Texto de Lisandro Moura, professor do IFSul, publicado no Jornal Folha do Sul Gaúcho, edição de 15 de julho de 2011.
“O homem é um ser que espera, e por isso não pode evitar a decepção.” É assim que resumo o espetáculo La Perseguida, do Teatro VagaMundo, que estará em Bagé de 15 a 17 de julho, por ocasião das comemorações do bicentenário da Rainha da Fronteira. Tive a oportunidade de ver o espetáculo por três vezes, uma em Santa Maria e duas em Porto Alegre. O Grupo já percorreu importantes cidades do Brasil e alguns países vizinhos, como Colômbia e Uruguai. Com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, o espetáculo protagonizado pelo ator bageense, Daniel Lucas, finalmente chega a nossa cidade num momento histórico para a cultura local.
O espetáculo conta com a presença em cena do palhaço Rabito, que vem esbanjar alegrias e expor as contradições entre o desejo e a realidade, entre a paixão e a decepção. Estamos sempre em busca de um sentido maior para as nossas vidas, para além do eterno presente, muitas vezes dilacerado pelas circunstâncias sociais. Sonhamos com o (im)possível sem nunca atingi-lo. Rabito vive a esperar a sua tão “perseguida” amada, mas a vida já não é simpática àqueles que amam e que esperam. Temos a tendência a encarar a espera como momento improdutivo, como um vazio, um insulto à lógica e ao ritmo do nosso tempo. Tempo é dinheiro e ninguém gosta de perdê-lo.
Mas a imagem do palhaço rompe com essa verdade provisória e faz da espera um momento vivido com a intensidade dos sonhos, da alegria, da estupidez, do erro, da embriaguez… O palhaço devolve ao mundo o que a modernidade lhe roubou: a imaginação criadora e a capacidade de reencantar a vida. Em oposição ao nosso tempo da falta de tempo, o palhaço Rabito faz do presente um momento vivido com sentido, mediante brincadeiras e fantasias. É na aparência insignificante do presente que a vida ganha sentido. A rotina e a banalidade transformam-se em instantes de pura elevação.
Vejo no palhaço Rabito um ser total, capaz de nos fazer chorar e sorrir. Um palhaço dócil e, ao mesmo tempo, bruto, competente em arrancar do público aplausos e gestos de condenação. É porque ele não age mais sob a lógica da moral e das certezas. Ele não aceita a separação entre o bem e o mal, entre a alegria e a tristeza. O palhaço Rabito é, paradoxalmente, um ser humano completo e inacabado, que revoluciona a vida ao transformar a espera num momento simbólico e imprevisível.
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Ficha Técnica: Direção: Gabriela Amado. Atuação: Daniel Lucas. Música: Márcio Echeveria. Ilustração: Paulo Trarbach. Produção Artística: Teatro VagaMundo. Operação de Luz: Juliet Castaldello. Técnico de som: Régis D’Ávila.
http://teatrovagamundo.wordpress.com/
Fonte:
http://www.folhadosulgaucho.com.br/?p=9&n=11162
