Esboço de um sonho

Por Lisandro Moura

            Levantei com a estranha sensação de ter sonhado algo de misterioso novamente, mas não consigo lembrar. Eu sempre esqueço dos meus sonhos. Aliás, acho que sonho pouco. Só lembro de flashs, imagens desconexas que não são passíveis de explicação. Nunca consigo inventar palavras pra contar um sonho a alguém; mas esse foi diferente. Tenho a sensação de que é importante e por isso preciso lembrar. Para lembrar é preciso esquecer que tenho que lembrar.

            Fiz comida, liguei a TV da sala e estava passando o desfile de carnaval, um samba-enredo que leva o tema da Gaya, a Mãe-Terra. Desfile de índios, serpentes marinhas, fogo, terra, raízes, rituais e, na última ala, o caos, a destruição de Gaya. Toda essa mistura de cores, de ritmos e movimentos me remeteu ao sonho que eu já desistira de lembrar. Não ao conteúdo em si, o carnaval ou Gaya, mas ao mistério que havia por traz daquelas imagens. Aos poucos, uma narrativa própria, de início, meio e fim, começou a se desenhar na minha mente.

            Sonhei que eu estava parado em frente a minha casa natal, na cidade de Tugaré. Eu peço para entrar. Os atuais habitantes saem e me deixam sozinho dentro de casa. À medida que eu caminho, vou revivendo memórias do pai, da mãe e do irmão. Abro gavetas, armários e revivo no cheiro das cosias as memórias da infância. Abro a porta do corredor que levava até a sala de estar. No sofá da sala está sentada uma pessoa que me olha e me sorri. É um guri vestido de azul. É como se eu o conhecesse. É estranho, aquele sorriso me hipnotiza. Eu desvio o olhar depois de fitá-lo por segundos. Dou meia-volta em direção à cozinha, por onde entrei, mas agora a porta está trancada. Os atuais moradores me deixaram trancado. Eu arrombo a porta, numa espécie de desespero e fúria. Antes de sair eu olho para trás, para saber se o guri de azul ainda estava lá. Assim que me viro, enxergo apenas um flash branco. Ele fotografa meu rosto. Os atuais moradores da casa natal estão lá fora e me contam que o guri de azul sentado no sofá, era eu. Acordo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: