Turista aprendiz: impressões de viagem. Curitiba

Rua das flores

Lisandro Moura

pelos caminhos que ando

 um dia vai ser

   só não sei quando

(Paulo Leminski)

Sempre preferi o termo peregrino à turista. O primeiro representa a ideia de que é preciso caminhar para ver/conhecer. O olhar atento aos detalhes e às contradições do cotidiano em uma determinada cidade só pode ser definido se mantivermos uma postura de peregrino, ou seja, fazer do próprio caminho o objeto principal da nossa viagem. O turista também caminha, mas superficialmente. Não dá atenção aos detalhes, aos objetos, tampouco se importa com a história, as condições sociais e culturais do local. Não lhe interessa compreender os lugares por onde passa, e sim buscar algum prazer e conforto nos espaços de consumo já destinados a ele. Lembro de uma palestra de Yves de La Taille sobre o assunto, quando comparou o turista ao peregrino: o primeiro viaja por recreação, o tempo de viagem é um tempo programado, enquanto que o peregrino viaja porque quer buscar alguma coisa, uma identidade ou uma experiência de vida.

Estive em Curitiba durante nove dias para participar do II Encontro sobre Ensino de Sociologia na Educação Básica e do XV Congresso Brasileiro de Sociologia. Fui para apresentar um trabalho intitulado A educação do olhar no ensino da Sociologia, que trata justamente da habilidade para ver o visível e o invisível, pois nem sempre olhamos aquilo que vemos.. Para os estudantes que desejam apreender o olhar sociológico é necessário passar por um processo de reeducação do olhar, cuja principal característica é a atenção imaginante (termo emprestado de Gastón Bachelard). Mas este texto não é um relatório de trabalho.

Considero nove dias suficientes para conhecer a cidade de Curitiba na sua dimensão aparente, mas insuficiente para compreendê-la na sua totalidade essencial. Por isso, uso no título deste texto o termo turista ao invés de peregrino. Mas um turista aprendiz, que tenta vivenciar uma experiência peregrina. Uma referência ao livro de Mario de Andrade.

            Curitiba, assim como qualquer outra cidade, tem as suas contradições. Para um bageense, é uma cidade quente que fez o pessoal do norte passar frio. Nas pesquisas e no imaginário da população brasileira ela aparece como a melhor cidade do mundo para se viver (Revista Veja 2007), a mais sustentável do mundo (Globe Fórum, Suécia 2010), a cidade mais “esperta” do mundo (Revista Forbes, 2009), pólo de inovação tecnológica do Brasil (IPEA). Na experiência vivida cotidianamente é uma cidade tensa, violenta até, e durante o dia se pode presenciar um grande número de moradores de rua; uma cidade moderna sem alma, sem espírito, sem aura, sem identidade, fruto do progresso. Cidade desencantada, onde a dimensão simbólica foi praticamente apagada pelo desenvolvimento econômico que a fez cidade-modelo para os negócios (Revista Veja, 2007). Curitiba é o exemplo daquilo que Juremir Machado da Silva defende em seus livros: todo imaginário é real e todo real é imaginário. Mito e realidade não se separam.

UFPR

Mas tem sim seus encantamentos: possui ruas belíssimas, mulheres encantadoras, canteiros floridos, prédios históricos restaurados, uma universidade pública esplendorosa e linhas de ônibus super tecnológicas (qual não foi o meu estranhamento ao entrar num ônibus e ouvir música clássica durante o trajeto! Fiz cara de intelectual). Tem o Museu Oscar Niemeyer (MON), conhecido como Museu do Olho, onde pude apreciar novamente a linda exposição de fotos da Maureen Bisilliat, que já havia passado por São Paulo, e cujo olhar poético sobre o passado do Brasil, ainda tão presente, faz dela uma fotógrafa que escreve com a imagem e vê com a palavra. São mais de 200 fotos que sintetizam a visão da fotógrafa sobre os universos do real e do imaginário, tanto em fotografias como em livros e documentários. No museu havia também a exposição Dores da Colômbia, do colombiano Fernando Botero, que mostra em suas formas arredondas uma Colômbia dilacerada pela violência. Infelizmente, não pude ver tudo o que havia, o tempo era curto. O turista não fica mais do que 15 segundos em frente a uma obra de arte. Precisa correr para não furar a programação.

Museu Oscar Niemeyer (MON)

fotografia de Maureen Bisilliat


Alguém já deve ter dito que é durante a noite que se pode conhecer profundamente um lugar. Tenho total acordo. Não se pode visitar uma cidade sem passar pelos seus bares, cenas noturnas onde os espíritos são livres e as relações interpessoais são dionisíacas. Viver a noite nos traz fôlego para enfrentar o dia. O bar do Torto, o Lado B, o Blues Velvet, a Casa Verde, a festa do DCE, botecos onde se pode ver que os curitibanos não são tão frios assim como muitos comentam. As gurias até gostam do sotaque gaúcho. Bah! Mas e a música? A final, que música representa o povo curitibano? O que caracteriza o paranaense? O fandango, gênero musical e coreográfico fortemente associado ao modo de vida da população caiçara tem pouco espaço na capital. Mesmo assim, pude assistir ao show da Orquestra Rabecônica do Brasil, constituída por músicos de diversas regiões do país que vivem no Paraná. O espetáculo busca representar a cultura popular paranaense através de canções e bailadas que reúnem Fandango, Folia do Divino, Boi de Mamão, Terço Cantado… Pude observar que a tradição sempre convive com a modernidade, mas não sem contradições e percalços. Faltava ginga no corpo dos jovens músicos e dos dançarinos urbanos, “mestres” da cultura caiçara. A representação acaba sempre sendo algo diferente daquilo que pretende representar. Era bonito, mas havia um desencontro entre tradição e modernidade.

Orquestra de rabecas

Na culinária, só comi uma comida típica: o barreado. Aliás, muito gostoso! O resto foi hambúrguers, pizzas e comida de restaurante chinês! Cidade globalizada é assim…

            Por fim, só me resta dizer que as cidades são constantemente reinventadas a partir de experiências particulares, formadas por aqueles que caminham e tecem as tramas urbanas. Cada pessoa constrói trajetos pessoais numa determinada cidade, as vezes são percepções por demais diferentes daqueles dados oficiais. Curitiba é tudo e não é nada ao mesmo tempo. O excesso que se esvazia. E que se enche de novo a partir das impressões “individualmente coletivas” sobre o cotidiano das ruas. Neste caso, sei que minhas impressões são rasas, dignas de um turista. Um dia quero ser peregrino em Curitiba…

            Ontem cheguei a Porto Alegre, e aqui sou peregrino. A primeira coisa que fiz foi andar pelo centro. Andar para ver, ver para conhecer. Tenho que concordar com uma conclusão bairrista de Mário Quintana sobre a cidade: “não perderíamos nada se o universo todo fosse reduzido ao centro antigo de Porto Alegre”. Volver al sur é sempre bom!

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Um pensamento sobre “Turista aprendiz: impressões de viagem. Curitiba

  1. Bruna disse:

    Infelizmente nada mais que uma visão bairrista da melhor cidade do país.
    Para quem gostaria de sair peregrino, teve uma visão limitada e distorcida da cidade.
    Mas como educados que somos, aceitamos de bom grado a sua opinião.
    Sds

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