A vítima tem sempre razão?

Pode um homem escrever sobre feminismo ou a situação da mulher sem que, em sua produção, se infiltre os interesses da socialização masculina e patriarcal? Essa questão foi posta por Helena Vieira, pesquisadora e ativista trans, que estava presente no debate de lançamento do livro do Francisco Bosco, “A vítima tem sempre razão? Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro”, juntamente com a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl. O livro traz uma crítica aos processos de estabilização/essencialização da identidade que permeia grande parte dos movimentos sociais da atualidade. Defende basicamente que um indivíduo não pode ter sua vida dilacerada em nome de uma causa coletiva, por mais justa que ela seja. Bosco analisa casos de censura, linchamentos e justiçamento recentes que viralizaram nas redes sociais e que geraram debates intensos. Entre os casos analisados estão as letras das marchinhas de carnaval, o caso da apropriação cultural no uso do turbante, o clipe da Mallu Magalhães, o caso do assédio envolvendo um professor universitário, o caso da “fiel defensora de estupradores” e o episódio do doping por óleo de massagem.

O ponto comum das falas da Helena Vieira e da Maria Rita foi a elaboração precisa de uma crítica à tendência comum dos movimentos sociais identitários de reforçar nos sujeitos subalternos a imagem da vítima, fortalecendo assim os argumentos dominantes, patriarcais e racistas que historicamente criaram a representação poderosíssima da suposta fragilidade dos grupos minoritários. O argumento é que a reinvindicação da vulnerabilidade, ao invés de colaborar com o avanço da luta, acaba paradoxalmente por enfraquecê-la. Essa é também a posição da professora Carla Rodrigues, publicada recentemente num artigo sobre o livro do Bosco. Desde 2000 a Carla vem discutindo o problema de se fazer política feminista a partir da vitimização das mulheres.

O discurso vitimista é bastante eficaz em atrair a simpatia do público das redes sociais para situações de opressão. Funciona como tática persuasiva e estratégia de propaganda que têm atraído muitos likes, mas na prática não tem resolvido as situações de injustiças. As pessoas estão começando a desconfiar dos justiceiros/as da internet, que travam uma guerra digital utilizando-se do antigo método do linchamento. Os mesmos militantes que há pouco tempo criticavam o linchamento passaram, contraditoriamente, a adotá-lo no ambiente virtual (public shaming) com a justificativa de ser uma forma legítima de resistência. Isso abre caminho para que muitas pessoas queiram estar nesse lugar de quem resiste, de quem sofre a ação, justamente porque é o lugar seguro da “vítima que sempre tem razão”. No contexto de guerra digital, algumas pessoas aparecem publicamente travestidas de soldados empoderados, um exército que destrói tudo sem se preocupar em erguer coisas belas. Uma guerra travada no plano discursivo que tem como único efeito o extermínio da alteridade e da necessária ambivalência e imperfeição humanas. O justiçamento é o novo fetiche dos haters da Internet.

Embora tenha uma razão histórica justa, a premissa “a vítima tem sempre razão” apaga qualquer possibilidade de agência por parte de quem sofre a injustiça. A pessoa passa a ser vista como destituída de autonomia, um ser inerte que sofre, mas é incapaz de produzir ação sobre o outro, um ser “puro” ou infantil, livre de toda imperfeição e desprovida da capacidade de escolher seu próprio destino. Assim, é reforçada a imagem patriarcal da fragilidade da mulher. Além disso, a premissa inverte uma lógica do sistema de dominação, caindo nos mesmos erros desse sistema. Historicamente, a mulher sempre foi considerada a culpada. Agora, para combater esse equívoco, inverte-se o sinal e passa-se a admitir que ela sempre tem razão. Caímos, assim, no mesmo problema. Em outras palavras, a partir da constatação correta de que a palavra da mulher é sempre, a priori, desacreditada, inverteu-se o princípio e passou-se a defender que a palavra da mulher é sempre, a priori, correta. Responde-se à injustiça estrutural contra grupos sociais com outra injustiça que recai sobre indivíduos particulares, abolindo-se o exame de cada caso. Como afirma Bosco, valendo-se de Derrida, não há justiça sem a relação entre o universal, que é o campo do Direito, e o particular, o campo das singularidades individuais.

Para Maria Rita Kehl, a premissa de que as mulheres sempre têm razão, deveria, na verdade, ofender as mulheres. Ela explica: “Em primeiro lugar, porque faz de nós umas ‘mulherzinhas’ bobinhas que nós não somos. Segundo, porque faz de nós seres sem contradição nenhuma, o que nós também não somos. Ou seja, a gente vira objeto rotulado. E assim as mulheres continuam num lugar contra o qual a minha geração lutou muito pra sair. (…) Em terceiro lugar, a premissa de que a vítima tem sempre razão convoca em nós um afeto, que o Nietsche já vinha apontando lá no séc. XIX, que é o ressentimento. A ideia de que todos nós somos prejudicados porque somos indefesos, porque alguém mais forte está me prejudicando e alguém vai ter que pagar por isso. Isso está na origem do antissemitismo na Alemanha (…) O ressentimento vem quando eu não luto por mim e acho, então, que sou sempre vítima do outro.”

