Selfies: a mentira é a melhor parte da verdade

Por Lisandro Moura

pau de selfie

Arnold e Helen, pioneiros do pau de selfie. (1926)

 

Fui ao shopping e fiquei estranhado.

Um grupo de adolescentes chega na praça de alimentação, escolhe uma mesa, não pede nada pra beber ou comer e permanece por uma hora fazendo selfies pra postar na rede.

Uma menina produziu o cabelo e a maquiagem para isso. Faz horrores de careta. Cada clic um gesto distinto: língua pra fora, coração, beijinho no ombro. Não conversam entre si e não fazem nada além de fotos. Depois se dispersam e cada um segue seu rumo.

Eu sei que as pessoas buscam inconscientemente formas de reinventar e burlar os espaços usando tecnologias, ainda mais no shopping, lugar artificial que só oferece consumo e nada de estímulos criativos.

Mas o que mais me impressiona é que as fotos postadas não são mais consequências de uma determinada experiência vivida e sim a causa principal para forjar experiências na aparência da imagem.

A vida anda tão chata e pobre em acontecimento que fazer selfie em lugares diversos parece ser o nosso único estímulo pra sair de casa. Faz de conta que estamos lá.

Não é o instante da vivência que interessa e sim como ficcionamos a realidade e inventamos uma suposta felicidade na ilusão de estar vivendo.

O resultado disso é o olho iludido de quem vê as imagens na tela e pensa que a vida do outro está melhor e mais divertida que a sua.

A mentira é a melhor parte da verdade.

 

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