(des)encontro à beira-mar

O mar é o universo perto de nós.

O mar é o universo perto de nós.

Quando dois seres se encontram numa longa extensão de areia, à beira-mar, sob o som agitado das ondas, está certo que isso não é só o encontro de dois corpos, mas de duas almas em completa comunhão com a natureza e consigo mesmas.

No final da tarde, entre 17h e 18h, eles se encontraram para mais uma peregrinação. Cada um vinha de um lado e combinaram no mesmo ponto 60. “Vi de longe que era tu”, disse a moça, que encantava o rapaz pela forma com que seu corpo comunicava os traços subjetivos da personalidade. O simples andar à beira-mar, postura ereta, passos lentos, cabelos soltos e vestido ao vento, revelam por trás uma mulher segura e independente. O rapaz a observava de longe também, e gostaria de poder ficar escondido só pra demorar o olhar sobre o corpo deslizante. “Ela é uma paisagem toda”, pensava. Ela é livre, nada possui, nem a si mesma. Ela pertence à praia, a praia é toda ela. Quando a moça se aproximou, o rapaz teve a estranha vontade de olhar para o interior das coisas. Olhar para ela é como se ele a visse toda nua.

Ao iniciar a peregrinação em direção ao norte, conversaram sobre o tempo, o espaço, as nuvens, a própria praia, sobre a história do lugar, sobre a justiça brasileira, a situação dos presídios, sobre Luis Eduardo Soares, trocaram ideias sobre o aborto e o ato de ter filhos, família, trabalho… O assunto variava de acordo com a intensidade do vento e do sol. De vez em quando ficavam em silêncio, mas era só o tempo das garças apresentarem sua performance, vangloriosas da habilidade de pescar com o bico. E os dois continuaram a conversa, agora sobre sociologia, psicologia, psicanálise, e entre uma citação e outra, lá estava Wilhelm Reich e Carl Jung. Tinham o costume de mesclar assuntos sem a necessidade de um fio condutor, fazendo referência ora à relação das crianças pequenas com o mar, ora com os mistérios da Mãe Terra. Ele falou também do “sagrado selvagem” e ela do “sagrado feminino”, e concordaram sobre a necessidade do “feminino selvagem”. Concordaram também sobre a existência dos ET’s e, juntos, chegaram a uma conclusão de como eles se manifestam em cada ser, enquanto mais uma garça aterrizava na água.

No final da caminhada os dois sentaram-se de frente para o mar, um ao lado do outro, sob a canga preta que ele carregava, desejoso de poder dividir com ela um espaço pequeno para que, enfim, pudesse ao menos senti-la mais próxima. Ela tinha um beijo acelerado e ansioso pela saliva alheia. Durante a caminhada nenhum dos dois havia bebido água. O beijo fazia jus a toda personalidade dela. O rapaz tem mania de se enamorar por todas as mulheres livres e independentes, que não necessitam dele e nem de ninguém. Depois do beijo rápido, permaneceram em silêncio e se despediram, indo cada um para o seu lado. Nenhum dos dois sequer sabia quando voltariam a se ver novamente, talvez amanhã ou talvez nunca mais. Não importava. Os dois estavam em acordo, em comunhão com a natureza e consigo mesmos, e cientes de que a vida só vale a pena se for feita de encontros.

Um pensamento sobre “(des)encontro à beira-mar

  1. Taíse disse:

    Ela, apressada, tinha medo do fim da despretensão que os unia. De fato, nada a possui, porque nem a si ela tem. Quem sabe o único ponto que a fixe seja o próprio medo.
    Muito antes disso, seu ouvido a chamou para a voz. De um jeito bastante singular as questões do rapaz a faziam querer mais. Ouvir mais e falar mais. Algo que não acontece naturalmente, não para ela, quando um estranho está próximo.
    Ele falou por cima das suas ideias do mestrado. Do que escrevia. Ela o escutou como se visse a luz. Como se encontrasse naquela narrativa a história de muitas vidas, de outros tempos, de toda a história. Sociologia vivida. Nem sabe por que, a moça pensava que aquilo que ele fazia era o que ela (e todos nela) devia fazer. Encontrar ritos e honrá-los, convocando outros a fazerem o mesmo, contando-os. A narrativa por meio da palavra e da imagem que nos deixa aprisionar numa cadeia meio solta de significantes.
    Eram só os dois naquela imensidão de areia e mar unidos pela linguagem. Excelente encontro, ela pensava. A ela faltava esse momento sóbrio e profundo. Que de tão profundo e puro, se desprendia das amarras da pretensão.
    O encontro de duas almas com a do Universo em expansão.

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