelo grande código de cada sociedade – as culturas.

            A música, por estar conectada à etnicidade, ideologia, religião, sexualidade, pode aumentar nossa compreensão do mundo. Ela pode ajudar a compreender quem somos e, assim, nos comunicar com os outros. Em tempos de mundialização da cultura, as fronteiras territoriais e cognitivas já não são mais limitadoras quando pensamos em diversidade cultural. Os signos constituídos musicalmente pelos indivíduos, nos diversos contextos, muitas vezes intermediados pelas novas tecnologias, deflagram este fenômeno global. A cultura encontra-se em trânsito permanente nesta trama de sentidos presentes no cotidiano de diversas sociedades. Daí a importância da educação musical como espaço de abertura à diversidade das expressões culturais, como espaço de revalorização das comunidades locais e dos grupos étnicos, levando sempre em conta o papel determinante do indivíduo e de suas necessidades.

            Os artistas convidados virão acompanhados dos grandes personagens desta nova história: o Tambor de Sopapo, com seu grave inconfundível; e o trio percussivo do candombe, os tambores piano, repique e chico, de origem afro-uruguaia. A musicalidade que ressoa desses instrumentos atualiza o tempo primordial que nos remete à forma de organização de comunidades que foram escravizadas. Por isso, serve como exemplo de resistência eficaz contra a colonização do espírito. Costuma-se dizer que o toque grave dos tambores, além de reproduzir metaforicamente a batida do coração, tem poder de evocar os deuses iorubas e bantos. Que este evento, realizado pelo Ponto de Cultura Pampa Sem Fronteiras em parceria com o Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB e Junipampa), Smed e tantos outros parceiros, seja um convite ao transe coletivo entoado pelos tambores. Que a cidade de Bagé, tão hesitante em reconhecer o papel decisivo da cultura negra, desde a charqueada de Santa Thereza até os dias atuais, se mantenha povoada por deuses africanos que renovam cotidianamente as nossas motivações. Que nossos ouvidos atendam ao chamado e compreendam o recado dos tambores. E que sejamos todos um poema de Oliveira Silveira:

“Que o chocalho

Baralhe

meus olhos,

adjá

badale

meus tímpanos,

meu corpo rode rode,

contas arrodeiem,

agê me agite a alma

e esse batuque

dos atabaques

vá me deixando tatibitate.”

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A lição do fracasso no cinema dionisíaco de Woody Allen

Por Lisandro Moura*

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Woody Allen resume a vida numa piada antiga: “Duas mulheres mais velhas estão num resort nas montanhas e uma delas diz: ‘Nossa, a comida nesse lugar é terrível’. A outra diz: ‘É! Você sabe… e em porções tão pequenas!’”.

O recado foi dado no filme Annie Hall (1977), traduzido para o português como Noivo neurótico, noiva nervosa. A atitude é típica de quem assume o humor como ponto de vista sobre o mundo. Através da piada, do afeto às avessas, do jogo das relações, das máscaras e da obsessão paranoica o diretor desvenda o mundo das aparências e se põe em contato com seus próprios fracassos, que também são os nossos.

O autoconhecimento nunca foi caminho fácil. É preciso um pouco de humor. No papel de Alvy Singer, Woody Allen se utiliza das estratégias do riso para fazer falar os dramas mais profundos do ser humano, aqueles que todos queremos esquecer.  Assim, o diretor/personagem torna o caminho da autoanálise um processo menos doloroso, fazendo dele um percurso iniciático repleto de descobertas, confrontos e aceitação. Ser aquilo que se é, eis a mágica de Dionísio, tão necessária para os dias de hoje.

Bem, isso é essencialmente o que eu penso da vida. Cheia de solidão e miséria e sofrimento e infelicidade, e ainda assim tudo acaba depressa demais.” A aceitação trágica é um pessimismo aparente, pois em realidade, o que o personagem quer nos passar é que há uma espécie de vantagem em ser infeliz, uma expressão do amor fati (Nietzsche), amor ao destino e, sobretudo, amor ao acontecimento: “Devemos estar muito gratos por sermos infeliz”, diz Alvy, o protagonista. Mesmo que a vida seja horrível, nada supera o fato de não querermos vivê-la. Temos esse exemplo na cena da infância de Alvy, no diálogo com a mãe sobre o fim do mundo. Quando o menino demonstra preocupação com uma inevitável catástrofe, o médico aconselha: “temos que tentar nos divertir enquanto estamos aqui.”

