Vaga-lumes

vaga-lumes

Na minha infância eu os via com frequência, hoje não os vejo mais. Onde foram parar os vaga-lumes? Essa mesma questão foi posta pelo cineasta Pier Paolo Pasolini num artigo de 1975, onde expressou com espanto o desaparecimento dos vaga-lumes na época do fascismo italiano. O ensaio poético-político é brilhante, mas melhor ainda foi a resposta dada por Didi-Huberman no livro “A Sobrevivência dos Vaga-lumes”, de que os insetos não desapareceram, apenas se retiraram estrategicamente para continuarem brilhando longe dos holofotes. E que para poder vê-los é preciso antes saber deslocar o olhar, mudar de posição, saber acompanhar a iluminação alegre e fugidia:

“Tal seria, para finalizar, o infinito recurso dos vaga-lumes: sua retirada, quando não se tratar de fechamento sobre si mesmo, mas “força diagonal”; sua comunidade clandestina de “parcelas de humanidade”, esses sinais enviados por intermitências, sua essencial liberdade de movimento; sua faculdade de fazer aparecer o desejo como o indestrutível por excelência (…) Os vaga-lumes, depende apenas de nós não vê-los desaparecerem. Ora, para isso, nós mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que não seja fechamento sobre si, a força diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrutível. Devemos, portanto, – em recuo do reino e da glória, na brecha aberta entre o passado e o futuro – nos tornar vaga-lumes e, dessa forma, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir. Dizer sim na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca.” (p.154-155).

Aprender a ver vaga-lumes em tempos de cisões sociais horrendas, de destruição do mundo e de rompimentos irreparáveis dos laços que nos unem, é aprender a ser “luminescente, dançante, errático, imprevisível e resistente”.

Lisandro Moura

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