Olhos de Coruja: confissões acadêmicas

Lisandro Moura

No verão de 2010 eu estava em um apartamento beira-mar que me cederam para poder escrever minha monografia durante as férias. Tema da pesquisa: o olho sociológico. Foram momentos felizes, de escrita solitária, de contato com a natureza, tendo como única companhia o cheiro da praia, o barulho do vento e os olhos da coruja. Sim, havia uma coruja. Todas as noites ela chegava no mesmo horário, colocava-se no mesmo lugar, num poste de luz que não ligava e ali ficava observando a noite, vendo não sei o que. E todas as noites, madrugada adentro, eu continuava a escrever no aposento aconchegante que me fora emprestado e que, por hora, era meu. De vez em quando ia até a janela de forma inconsciente, mecânica, como quem sai pra buscar inspiração no simples caminhar. E lá estava ela, me olhando. “Que engraçada essa coruja”, pensava. Mexia a cabeça a todo o instante, tinha olhos que mais pareciam óculos. Devia ver o invisível. Passaram-se semanas, e todas as noites era a mesma coisa. Às vezes ela demorava pra chegar, sem me dar por conta, eu começava a ficar preocupado. Mas logo em seguida percebia a estupidez da minha atitude. Afinal, era só uma coruja, e ela não estava nem aí pra mim. Mas, atrasada ou não, ela sempre chegava e isso me era motivo de alívio. Eu seguia lendo e escrevendo, olhando a janela, cuidando a coruja. Até hoje me arrependo de não ter prestado mais a atenção a esse acontecimento, de não ter mostrado esse episódio no meu próprio trabalho, pois ele era, no fundo, o motivo da minha escrita e do tema que nela pulsava a todo instante: o olhar como forma de conhecer, como ato da imaginação sociológica. Estava tão imerso na minha escrita que não via a necessidade de refletir e sonhar com a coruja a olhar. Não percebia que me faltava imaginação, ora justamente aquilo sobre o qual eu escrevia. Faltava-me imaginação para encarar o ato do conhecimento como “intuição admirada do universo”, nas palavras de Maffesoli, ou seja, a “intuição como expressão de um pensamento orgânico”, que vincula o ser humano à natureza e ao mundo cósmico, coisa que a nossa vã sociologia sequer pode ou quer compreender. Na minha ordinária percepção, a coruja não simbolizava outra coisa senão mais um evento, um espetáculo da natureza que não tinha nenhuma ligação comigo e com o que eu fazia. Mas é sabido que a coruja carrega toda uma carga simbólica que alimenta o imaginário dos homens simples, comumente associada à sabedoria, ao conhecimento, à capacidade de observação, de ver em profundidade. Símbolo da filosofia, pássaro favorito de Athena, deusa da sabedoria, tornou-se mascote das ciências humanas e das artes. Estava comigo a todo o instante, não como força sobrenatural ou coisa parecida, mas como imagem, como ideia-força. O resultado final do meu trabalho foi exposto pra banca, mas nem sequer imaginam que ele tem co-autoria, porque foi escrito por duas mãos, ou melhor, por quatro olhos.

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4 pensamentos sobre “Olhos de Coruja: confissões acadêmicas

  1. Márcia disse:

    Lindo!!!!! Que missão bonita você deve ter Lisandro, pois, passar por uma experiência dessa?!?! Acredito… Aí tem mensagem?!?!

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  2. Lisandro Moura disse:

    Obrigado, Márcia! Tem muita coisa aí! 🙂

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  3. Lidiane Helena disse:

    Excelente! Tenho aprendido muito toda vez que venho por aqui. Parabéns! 😉

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