A arte suprema deste filme é a lição trágica de dizer sim à vida a pesar das ambivalências e obstáculos do caminho. Aceitar e não sofrer. Ou simplesmente aceitar, sofrer e curtir a dor, extrair dela uma dose embriagante de humor. Confrontar-se consigo mesmo e fazer piada do próprio fracasso.

O sentido do filme Annie Hall, ou seja, o aspecto trágico da existência e as relações da personagem com o mito dionisíaco, só é possível de se compreender pela forma cinematográfica entendida como linguagem artística, apesar do tom intelectual dos trabalhos do Woody Allen. O conteúdo do filme faz referências a questões diversas da tradição do pensamento filosófico, psicanalítico e da comunicação. A cena dividida com McLuhan é um artifício inteligente e muito raro no universo do cinema, e da o que pensar ainda hoje, 38 anos depois do lançamento de Annie Hall.

Cena com Marshall McLuhan

Cena com Marshall McLuhan

Porque é na forma, mais do que no conteúdo, que o diretor tentar expor sua lição. Somente a partir da forma/linguagem é que o sujeito receptor toma consciência do conteúdo transmitido pela arte. O personagem controverso, protagonizado por Allen, ganha vida pela maneira nada convencional de narrar os acontecimentos existenciais. A arte do diretor, nesse caso, é capaz de transformar o absurdo da vida, a ilusão da existência, em uma estética da fabulação. O diretor parece não se situar no domínio seguro que dissocia o real da fantasia, pois a todo o momento o espectador se depara com uma quebra da narrativa ficcional, quando o personagem assume seu papel de diretor (Alvy assumindo o papel de Woody Allen) e olha para o espectador atrás da tela, como quem busca situar-se no lugar do público para fazer uma intepretação da interpretação dos fatos. O imaginário, nesse caso, opera como fomentador de um processo criativo e hiperativo que abala as expectativas seguras e conformadas do espectador acostumado com a separação entre realidade e ficção.

Da mesma maneira, o passado e o presente se entrecruzam frequentemente ao longo do filme, dando vazão e fluidez ao instante vivido. Os traumas da infância são literalmente assumidos na vida adulta, fazendo com que o personagem adulto volte ao passado para intervir nos acontecimentos da infância. A memória é sempre formulada a partir de um ponto de vista do presente, quando o próprio diretor se coloca na posição da criança, justificando, assim, os comportamentos excêntricos de uma personalidade impulsiva e nervosa: “Só estava exprimindo uma curiosidade sexual saudável!”, diz o adulto Alvy, ao justificar para a professora o beijo dado na colega de classe, aos seis anos de idade.

São essas características que fazem do deus Dionísio o mito fundador do cinema de Woody Allen em Annie Hall. Isso porque cada existência humana, cada história humana, cada obra humana, carrega traços e gestos paradigmáticos de divindades míticas, mesmo que já tenhamos passado por um intenso processo de racionalização em termos civilizatórios. Com o cinema não é diferente, pois – por se tratar de uma narrativa simbólica – seu conteúdo fala mais ao domínio do imaginário do que ao domínio dos fatos. Revela mais a verdade de uma imagem mítica do que a imagem da verdade. Queiramos ou não, o mito continua sendo uma realidade humana antropológica e fundadora de estéticas existenciais, personalidades e identidades sociais.

A perspectiva de Woody Allen aponta na direção dessa hipótese. Apesar de o diretor se utilizar de artifícios técnicos e racionais (apolíneos) na elaboração do conteúdo e do argumento fílmico, há nas entrelinhas da linguagem a insistência metafórica dos arquétipos dionisíacos tencionando a trama e dando um sentido simbólico à obra como um todo. Dionísio é o deus da embriaguez, da imaginação expansiva, do entusiasmo primordial e da ruptura com a norma social. Através da arte de Woody Allen, ele se faz presente, como evocação, para embaralhar nossas certezas e revelar o lado trágico do humano, a aceitação do fracasso interior e exterior como uma grande e divertida piada.

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*Texto publicado originalmente no Junipampa

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Esboço de um sonho

Por Lisandro Moura

            Levantei com a estranha sensação de ter sonhado algo de misterioso novamente, mas não consigo lembrar. Eu sempre esqueço dos meus sonhos. Aliás, acho que sonho pouco. Só lembro de flashs, imagens desconexas que não são passíveis de explicação. Nunca consigo inventar palavras pra contar um sonho a alguém; mas esse foi diferente. Tenho a sensação de que é importante e por isso preciso lembrar. Para lembrar é preciso esquecer que tenho que lembrar.

