Diálogos culturais na cidade

por Lisandro Moura

            Desde que iniciamos as atividades dos “Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação”, no âmbito do projeto de extensão do Laboratório de Produção Textual – LAB/Unipampa (PROEXT-MEC), coordenado pela profª. Clara Dornelles, viemos trabalhando para reafirmar a importância formativa da diversidade cultural e do trabalho coletivo na produção de conteúdo para o Jornal Universitário do Pampa – o Junipampa. Alunos, bolsistas e colaboradores internos e externos atuam em várias frentes para espalhar o propósito original do Jornal, que é a escrita colaborativa em ambiente virtual. De março até o momento, já realizamos oficinas, minicursos e palestras sobre diversos temas: jornalismo literário, fotografia, audiovisual, estéticas e culturas contemporâneas, saída de campo à aldeia indígena, midialivrismo e cultura colaborativa. Até o final do ano, outros projetos já estão previstos, dentre eles a possível vinda de Richard Serraria, numa parceria com o Ponto de Cultura “Pampa sem Fronteiras”. Todos esses eventos e temas convergem para o propósito comum de aliar a escrita experimental aos contextos culturais da sua produção. O objetivo, portanto, é criar na cidade espaços para a socialização de experiências na arte e na cultura, que dialoguem com a comunicação e a educação e contemplem os diferentes grupos culturais da cidade.

            Quando aceitei o convite da professora Clara para coordenar as ações dos “Diálogos”, junto com a amiga Mariane Rocha, aluna bolsista da Unipampa, estava ciente de que o desafio seria grande, uma vez que o cenário cultural em Bagé se caracteriza por uma dinâmica ainda bastante competitiva, com grupos sociais que não têm o costume de costurar ações em conjunto, mesmo trabalhando com temas afins. Como é possível que uma cidade tão positivamente provinciana, cujas relações interpessoais são tão próximas, produza ações tão esparsas e desconectadas? Costuma-se dizer que, em Bagé, as pessoas sabem da vida de todo mundo. O estranho é que, quando algum evento cultural acontece, pouca gente comparece, pouca gente fica sabendo, o que da a entender que cada grupo está atuando separadamente, sem buscar conexões e parcerias. A comunicação pessoal funciona para algumas coisas e para outras não. Cito como exemplo o Atelier Coletivo, um espaço cultural de shows que há oito anos funciona como resistência e contraponto ao monopólio das festas consagradas da cidade. Mas agora, infelizmente, fechará suas portas para a nossa indiferença, a indiferença dos bageenses. O Atelier Coletivo era o lugar por onde passava a vanguarda dos movimentos musicais do Brasil, Uruguai e Argentina. Músicos que costumam lotar auditórios, anfiteatros e parques públicos por onde passam, eram recebidos em Bagé, no Atelier, por cinco ou dez pessoas no máximo!  Há algo de estranho na rainha da fronteira.

            Soma-se a isso o fato de que o espaço da produção artística e cultural local parece estar reservado a algumas poucas pessoas que se autodenominam “especialistas”. São pessoas que têm aversão a tudo o que vem de fora e, mesmo assim, são autorizadas, tanto pelo clã ao qual pertencem quanto pelas mídias locais que as legitimam, para falar em nome da arte com propriedade duvidosa, muitas vezes herdada do passado saudosista, do peso do sobrenome e do grau das relações de compadrio. Ou então, aqueles que se utilizam da instituição a qual pertencem para fazer contraponto às outras, deixando transparecer uma mentalidade cartesiana e competitiva, que separa a cidade por grupos de interesses institucionais excludentes, como se as instituições devessem se preocupar mais com disputas de mercado e de público do que com os benefícios sociais, educacionais, políticos e econômicos para a população local.

            Por outro lado, mesmo que o cenário não seja tão favorável para a integração cultural, o desafio de atuar junto à equipe do LAB é estimulante para quem quer estar numa cidade minimamente habitável, em que o tédio costumeiro ceda lugar ao prazer de viver. A sabedoria trágica de Nietzsche nos serve de exemplo: “Aqui poderíamos viver, posto que aqui vivemos”. Tenho a impressão de que Bagé sempre foi mais criticada do que realmente vivida. Apesar de todas as objeções que se possa fazer, “o melhor lugar para viver é aqui e agora”, como defendem os nowtópicos. Nossa aldeia é maior que a grande cidade. E já que aqui vivemos, o melhor a fazer não é fugir pra outro lugar, como muitos gostariam de fazer, mas sim reinventar o espaço a partir dos desejos e sonhos da população. O que é bem diferente de pensar a cidade unicamente voltada para os negócios empresariais e econômicos que geram competição, destruição do patrimônio e conflitos de poder.

            Ao contrário da postura individualista, apostamos em um diálogo efetivo com setores, instituições e agentes culturais, sabendo que quanto mais diversificado é o contexto da produção cultural, mais ricas serão as ações e mais eficazes os impactos sociais. Porque, por mais que tenhamos como objetivo ofertar oficinas, cursos e palestras para e com a comunidade, a nossa preocupação mesmo é com os processos, com os contextos formativos de cada atividade, e não tanto com os seus resultados. O nosso interesse, nos Diálogos, é criar novas dinâmicas para o fazer cultural na cidade, em que a parceria, a cocriação e a partilha dos resultados tenham mais importância do que as disputas hierárquicas e conflitos de egos.

            Há muita gente disposta a isso, sem dúvida. Tem surgido na cidade, nos últimos anos, desde a vinda de instituições educacionais que renovaram as formas de sociabilidade na cidade, novas organizações não convencionais engajadas em iniciativas locais que preconizam o “faça você mesmo”. Inteligentemente não esperam pelo calendário cultural oficial do poder público e, assim, congregam segmentos “refugiados” da normalidade institucional. Grupos de dança na periferia, skatistas, rappers, funkeiros, oficineiros, cineastas experimentais, fotógrafos amadores, hackers, ciclistas, pontos de cultura, coletivo feminista Atena, coletivo contra o aumento da passagem (Roletaço), grupos políticos e culturais como o Levante Popular da Juventude, o Juntos!, empreendimentos solidários, agricultura orgânica sustentável, hortas urbanas, músicos de garagem, atores de fundo de quintal, batuqueiros, gaiteiros, ayahuasqueiros, festivais de cinema, de música, de teatro e de dança, jornalistas que criam projetos para além de seus empregos formais, mídias independentes e colaborativas, web jornais, rádio web, projetos solidários práticos etc.

            As experiências são infinitas e estão muito longe de serem mapeadas por completo. O que falta é uma articulação em rede, por afinidades de projetos e sonhos em comum. No momento, o importante é que esses grupos estão, cada um a seu modo, pensando a cultura na sua dimensão simbólica e comunitária, para além de megaeventos empresariais de entretenimento, como as festas e shows com camarotes vip segregacionistas. A cultura tem papel central na produção de subjetividades e na geração de novas formas de viver a urbe. É a matéria-prima da sociedade que valoriza o conhecimento como instância instauradora de múltiplos sentidos para nossa existência, aqui e agora.

Fonte: Publicado originalmente em Junipampa

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