Imagens ausentes

Corolina me falou que quando o corpo morre a imagem ganha vida. Ela perdeu o pai com 25 anos. Hoje tem 36 e acredita que as imagens agem contra a morte. Quando ela nos revelou em aula a sua história, pensei imediatamente na minha vida. Eu também tenho 36 anos e perdi meu pai quando eu tinha pouco mais que 25. E desde então eu me pergunto, meio que secretamente: o que realmente permanece com a morte? Mas não é sobre a morte do meu pai que quero falar. Tampouco sobre as lições de Carolina, minha professora.

Hoje, 23 de agosto de 2017, lua em Virgem, quero falar de uma outra perda. Da dor que me atormenta e que evoca um outro tipo de morte, aquela ocasionada por um rompimento nos laços. Amor, morte e luto. Luto causado pela morte do amor. Morte causada pelo esquecimento do outro, mesmo que esse outro ainda esteja vivo. É possível falar em morte sem o desaparecimento do corpo? Que tipo de morte é essa que insiste em deixar vestígios?

Ao vasculhar minhas lembranças, como forma de conter o luto, vou direto no álbum de fotografias, localizado numa pasta dentro do meu notebook. Fotos dos momentos em que passamos juntos. Ao abrir cada arquivo, o que encontro são imagens felizes. Nenhum indício dos sentimentos que hoje prevalecem: tristeza, mágoa, decepção. Talvez não seja uma boa ideia revirar essas memórias, penso. Nelas não encontro razões para acreditar que tudo foi em vão. Tenho em mim a sensação da beleza de cada momento. Cada foto me mostra que o fim foi como um desvio equivocado da rota já traçada para nós. Ou então, ao contrário, é possível que a imagem tenha mesmo esse poder de maquiar a realidade e construir algo que de fato não aconteceu. Abro uma por uma e pergunto a mim mesmo: o que é real naquilo que as fotos me mostram? Foi tudo ilusão? O que havia de autêntico naquilo que ficcionamos em imagens? Talvez nunca chegarei à resposta, pois ela depende de uma visão compartilhada. Algo impossível para duas pessoas que insistem em morrer uma para a outra. Morte simbólica, é verdade, mas não menos comovente.

Não quero ver as fotografias com o cérebro nem com os olhos. Insisto em vê-las com o coração. Quero usar a tristeza e o luto como movimento, como forma de ultrapassar o sofrimento em direção à criação da vida nova. Eu preciso esquecer. Eu preciso aprender de novo. Preciso recomeçar. Repito mentalmente e diariamente. Neste processo de superação das minhas próprias emoções percebo que algumas imagens já continham em si o germe da desaparição. Era impossível perceber isso no momento mesmo em que eu as produzi, pois tudo era tão lindo e havia tanta presença naquilo que víamos. Agora tudo é um deserto. Ou será que eu já sabia, inconscientemente, que tudo desapareceria um dia? Até que ponto eu sou mesmo o senhor das minhas fotos? Quem de fato olha por trás das minhas lentes? Eu sempre serei um outro improvável?

As fotografias surgem agora como prenúncios do fim. Cada foto me fala da presença de uma ausência, com a qual terei de aprender a conviver. É demais. O vazio é imenso. Dói. É uma expressão rara. Por isso elas me sacrificam. O vazio tornado imagem me sacrifica.

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Deixaram a mesa desarrumada e o café pela metade. Foram embora sem ao menos se despedir. Só restou a marca de um encontro. Algo que foi e já não permanece senão em imagem. Um indício do abandono apenas.

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As ruas que testemunharam nosso olhar admirado já não são capazes de esconder a tristeza de se saberem testemunhas de uma história que afunda em lágrimas. Nem o sorriso restou na lâmpada que agora espreita o vazio. As lâmpadas que posaram tão imponentes para as nossas lentes hoje morrerão de tédio por estarem eternamente encerradas na imagem.

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Nem o banco da praça servirá de testemunha do nosso encontro. Não restou ninguém ali pra contar a história. Não há nada mais triste que um banco solitário numa praça vazia.

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Até mesmo as janelas se fecharam para nós, num gesto de repúdio à presença da morte. Não há mais ninguém para ver passar. Nada faz sentido, mesmo que a luz da lâmpada insista em recordar. A dor que sinto diante da janela cessa todo tipo de representação. Nenhuma máscara, nenhum papel. Só o que fica é o que se é.

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Tento olhar para a imagem como quem pretende vencer o tempo, vencer aquilo que não suporto. É como se a presença dela sobrevivesse ali, parada em frente à porta, de mãos no bolso, deixando transparecer um gesto de inadequação que sempre me encantou. Não sei como é possível que o silêncio da imagem possa evocar tanta presença. Uma dor associada à beleza da certeza de tê-la visto ali junto a mim, tão perto, tão bela, tão só. Nada melhor que a dor para me fazer recuperar o sentido das coisas que importam. Foi tão rápido que não deu pra pensar no que sentimos. Ela escorregou pra fora da imagem e desapareceu da minha vista. Permanece como vestígio nas imagens ausentes, que insistem em vencer a morte. São metáforas do esquecimento.

Hoje, tudo o que eu queria era ao menos ter a chance de dizer, bem próximo, feliz aniversário.

– Lisandro Moura –

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