            Fiz comida, liguei a TV da sala e estava passando o desfile de carnaval, um samba-enredo que leva o tema da Gaya, a Mãe-Terra. Desfile de índios, serpentes marinhas, fogo, terra, raízes, rituais e, na última ala, o caos, a destruição de Gaya. Toda essa mistura de cores, de ritmos e movimentos me remeteu ao sonho que eu já desistira de lembrar. Não ao conteúdo em si, o carnaval ou Gaya, mas ao mistério que havia por traz daquelas imagens. Aos poucos, uma narrativa própria, de início, meio e fim, começou a se desenhar na minha mente.

            Sonhei que eu estava parado em frente a minha casa natal, na cidade de Tugaré. Eu peço para entrar. Os atuais habitantes saem e me deixam sozinho dentro de casa. À medida que eu caminho, vou revivendo memórias do pai, da mãe e do irmão. Abro gavetas, armários e revivo no cheiro das cosias as memórias da infância. Abro a porta do corredor que levava até a sala de estar. No sofá da sala está sentada uma pessoa que me olha e me sorri. É um guri vestido de azul. É como se eu o conhecesse. É estranho, aquele sorriso me hipnotiza. Eu desvio o olhar depois de fitá-lo por segundos. Dou meia-volta em direção à cozinha, por onde entrei, mas agora a porta está trancada. Os atuais moradores me deixaram trancado. Eu arrombo a porta, numa espécie de desespero e fúria. Antes de sair eu olho para trás, para saber se o guri de azul ainda estava lá. Assim que me viro, enxergo apenas um flash branco. Ele fotografa meu rosto. Os atuais moradores da casa natal estão lá fora e me contam que o guri de azul sentado no sofá, era eu. Acordo.

Diálogos culturais na cidade

por Lisandro Moura

            Desde que iniciamos as atividades dos “Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação”, no âmbito do projeto de extensão do Laboratório de Produção Textual – LAB/Unipampa (PROEXT-MEC), coordenado pela profª. Clara Dornelles, viemos trabalhando para reafirmar a importância formativa da diversidade cultural e do trabalho coletivo na produção de conteúdo para o Jornal Universitário do Pampa – o Junipampa. Alunos, bolsistas e colaboradores internos e externos atuam em várias frentes para espalhar o propósito original do Jornal, que é a escrita colaborativa em ambiente virtual. De março até o momento, já realizamos oficinas, minicursos e palestras sobre diversos temas: jornalismo literário, fotografia, audiovisual, estéticas e culturas contemporâneas, saída de campo à aldeia indígena, midialivrismo e cultura colaborativa. Até o final do ano, outros projetos já estão previstos, dentre eles a possível vinda de Richard Serraria, numa parceria com o Ponto de Cultura “Pampa sem Fronteiras”. Todos esses eventos e temas convergem para o propósito comum de aliar a escrita experimental aos contextos culturais da sua produção. O objetivo, portanto, é criar na cidade espaços para a socialização de experiências na arte e na cultura, que dialoguem com a comunicação e a educação e contemplem os diferentes grupos culturais da cidade.

            Quando aceitei o convite da professora Clara para coordenar as ações dos “Diálogos”, junto com a amiga Mariane Rocha, aluna bolsista da Unipampa, estava ciente de que o desafio seria grande, uma vez que o cenário cultural em Bagé se caracteriza por uma dinâmica ainda bastante competitiva, com grupos sociais que não têm o costume de costurar ações em conjunto, mesmo trabalhando com temas afins. Como é possível que uma cidade tão positivamente provinciana, cujas relações interpessoais são tão próximas, produza ações tão esparsas e desconectadas? Costuma-se dizer que, em Bagé, as pessoas sabem da vida de todo mundo. O estranho é que, quando algum evento cultural acontece, pouca gente comparece, pouca gente fica sabendo, o que da a entender que cada grupo está atuando separadamente, sem buscar conexões e parcerias. A comunicação pessoal funciona para algumas coisas e para outras não. Cito como exemplo o Atelier Coletivo, um espaço cultural de shows que há oito anos funciona como resistência e contraponto ao monopólio das festas consagradas da cidade. Mas agora, infelizmente, fechará suas portas para a nossa indiferença, a indiferença dos bageenses. O Atelier Coletivo era o lugar por onde passava a vanguarda dos movimentos musicais do Brasil, Uruguai e Argentina. Músicos que costumam lotar auditórios, anfiteatros e parques públicos por onde passam, eram recebidos em Bagé, no Atelier, por cinco ou dez pessoas no máximo!  Há algo de estranho na rainha da fronteira.

