A cidade imaginada I

por Lisandro Moura

Aquilo não era uma cidade, nem uma igreja, nem um rio, nem cor, nem luz, nem sombra; era devaneio. Fiquei imóvel por muito tempo, deixando me penetrar suavemente por esse conjunto inexprimível, pela serenidade do céu, pela melancolia da hora. Não sei o que se passa no meu espírito, nem poderia dizê-lo; era um desses momentos inefáveis, em que sentimos em nós alguma coisa que adormece e alguma coisa que desperta. (Victor Hugo)

       São 380km de viagem, repletos de horizontes e imensidões. A travessia é de dúvida, medos e esperanças. “Alguma coisa que adormece e alguma coisa que desperta”. Foi exatamente isso que senti quando pus os olhos naquela cidade que antes eu rejeitava. Para além das desavenças que eu havia alimentado com a cidade de Bagé, tanto pelo ambiente provinciano e coercitivo quanto pelo conservadorismo moral de dominação familiar que ainda existe nesse lugar, e que, inclusive, me motivou a buscar novos horizontes na capital, para além de tudo isso, eu estava de volta e parecia que eu havia retornado a um lugar que já estava em mim. Era um retorno a mim mesmo. A fotografia, neste reencontro, desempenhou papel de guia imaginário, conhecedora dos caminhos, auxiliou-me na tarefa de percorrer a cidade. E eu fotografo tudo, como quem admite que precisa reaprender a ver.

Ruelas. Foto: Lisandro Moura

Ruelas. Foto: Lisandro Moura

Tudo o que briva vê

Tudo o que brilha vê. Foto: Lisandro Moura

       Que cidade deserta é essa? Tem casas antigas e todas elas baixinhas, ruas largas de paralelepípedo onde antigamente circulavam carretas de boi. Cidade de fronteira por onde correm ventos ancestrais. A terra, que sustenta o fardo dos antepassados, é firme e seca. Ao caminhar por estas ruas de pedras portuguesas, povoadas de histórias, os pensamentos voam longe até ceder lugar aos devaneios. As luzes amarelas pintam a noite e as horas da cidade com um tom melancólico e belo, convidando os habitantes para momentos constantes de introspecção. Dizem as pessoas de senso prático que a iluminação de cor amarela tem a função de afastar os cascudos que costumam infestar a cidade nas noites de verão. Mais do que isso, a lâmpada que espreita a rua é um refúgio para os pensamentos dos caminhantes solitários. “Tudo o que brilha vê”, resume a cosmologia imaginada de Bachelard, que eu mesmo posso sentir agora ao estar presente na luz amarela da imagem fotográfica. Já não sou eu que vejo a cidade, é ela que me vê.

          Ao retornar ao pago, visitei lugares onde eu vivi quando criança, a primeira casa onde morei, as ruas por onde passei, o arroio que já secou, os trilhos por onde passava o trem e ainda passa… Redescobri o valor de um “ó de casa”, de cumprimentos de desconhecidos que cruzavam meu caminho, “Buenas tarde, vizinho!”. Presenciei situações extremamente enraizadoras e raras nos dias de hoje, como as tardes que abrigam rodas de chimarrão em frente às casas ou na sombra das árvores.

Cadeiras na calçada. Foto: Lisandro Moura

Cadeiras na calçada. Foto: Lisandro Moura

       Quem passa diante de uma cena dessas e realmente vê, não consegue mais acreditar na máxima do burguês americano que ainda povoa nosso imaginário moderno: Times’s maney (“Tempo é dinheiro”). Ficar sentado em frente à casa, tomando chimarrão e “jogando conversa fora” com o vizinho pode ser um insulto à lógica instrumental predominante do nosso tempo. Através da foto, as pessoas me comunicam, sem que eu precise chegar perto e puxar assunto. “Parem tudo”, dizem-me os habitantes imaginários em frente à casa, “sentem-se e permaneçam em silêncio, observem a rua e vejam como ela passa. Não há mais o que fazer porque tudo já foi feito. Vamos frear a marcha do progresso. Recolham-se e aprendam a ver, ouvir e falar em silêncio… Pra que tanta correria se o que vocês procuram está nos seus próprios olhos?”. Tempo não é dinheiro. Tempo é instante… Carpe Diem! Ao escutar a fotografia, eu descubro aos poucos o que eu havia perdido.

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Texto publicado originalmente em Junipampa

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