Nós, ruínas. Vós, terra.

Tava Miri - espiritualizada aldeia de pedra

Tava Miri – espiritualizada aldeia de pedra. Foto: Lisandro Moura

Lisandro Moura

Nos dias 18 e 19 de abril de 2013, os alunos do IFSul Campus Bagé visitaram a Aldeia Alvorecer (Tekoá Koenju) e o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, denominado pelos Mbyá Guarani de Tava Miri (Espiritualizada Aldeia de Pedra). A atividade foi coordenada por mim, prof Lisandro Moura, e pela professora Laura Ferrazza, e constitui-se como momento fundamental do Plano Curricular das disciplinas de Sociologia e História para os alunos(as) do 2º semestre dos cursos de Informática e Agropecuária. Para esta etapa, os alunos estudam noções de cultura e diversidade cultural brasileira, tendo como um dos enfoques a cultura ameríndia no Brasil e, especificamente, no Rio Grande do Sul. Em sala de aula, foram abordados assuntos e conceitos importantes para a formação dos jovens no que diz respeito à predisposição para o diálogo intercultural com os povos nativos: etnocentrismo, relativismo cultural, multiculturalismo, mitologia e cosmovisão indígenas, além do estudo sobre a história dos povos missioneiros. Sendo assim, as saídas de campo à Aldeia Koenju e à Tava Miri são oportunidades únicas de vivenciarmos na prática a história das Reduções Jesuíticas, bem como conhecer de perto o modo de vida das comunidades indígenas, da etnia Mbyá Guarani, cuja história está profundamente vinculada à formação do estado do Rio Grande do Sul.

Esta é a segunda viagem a São Miguel das Missões realizada pelo Campus Bagé, e a nossa intenção é que ela aconteça uma vez ao ano, como ação integrada ao NEABI (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do IFSul Campus Bagé). A justificativa diz respeito a necessidade, cada vez maior, de se fazer cumprir a Lei nº 11.645, de 2008, que alterou o Art. 26A da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira) para estabelecer a obrigatoriedade da inserção da temática da história e cultura dos povos indígenas nos currículos oficiais das redes de ensino públicas e privadas. Deste modo, é papel das Ciências Humanas e áreas afins desconstruir a predominância da visão eurocêntrica e etnocêntrica sobre os povos nativos do sul do Brasil, produtora de preconceitos e discriminações, e trabalhar, assim, a cultura ameríndia na sua complexidade, valorizando a sabedoria popular destes povos e sua importância para a autoformação humana e para a formação da identidade cultural nacional.

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju

Alunos do IFSul-Bagé na Tekoá Koenju. Foto: Millena Rodriguez

Mais do que um simples projeto curricular, a viagem foi uma forma de participarmos do drama antigo (e sempre atual) que destruiu toda uma civilização inspirada na justiça, na solidariedade e na vida comunitária. Fomos em busca da Terra sem Mal (Yvy Mara ey), da reconexão com a nossa ancestralidade indígena. Fomos invocar a sabedoria daqueles homens, mulheres e crianças que continuam a pelear em nome da liberdade. Nos juntamos a eles e sentamos à beira do Rio Inhacapetum, bebemos a água da fonte missioneira e pisamos o chão daqueles que nos ensinam a amar e a conviver com a natureza.  A Tekoá, lugar por excelência do viver guarani, não é somente espaço físico, mas é também um território simbólico que nos causou encantamento. O imaginário que envolve a Tekoá Koenju tem poder de influência nas pessoas que lá chegam. “Afetam” nosso estado de espírito e nos fazem ver o mundo por outro ângulo. Por isso, a permanência das populações ameríndias nos seus espaços de origem é de suma importância para a continuidade da vida, para a manutenção dos costumes tradicionais, pois trata-se de uma “terra mítica”, algo que os depositários da fé econômica e desenvolvimentista não podem compreender e nem aceitar.

Foto de Lisandro Moura

Foto: Lisandro Moura

A Tekoá vai muito além da simples tradução de “Aldeia”, pois esta se refere unicamente à noção fundiária, ou seja, áreas reservadas e demarcadas pelo Estado. Quando os juruás (não indígenas) reindicam a terra, é para transformá-la em mercadoria; já para as comunidades tradicionais, sobretudo as indígenas, reivindicar a terra é transformá-la num lugar espiritualmente relevante. A Tekoá é muito mais do que Aldeia, é o espaço da vida, o lugar que permite o modo guarani de estar no mundo.

Percebemos isso logo que chegamos em Koenju. Já pela janela do ônibus avistamos a imagem que poderia ser muito bem representada pela ideia de “paraíso”. A imagem que se formava era a da vida comunitária em harmonia com a natureza. Obviamente que a noção comunitária não está desprovida de conflitos. Dentro do território, há sub-territórios, sub-regiões não tão harmoniosas e de difícil compreensão. Mas o que ficou mesmo foi a imagem das crianças brincando descalças, sorrindo e rolando pelo chão. Em frente às casas, as famílias nos olhavam de longe, com o chimarrão em mãos e o fogo aceso no chão. A música cantada e dançada pelos(as) jovens do Coral Guarani (coordenado pelo indígena Floriano Romeu), o artesanato esculpido por mãos obreiras, as histórias contadas pela Kerexu Rete (Patricia Ferreira), cineasta indígena e professora bilíngue da Escola Estadual Indígena Igíneo Romeu Koenju, ficarão pra sempre guardadas na nossa memória como verdadeiras lições de vida.

Crianças mbyá brincando

Crianças mbyá brincando. Foto: Diovanna da Luz

Não há dúvidas: retornamos da viagem com a força daquelas pessoas e daquele chão. Agora, temos em nós a melodia arquitetônica da Tava Miri e o espírito guerreiro de Sepé Tiaraju, que sobrevive na memória dos vivos. Somos brasileiros, gaúchos, com sangue índio nas veias.

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4 pensamentos sobre “Nós, ruínas. Vós, terra.

  1. Iuri Rocha disse:

    Show de bola essa imersão cultural! Parabéns pelo trabalho professor Lisandro!

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  2. Viviane egas severo disse:

    Sensacional! Parabéns!

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