            Soma-se a isso o fato de que o espaço da produção artística e cultural local parece estar reservado a algumas poucas pessoas que se autodenominam “especialistas”. São pessoas que têm aversão a tudo o que vem de fora e, mesmo assim, são autorizadas, tanto pelo clã ao qual pertencem quanto pelas mídias locais que as legitimam, para falar em nome da arte com propriedade duvidosa, muitas vezes herdada do passado saudosista, do peso do sobrenome e do grau das relações de compadrio. Ou então, aqueles que se utilizam da instituição a qual pertencem para fazer contraponto às outras, deixando transparecer uma mentalidade cartesiana e competitiva, que separa a cidade por grupos de interesses institucionais excludentes, como se as instituições devessem se preocupar mais com disputas de mercado e de público do que com os benefícios sociais, educacionais, políticos e econômicos para a população local.

            Por outro lado, mesmo que o cenário não seja tão favorável para a integração cultural, o desafio de atuar junto à equipe do LAB é estimulante para quem quer estar numa cidade minimamente habitável, em que o tédio costumeiro ceda lugar ao prazer de viver. A sabedoria trágica de Nietzsche nos serve de exemplo: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. Tenho a impressão de que Bagé sempre foi mais criticada do que realmente vivida. Apesar de todas as objeções que se possa fazer, “o melhor lugar para viver é aqui e agora”, como defendem os nowtópicos. Nossa aldeia é maior que a grande cidade. E já que aqui vivemos, o melhor a fazer não é fugir pra outro lugar, como muitos gostariam de fazer, mas sim reinventar o espaço a partir dos desejos e sonhos da população. O que é bem diferente de pensar a cidade unicamente voltada para os negócios empresariais e econômicos que geram competição, destruição do patrimônio e conflitos de poder.

            Ao contrário da postura individualista, apostamos em um diálogo efetivo com setores, instituições e agentes culturais, sabendo que quanto mais diversificado é o contexto da produção cultural, mais ricas serão as ações e mais eficazes os impactos sociais. Porque, por mais que tenhamos como objetivo ofertar oficinas, cursos e palestras para e com a comunidade, a nossa preocupação mesmo é com os processos, com os contextos formativos de cada atividade, e não tanto com os seus resultados. O nosso interesse, nos Diálogos, é criar novas dinâmicas para o fazer cultural na cidade, em que a parceria, a cocriação e a partilha dos resultados tenham mais importância do que as disputas hierárquicas e conflitos de egos.

            Há muita gente disposta a isso, sem dúvida. Tem surgido na cidade, nos últimos anos, desde a vinda de instituições educacionais que renovaram as formas de sociabilidade na cidade, novas organizações não convencionais engajadas em iniciativas locais que preconizam o “faça você mesmo”. Inteligentemente não esperam pelo calendário cultural oficial do poder público e, assim, congregam segmentos “refugiados” da normalidade institucional. Grupos de dança na periferia, skatistas, rappers, funkeiros, oficineiros, cineastas experimentais, fotógrafos amadores, hackers, ciclistas, pontos de cultura, coletivo feminista Atena, coletivo contra o aumento da passagem (Roletaço), grupos políticos e culturais como o Levante Popular da Juventude, o Juntos!, empreendimentos solidários, agricultura orgânica sustentável, hortas urbanas, músicos de garagem, atores de fundo de quintal, batuqueiros, gaiteiros, ayahuasqueiros, festivais de cinema, de música, de teatro e de dança, jornalistas que criam projetos para além de seus empregos formais, mídias independentes e colaborativas, web jornais, rádio web, projetos solidários práticos etc.

            As experiências são infinitas e estão muito longe de serem mapeadas por completo. O que falta é uma articulação em rede, por afinidades de projetos e sonhos em comum. No momento, o importante é que esses grupos estão, cada um a seu modo, pensando a cultura na sua dimensão simbólica e comunitária, para além de megaeventos empresariais de entretenimento, como as festas e shows com camarotes vip segregacionistas. A cultura tem papel central na produção de subjetividades e na geração de novas formas de viver a urbe. É a matéria-prima da sociedade que valoriza o conhecimento como instância instauradora de múltiplos sentidos para nossa existência, aqui e agora.

Fonte: Publicado originalmente em Junipampa

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