A poética da morada

Exposição fotográfica realizada com base no livro A poética do espaço, de Gaston Bachelard. Curadoria de Joba Migliorin.

Cartaz de Ana Remonti

Arte de Ana Remonti

por Lisandro Lucas de Lima Moura

As fotografias desta exposição procuram dar um sentido visual à poesia do verbo habitar, reforçando a noção de casa como morada e como lar. O trabalho surgiu da leitura do livro A poética do espaço, de Gaston Bachelard, dentro do GEPIEM – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Imaginário, Educação e Memória, da UFPel. Surgiu também do meu reencontro com a vida interiorana da cidade de Bagé e seus cenários repletos de arcaísmos e horizontes, que nos convidam para o exercício do olhar criador.

No livro, Bachelard examina, sob o ponto de vista da fenomenologia da imaginação poética, as imagens dos espaços simples, ou, como ele diz, “as imagens do espaço feliz”. Para isso, elege a casa como símbolo predileto dos valores da intimidade.

A intenção do trabalho é transformar os devaneios íntimos propostos por Bachelard em fotografias de casas antigas, de lares que remetem aos elementos da intimidade, e que têm a força de despertar os valores da imaginação que ele propõe. Bachelard considera a imagem da casa como sendo a “topografia do nosso ser íntimo” e a “maior força de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos”.

Fotografar casas foi o meu passatempo favorito desde que retornei a Bagé. Eu vagava com displicência pelos vilarejos, estradas e ruelas da cidade e do campo, bem como de algumas regiões do Uruguai, e deixava meu olhar vagabundo se entregar à simplicidade das casas circundantes. Bachelard me ensinou que as casas não são somente algo que possamos reduzir a objetos físicos e geométricos. Elas são fenômenos da imagem poética, ou seja, “quando a imagem emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado em sua atualidade.” Representam mais do que uma obra arquitetônica. São as marcas do cuidado de seus moradores. São, acima de tudo, espaços vividos, espaços da memória. Com a poética da morada fotografada, passamos do mundo geométrico para o mundo sonhado.

A fotografia desempenha, para mim, um papel de guia imaginário: é conhecedora dos caminhos e auxilia-me na tarefa de percorrer os lugares. Não sendo fotógrafo de formação nem de profissão, considero o ato fotográfico como velho hábito displicente de registro de impressões, como se a fotografia tivesse o poder de me fazer ver melhor, de intensificar o instante e, também, de projetar pensamentos sobre aquilo que vejo. Utilizo a câmera como forma de me aproximar das coisas e das pessoas, como se ela fosse uma espécie de justificativa para o meu olhar intruso. O ato fotográfico, nesse caso, intensifica o instante poético e assinala minha presença no tempo mesmo da imagem.

As fotos que compõem a exposição foram selecionadas com o cuidado e a dedicação do fotógrafo Joba Migliorin, que assina a curadoria do trabalho. Joba construiu uma narrativa visual coesa sobre o tema da morada, sobre o tema do lar como arte de viver bem. Na montagem da exposição, privilegiou a interação do público com as imagens e as frases de Bachelard, relacionando linguagem e conteúdo de forma harmônica e em perfeita relação com A poética do espaço. As citações do livro desempenham uma função de “legenda” e dão sentido às imagens para além da própria imagem. As fotografias se entrelaçam à teia de sisal e dão vida às casas olvidadas, movendo nosso imaginário habitado em direção às lembranças e sonhos de aconchego.

As casas simples das cidades do interior me chamam a atenção pelo aspecto indefinido de sua composição estética. Não são reformadas, não carregam intenções artísticas formais em suas fachadas, não são consideradas patrimônio histórico, tampouco são objetos de adoração da população. No entanto, são essas casas que me interessam, justamente porque têm a força de atrair imagens primordiais. Elas fazem eco aos valores do homem contemporâneo entregue às situações primitivas. Quanto mais simples elas são, maiores serão as nossas lembranças.

Sintam-se em casa…

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Vista intimamente, a mais simples moradia não é bela?

A seguir, fotos do coquetel de inauguração da exposição, feitas por Joba Migliorin:

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