O fetiche pelo referente

magritte

Temos muito o que pensar e aprender depois dessa reação conservadora e absurda à exposição “Queermuseu” no Santander. Não parece a vocês que é justamente na discussão sobre a censura na obra de arte que a gente vê as semelhanças entre alguns movimentos considerados de direita e os de esquerda? Fiquei pensando até ponto os que estão xingando o MBL de moralista não costumam fazer o mesmo, de modo ideologicamente inverso, em outros contextos. Até pouco tempo atrás estavam censurando letra de marchinha de carnaval e agora estão posando de defensores da arte livre. Tá certo que a comparação parece desproporcional, mas tem gente que acha que o problema está sempre nos outros. Não vamos esquecer também do recente caso da “Cantiga” do Chico Buarque e de tantos outros compositores que são linchados nas redes e nos shows por serem confundidos com o conteúdo simbólico das suas obras. Tenho a impressão de que os dois lados do espectro ideológico buscam a todo momento silenciar ideias consideradas “ofensivas”, que afetam sua fé e seus princípios. Os argumentos são os mesmos de ambos os lados: são obras que promovem o machismo, a pedofilia, a pornografia, a homofobia, o racismo a zoofilia e atacam a dignidade da pessoa, a moral e os bons costumes.  Nesse aspecto, são bem parecidos. A reação à censura das pessoas que também censuram em outros contextos fica completamente comprometida. Parece ser uma reação de conveniência que depende do grupo ao qual o sujeito está inserido. Ou seja: arte livre só quando me convém, só quando é a favor da minha causa.

Quando o assunto é obra de arte, os diversos movimentos políticos, identitários ou cristãos, de esquerda ou direita, parecem sofrer do mesmo mal: O FETICHE PELO REFERENTE. Muita gente perdeu a capacidade de metaforizar e de manter uma relação amorosa com as imagens, independentemente daquilo que significam socialmente. Simplesmente não se deixam afetar pelas experiências. São capazes de traduzir o verso “Joga pedra na Geni..” como incentivo explícito à violência contra a mulher. Ou então, confundem a frase “Criança viada deusa das águas” com alguma coisa que estimula pedofilia ou pornografia. Só são capazes de compreender aquilo que é da ordem da semelhança, da ordem do real, do literal e do objetivo. Esquecem que as obras de arte comunicam muito mais a verdade do imaginário do que a imagem da verdade. Magritte nos ensina: “Ceci n’est pas une pipe”. É o olhar iludido de quem toma uma coisa pela outra. Nunca houve ou haverá um cachimbo ali, e sim a imagem do cachimbo. Não digo que não devemos levar em conta a “impressão de verdade” que toda imagem nos passa, mas atentar para o fato de que a realidade do imaginário nem sempre coincide com uma suposta verdade sociológica. A obra de arte é uma criação simbólica, por isso não tem um único referente. Ela é multivocal. São os moralistas que buscam uma relação única, direta e determinista entre o conteúdo e a sua representação.

O ser moral está sempre à caça da fundamentação ideológica das obras e dos atos alheios, dizendo “isso é isso”, “isso é tal”, “isso é aquilo”, “é correto”, “é errado”. Transformam situações particulares em generalizações políticas só por fidelidade ao movimento a que pertencem. No caso do Santander Cultural isso ficou claro, mas não só aí. Qualquer fluxo solto, qualquer experimentação livre parece ser um perigo às estruturas da normalidade, um perigo aos que se julgam reguladores da conduta alheia. E numa época em que a repressão moral atua na produção estética e, consequentemente, na produção dos desejos, eu faço cada vez mais a defesa de uma “ética imoral”.

Lisandro Moura

Publicado no Facebook, 11 de setembro.

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