Pensar a política e as lutas sociais a partir do estatuto da vítima é também uma questão problemática para a ativista Helena Vieira. Ela entende que a noção de vítima não é a mesma que a noção de subalternidade e desigualdade socialmente construídas sobre os sujeitos. Ela diz: “Em primeiro lugar, quando eu assumo a vítima como estatuto político ordenador do mundo, eu estou produzindo nos outros o estatuto de algoz. E como é que eu construo políticas num mundo de vítimas e algozes? A possibilidade de qualquer intercâmbio se torna nula. Porque você não tem, frente a seu algoz, nenhuma vontade e responsabilidade política. Em segundo lugar, o que se pode conseguir dentro do estatuto político de vítima, não é direito, mas tutela. A vítima precisa ser tutelada. E essa tutela é frequentemente animalizadora ou infantilizadora.”

Desse modo, o processo de vitimização, além de não atrair a simpatia de quem está fora dos movimentos, é sobretudo um erro de estratégia política. Sobre essas questões, o livro de Bosco traz reflexões pertinentes. Especialmente por chamar para a conversa importantes teóricas feministas como Elisabeth Badinter, autora de Rumo equivocado: o feminismo e alguns destinos (Civilização Brasileira, 2005) e Laura Kipnis, autora de Unwanted advances: sexual paranoia comes to campus [Avanços indesejados: a paranoia sexual chega ao campus]. Como lembra Carla Rodrigues, Kipnis “mostra casos de distorções de denúncias de abuso sexual que apenas afirmam a passividade e a fragilidade da mulher, eliminando assim a capacidade das mulheres de fazerem suas próprias escolhas.”

Obviamente, o livro do Francisco Bosco está causando desconforto em grande parte dos/as ativistas que militam em prol das causas identitárias. Algumas críticas foram publicadas em sites e blogs, como o texto da Manoela Miklos, o “Crepúsculo do esquerdomacho”, outras são espalhadas nas redes em perfis individuais. O texto da Manoela gerou resposta do próprio autor do livro. O desconforto todo é, certamente, saber que o livro partiu de um homem cis, branco (ele se reconhece como mulato árabe), hétero, rico, filho do João Bosco e bonitão da zona sul do Rio. O foco nos marcadores sociais de quem fala é hoje a melhor forma de evitar o debate. Não se discute o conteúdo das ideias, mas contesta-se o lugar da enunciação, como se os sujeitos estivessem presos a lugares fixos de fala ou presos à estrutura social que lhes forma. O livro tem causado polêmica porque foi escrito por alguém considerado incapaz de compreender a condição subalterna do outro, só porque ele não possui a vivência da vítima. Esse parece ser hoje o único critério de verdade. A noção de lugar de fala, que na sua origem remete ao sentido da democratização da fala, passa a ser entendida como critério de verdade ou como permissão para falar.

A ideia de que o indivíduo é um simples epifenômeno da estrutura social, o clássico debate sociológico sobre a socialização, foi questionada na fala da Helena durante o lançamento do livro. Sabemos que a credibilidade de alguém depende muito do lugar que essa pessoa ocupa no mundo. É inegável que a mulher tem muito mais condições de falar sobre machismo do que um homem. E que um branco nunca vai passar por situações de racismo que um negro enfrenta cotidianamente. Entretanto, somos todos capazes de entender a condição subalterna do outro, mesmo que não tenhamos essa vivência. A empatia se dá justamente nessa operação humana de nos colocarmos no lugar do outro. Aqui retomamos a pergunta inicial que abre este texto: Pode um homem escrever sobre feminismo ou a situação da mulher sem que em sua produção se infiltre os interesses da socialização masculina e patriarcal? Helena responde:

 “Em primeiro lugar precisamos tomar como ponto o fato de que a socialização não é inescapável. Porque se a socialização fosse inescapável, a possibilidade de haver mulheres feministas seria nula, porque nenhuma mulher foi socializada para ser feminista. Isso significa dizer que não podemos tomar a socialização como critério de destino. O mundo produz sentido sobre mim e sobre o meu corpo, mas eu também sou capaz de produzir sobre o sentido que o mundo produz sobre o meu corpo um outro sentido do mundo. (…) Se a gente admite que a socialização não é um destino, a gente entende que homens, portanto, não são necessária ou fundamentalmente opressores. É duro admitir isso. Mas a gente precisar admitir isso. Porque seria um erro tamanho dizer que eles são em essência opressores, porque se existe uma essência opressora, a gente para de lutar e constrói a vida em outro planeta. Não há possibilidade de luta se não há possibilidade de mudança.”

A dificuldade em admitir o óbvio é, talvez, o grande dilema dos movimentos sociais. Muita gente queria ter escrito o livro do Bosco, inclusive Helena Vieira, que indagou “nossa, por que eu não escrevi este livro?!!” Muita gente evita dizer o que precisa ser dito por muitos motivos, mas principalmente pelo medo de serem taxados de inimigos do movimento, de estarem jogando a favor do adversário e contra as lutas das mulheres, negros e lgbt. Inúmeras vezes evitamos a autocrítica com receio de sermos acusados de trair a narrativa coletiva agenciada por movimentos sociais. A obsessão em denunciar e punir a conduta alheia, como nos tempos da fogueira da inquisição, tem sempre um conteúdo de hostilidade e de certeza. A imprevisibilidade das relações humanas parece ser um peso nas costas da certeza arrogante. A denúncia e a hostilidade conseguem explicitar o conflito, mas não rompem com o estado de coisas, muito menos são capazes de criarem uma nova liga, um sentimento mais ou menos comum em torno da necessidade antropológica de vivermos bem, juntos. Espera-se que o livro de Francisco Bosco possa colocar esse debate num outro patamar, onde não tenhamos mais receios de fazer a autocrítica para avançarmos na luta por direitos.

Lisandro Moura

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